"Eram tempos muito passivos, os discursos eram todos gastos, e os Irmãos Catita trouxeram uma frescura na contestação, uma atitude provocadora a que não estávamos habituados", recorda o realizador Rui Simões. Foi em 1991 que os Irmãos - Manuel João Vieira, João Leitão, Gimba, Francisco Ferro e Luís Sampaio -começaram a tocar juntos no chamado Very SentimentalShow, mistura de música de intervenção com pornochanchada ao som de boleros, sambas ou rock. Sarcasmo em estado puro. .Os concertos do Cinearte, o teatro da Barraca, em Santos, tornaram-se local de peregrinação. "O Cinearte, numa determinada altura, e o Ritz Club, noutra, correspondiam a um certo underground lisboeta, noites diferentes, não consumistas, onde se reuniam uma série de pessoas ligadas às artes e não só", conta Simões. "Decidi que queria filmar aquilo. Não se podia perder aquele momento." E foi assim que começou a aparecer com a câmara na mão - no Cinearte, na Queima das Fitas de Coimbra, no Ritz, onde os Irmãos deram um memorável concerto em 1996, com convidados especialíssimos como a stripper Michelle, o cantor italiano Sandro Core ou o boneco Donald. Roupas coloridas, chapéus de palha, uma piada brejeira na ponta da língua, os copos a passar de mão em mão, amigos na plateia. .As fitas ficaram guardadas até ao ano passado, quando Rui Simões decidiu que, apesar da qualidade das imagens não ser a melhor, valia a pena editar em DVD o Very Sentimental Show. Revivalismo? Um pouco, mas sobretudo vontade de mostrar que aquilo existiu: "Ali estão comportamentos de um certo momento em Lisboa. Quem não esteve lá pode agora ver como era aquele ambiente, um pouco decadente, é certo, mas também algo naif. E que teve importância.".A ficção catita.Foi no Cinearte, precisamente, que Filipe Melo conheceu Manuel João Vieira. Filipe tinha 17 anos e tocava num pequeno grupo chamado Los Tomatos, que fazia a primeira parte do espectáculo dos "fantásticos" Irmãos Catita. Filipe assistia àquilo e cantava de cor Conan, o Homem Rã, Lourenço Marques ou Putas de Portugal e do Mundo. .Ficaram amigos desde então, trabalharam juntos em projectos musicais e numa candidatura presidencial falhada . Filipe Melo é acima de tudo um músico de jazz mas é também um apaixonado pelo cinema de série B, alternativo, kitsch. Há quatro anos concretizou um sonho antigo ao produzir um filme de zombies, a curta-metragem I'll See You in My Dreams, onde Manuel João Vieira era actor convidado. Agora, este Mundo Catita é uma série de televisão de seis episódios de meia hora baseada no universo e nas personagens dos Catita. "Vieira e seus comparsas", diz Filipe Melo..Neste caso não há revivalismo, é mesmo boa disposição e vontade de fazer televisão de qualidade. "Sabemos que ninguém leva muito a sério o universo dos Irmãos Catita, tal como não se leva a sério os filmes de zombies ou de acção dos ano 80. Mas queremos mostrar que, às vezes, as pessoas que parecem mais abandalhadas são as que fazem as coisas mais a sério. Isso foi o que me atraiu na personagem do Vieira", conta Filipe Melo, que escreveu o argumento, realiza e, com a sua produtora, a Pato Profissional, produz Mundo Catita. Tudo em conjunto com João Leitão, da produtora Indivídeo, que, apesar do nome, não é o guitarrista dos Catita .A ideia era olhar para aquelas personagens criadas pelos vários músicos e imaginar-lhes uma vida, um percurso, amigos. Tudo ficção e sem actores profissionais. Pedro Cavalheiro, que há dez anos aparecia a comer peixe cru em cima do palco, num número de arrepiar, interpreta o vilão da série. E Suzy, outra das convidadas especiais no concerto do Ritz, também integra o elenco. .Queda e redenção de Vieira. "Queremos que as pessoas que gostavam dos Catita se identifiquem, que não achem que é um atentado à memória. Mas ao mesmo tempo não queríamos fazer o óbvio, uma comédia cheia de sketches", diz Filipe Melo, explicando que a série terá momentos inspirados nos musicais, "situações bastante idiotas e também uma história de amor.".Este é o resumo possível da história, segundo Manuel João: "Há aqui o entrelaçar de algumas tradições narrativas do Ocidente, entre as quais Charles Dickens e os contos de Natal. Por outro lado, a história de uma banda é uma coisa mais pessoal, com o percurso de uma criatura, que neste caso é o vocalista dos Irmãos Catita, que está a passar por uma fase bastante baixa, está em queda livre. E depois tem um contacto com o sobrenatural que o salva. Há uma redenção e ele, como Fénix, renasce das próprias cinzas"..Feita com empréstimos bancários e sem estar ainda comprada por nenhuma televisão, Mundo Catita está praticamente filmada. A rodagem passou por prisões, bares de alterne, ruas de Lisboa, o Cinearte, pois claro. Mas o mais curioso é que a série não tem um único momento de concerto dos Irmãos Catita..Para vê-los tocar o melhor é não esperar pela série e ir à passagem de ano do Santiago Alquimista. "Sempre que damos um concerto está cheio", garante Vieira. Mesmo com repertório antigo. "Temos a tentação de tocar músicas novas mas resistimos. Só nos interessa viver num mundo antigo, isolado, completamente desfasado da realidade. A realidade não nos interessa. É para os outros." É assim o universo Catita.