Resgatar o futuro

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Todos aqueles que que estão atentos às relações entre o crescimento económico e o ambiente global sabem que o primitivismo da nossa tecnologia e o abuso na delapidação de recursos naturais e ecossistemas complexos, cometido ao longos dos últimos dois séculos, consiste na mais séria ameaça lançada sobre as gerações futuras. Por outro lado, o economista francês Thomas Piketty, no seu extraordinário best-seller, O Capital no Século XXI (Temas e Debates/Círculo de Leitores), investiga as razões que explicam o aparente paradoxo entre o aumento das desigualdades e a tendência para uma taxa de crescimento mais modesta da economia global. Baseando-se numa ambiciosa análise estatística da evolução dos rendimentos e sua distribuição a nível praticamente mundial, desde o século XVIII à atualidade, Piketty mostra que Simon Kuznets não tinha razão quando em 1953-55 defendeu a existência de uma curva virtuosa, que apontaria para uma diminuição progressiva das desigualdades. Através da fórmula simples r > g, Piketty mostra que os rendimentos do património acumulado (o "r" da fórmula) se "recapitalizam mais depressa que o ritmo da produção e dos salários", de que depende o crescimento (g). Isto é, ao contrário do fator de convergência representado pela difusão de conhecimento, a concentração de capital sob todas as formas acelera a divergência, tornando-se "rentista", dominando "cada vez mais fortemente aqueles que apenas possuem o seu trabalho". Se não existir uma política pública de combate à desigualdade, esta tenderá a intensificar-se. A proteção do ambiente e a justiça social são duas faces da mesma tarefa: construir uma economia em que "o passado não devore o futuro". Piketty vem falar à Gulbenkian esta tarde. Uma oportunidade a não perder.

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