República do Congo. O país do "saka-saka"

Mala de viagem (149). Um retrato muito pessoal da República do Congo.
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Em casa de uma família com origem no Congo-Brazaville, foi-me proporcionado comer um dos pratos mais consumidos pelos congoleses, o "saka-saka", também conhecido como "pondu", que recorre à mandioca como ingrediente principal, acompanhando normalmente peixe do rio Congo, ou carne de frango, por exemplo. Naquele repasto, era peixe o ingrediente escolhido, mas de um qualquer rio francês ou do mar. O peixe foi fumado e, enquanto foi cozinhado em lume brando juntamente com as folhas da mandioca, juntou-se cebola, alho, manteiga de amendoim e óleo de palma para tempero. O nome "saka-saka" provém da pronúncia congolesa de "mandioca", dobrada para enfatizar a quantidade para nomear um prato em que as folhas são o suporte dos outros ingredientes. Estávamos em Paris. No Congo, o avô de Augustin tinha trabalhado para o Conselho de Defesa do Império, quando o general Charles de Gaulle lançou um manifesto a anunciar a criação dessa estrutura para fazer de Brazaville a capital da "França Livre", uma vez que Paris havia sido tomada pelas tropas alemãs. Isso aconteceu no ano de 1940, quando ressaltou a importância da cidade congolesa e da colónia francesa, pelo menos até 1942, quando Argel ficou com esse estatuto. A capital do Congo receberia a Conferência de Brazaville, em 1944, na qual se aflorou a discussão da independência congolesa para eventualmente depois do fim da Segunda Guerra Mundial. "O meu avô dizia-me que se queria evitar a arbitragem internacional na discussão do futuro do império colonial francês", a designada África Equatorial Francesa (atuais Chade, República Centro-Africana, República do Congo e Gabão), revelou-me durante aquele jantar e, ainda, que o avô fora um dos executivos dessa Conferência. "Ao contrário de algumas opiniões, o general quis manter o Império Francês em África, tal como Salazar com o Império Português", comparou. Charles de Gaulle defendia que os cidadãos das colónias teriam direitos iguais aos cidadãos franceses, tal como votar na Assembleia Nacional Francesa, "e a população nativa, tal como a minha família, seria empregada nos serviços públicos do Estado francês". Sabe-se quanto as reformas económicas seriam feitas para diminuir a natureza exploradora da relação entre a França e as suas colónias. A possibilidade de independência completa foi totalmente rejeitada, porque "os objetivos da missão civilizadora de França excluíam qualquer pensamento de autonomia ou qualquer possibilidade de desenvolvimento fora do Império Francês", referiu. O avô de Augustin colaborou com todos os governadores que, desde a Segunda Guerra Mundial, se estabeleceram no território em nome de França, desde o governador Christian Robert Roger Laigret, em 1946, ao alto-comissário Guy Noël Georgy, de 1959 à independência no ano seguinte, que aliás foi padrinho de nascimento de Agustin. Quando Georgy regressou a Paris, os avós e os pais de Augustin também, o que fez com que a capital francesa passasse a ser a morada principal da família, embora aquele diplomata tenha seguido carreira noutros países. "O meu avô contou-me várias vezes como foi emocionante a entrega do território para a sua independência administrativa." Guy Noël Georgy era formado em Direito, em Línguas Orientais e em Diplomacia e já estivera nos Camarões e no Gabão antes de abraçar o último ano do Congo francês. Na última década da sua vida, escreveu, por exemplo, "Le Petit Soldat de l"Empire. La véritable histoire de la décolonisation en Afrique" (1992), onde conta a história do abade Fulbert Youlou, líder nacionalista e primeiro presidente da República do Congo, entre 1960 e 1963, que queria oferecer um elefante ao general Charles de Gaulle. O "soldadinho do Império", feito personagem do livro, responde que acha uma boa ideia, porque o general francês ficaria feliz - "Deus o fez um homem-elefante especial para o povo francês (...) ele é maior e mais forte do que todos os outros, tem um nariz comprido, orelhas grandes, olhos pequenos e astutos e não se parece com ninguém." O autor quis dizer que, à margem da descolonização, os brancos e os negros de África ainda sabiam mostrar espontaneamente uns aos outros a sua estima, o seu afeto e o seu humor. O Império Francês desfez-se e o abade sacou o elefante!

Jorge Mangorrinha, professor universitário e pós-doutorado em turismo, faz um ensaio de memória através de fragmentos de viagem realizadas por ar, mar e terra e por olhares, leituras e conversas, entre o sonho que se fez realidade e a realidade que se fez sonho. Viagens fascinantes que são descritas pelo único português que até à data colocou em palavras imaginativas o que sente por todos os países do mundo. Uma série para ler aqui, na edição digital do DN.

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