REPORTAGEM: Refugiados congoleses chegam a Angola após dias a caminhar pela mata para fugir às decapitações

Ngoyi aguarda de pé, aparentemente sereno, pela documentação para poder ficar com a família em Angola numa das filas de registo de refugiados congoleses nos arredores do Dundo, enquanto o filho, de poucos dias e cujo nome não se lembra, chora ao colo.
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A única certeza, desabafa à agência Lusa, é que regressar a Kamako, localidade na província do Kasai Ocidental, República Democrática do Congo (RDCongo), a poucos quilómetros da fronteira angolana e tomada pelas milícias de Kamuina Nsapu, está fora de questão.

"Vi as milícias cortarem cabeças de pessoas que eu conhecia. Com as minhas responsabilidades, não podia ficar mais e partimos para Angola", conta Ngoyi Kabongo Emanuel, de 34 anos, ladeado pelo irmão gémeo, Kanku Kabongo Emanuel, que o ajuda a revezar-se na tarefa de cuidar dos filhos.

Por "responsabilidades", explica depois, sempre em língua Tshiluba, refere tratar-se da mulher, que estava grávida aquando dos ataques das milícias, os restantes quatro filhos, além da irmã mais nova e seus filhos, e ainda o irmão gémeo.

O último filho de Ngoyi nasceu a 18 de maio, já no Dundo, depois de todos terem caminhado, pela mata, mais de um dia, até serem recolhidos na fronteira pelos camiões das Forças Armadas Angolanas (FAA).

"Destruíram a minha casa, cortavam as cabeças. Tive muito medo", diz.

Ngoyi, nome por tradição local dado ao primeiro gémeo a nascer, e o irmão Kanku (nome dado ao segundo gémeo a nascer) tinham uma pequena loja onde vendiam saldos de telemóvel.

Ambos tentam esquecer a destruição e a morte a que assistiram em Kamako, terra de etnia Baluba, por entre um ar de normalidade disfarçada. A mesma que impede de se lembrar do nome do filho que tenta adormecer nos braços, em pleno centro de refugiados de Cacanda, na província da Lunda Norte.

Thiery Munganga Ngoyi nasceu já no Dundo, pouco depois de a família ter chegado a Angola. O nome é recordado pela mulher que, sentada, controla a fila para o registo biométrico realizado naquele centro pelos elementos do Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) e pelas autoridades angolanas.

Um registo que permite continuar em Angola e receber alimentação básica para um mês, após o pânico da fuga a pé, levando apenas o que tinham vestido.

"Andamos nas matas, escondidos. Mas agora que consegui escapar ao que se passa lá, não penso em voltar. Quero ficar cá em Angola para já", desabafa Ngoyi.

Na mesma fila onde os operadores do ACNUR registam os dados - inclusive a íris, como meio de segurança - para posterior emissão dos documentos como refugiados, Niemba Ester, uma vendedora congolesa de 37 anos, aguarda com a filha de 12 meses ao colo. Tem mais cinco filhos consigo, a mais velha com 13 anos, e todos caminharam 20 quilómetros desde outra zona de Kamakoko até à fronteira do Dundo, onde chegou a 08 de maio.

O marido, agente da polícia congolesa, e por isso alvo preferencial das milícias Kamuina Nsapu, que contestam a autoridade de Kinshasa, foi decapitado a 25 de abril.

A casa foi queimada e restou à família procurar segurança em Angola.

"Não tenho mais nada, não tenho para onde ir, não sei o que fazer. Tenho seis filhos comigo e tive de fugir, a pé, com eles. Foram quatro dias a caminhar", conta Niemba, já depois de ter recebido a documentação do ACNUR no centro de Cacanda, a cerca de cinco quilómetros do centro do Dundo, capital da província angolana da Lunda Norte, a 1.200 quilómetros para leste de Luanda.

Com a vida desfeita, não tem tempo para pensar no futuro e a maior preocupação é mesmo arranjar comida para os filhos. "Deram-me uma vez comida [no centro], depois tive de arranjar. Mas enquanto não tiver segurança não volto lá no Kasai", atira.

A onda de violência provocada pelas milícias Kamuina Nsapu, conflitos étnico-políticos que afetam sobretudo a região do Kasai, já provocou no último ano um milhão de deslocados e mais de 30.000 chegaram ao Dundo, como refugiados, só desde finais de março, segundo dados das autoridades angolanas.

Niemba Ester e os seus seis filhos fazem parte desse número, tal como Ngolela Gode, que agora faz vida também no centro de refugiados de Cacanda.

Por ali tem um cobertor e um metro quadrado de chão para dormir.

Caminhou sozinha durante uma semana, desde o bairro de Cinque Muyege, no Kasai, até chegar a 28 de abril ao Dundo.

"Perdi o meu marido, vi quatro meninos morrer. Não consegui aguentar mais e tive de fugir", diz a camponesa com cerca de 50 anos. É que a idade ao certo, simplesmente não sabe, diz, enquanto prepara a kalembula, uma rama de batata-doce com óleo de palma, numa das centenas de pequenas fogueiras do acampamento.

"Este fogo vai ser para alimentar sete pessoas. É o que há", afirma.

Numa realidade comum aos milhares de refugiados com quem partilha o espaço, Ngolela desabafa, angustiada: "Estou a sofrer, não tenho roupa para vestir, só o que tenho no corpo".

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