O ciclone Idai, que devastou o centro de Moçambique na semana passada, provocou cerca de três centenas de mortos e deixou milhares de pessoas sem casa e sem nada para comer..Hoje, em Tica, na zona dos rios Pungué e Macequesse, região do Dondo, província de Sofala, Marta Armando meteu-se numa fila e acabou por receber alimentos oferecidos pela Petrada, uma empresa de transportes tanzaniana. Saiu carregada com os sacos e um grande ar de alívio. .Mais de uma semana depois do ciclone, com a única ligação à cidade da Beira cortada, milhares de pessoas estão sem casa mas também sem alimentos. .A situação agravou-se pelo facto de o ciclone ter deitado abaixo as árvores de fruto, como disse à Lusa Simão Adriano, 29 anos, dois filhos menores, também ele junto da escola de Tica, como Marta, mas sem direito a um saco. .Simão Adriano mora no 12.º bairro de Tica. O ciclone levou-lhe tudo e vive agora numa casa improvisada de capim. Teve água até à cintura, bebe água do rio ou da chuva, e diz, olhando a distribuição de alimentos coordenada por Mohamed de Sousa, "no meu bairro ainda não foi ninguém"..Antes do ciclone, diz, sempre havia fruta, banana ou abacate, manga ou laranja. Hoje tudo isso acabou também. E ele semeava feijão, quiabo e milho mas também tudo isso a água levou..É por isso que olha com tristeza para os que levam um saco de arroz, uma caixa de esparguete, cinco litros de óleo, um pacote de sal e outro de açúcar. Mohamed de Sousa diz que outros camiões irão voltar à zona, quando aquele for todo distribuído..Não está a ver a confusão que se forma na fila, ainda que supervisionada pela polícia. Não vê quem aparece furtivamente entre as ervas e se mete na fila, não vê os repetentes, os que se metem na fila para receber nova dose, não vê os que enganam tudo e todos e se chegam à frente sem sequer terem esperado um minuto, partindo alegremente de saco às costas.. E há os que veem tudo aquilo do outro lado da estrada. E há uma mulher que tem uma coisa para contar, ainda que depois diga que não quer que escrevam o nome:."Na semana passada vieram aqui fazer uma distribuição de arroz. Os dirigentes do bairro abriram os sacos e deram um copo de arroz a cada família. E depois foram vistos a vender o resto"..É por isso que, para enganar a fome, há por estes dias, aproveitando a subida das águas, também muita gente a pescar macacana ou mussofo, os peixes que mais vêm na rede. .Como António Carlos, que num dia consegue apanhar três baldes de peixe, cada um vendido a 150 meticais (menos de dois euros). Diz que se vende bem, mas quem compra quer baixar para 100 meticais. .Num restaurante na Beira um prato de peixe pode custar mais de 500 meticais.