Reportagem em Carvalhelhos: Águas santas

Publicado a: 
Atualizado a: 

Três copos de água antes do pequeno-almoço, dois até ao almoço e um antes do jantar. A rotina é seguida à risca, há meio século, por Marília e Fernando Abeillard Nunes, o casal mais emblemático de todos os clientes das Termas de Carvalhelhos, perto de Boticas. Não serão muitos, que este local mágico em sossego e com um discreto charme decadente não dá lucro à empresa de água engarrafada há alguns anos. Mas quem se detém no Buvete, a praça com quiosque de tijolo onde o líquido é bombeado directamente da fonte, a 22 graus, para os copos etiquetados com nomes próprios, fica sem vontade de sair daquela sombra. E de ouvir para sempre as aventuras de Marília e Fernando, unidos na saúde com que enfrentam os 80 anos e "sem filhos, para já".

As termas, servidas por uma estalagem com 20 quartos e debruada a vermelho sobre branco, as cores de Carvalhelhos, são um ex libris que a empresa mantém cuidadosamente, com deliciosos pormenores anacrónicos. Aqui se preenche uma ficha de inscrição com nome próprio, morada e profissão - e um item anexo para os dados da esposa. Quem fica alojado no edifício principal deve chegar até à meia-noite, hora de fecho de portas, sem hipótese de concessão de uma cópia da chave. Almoço e jantar são anunciados por sineta, muito útil para uma população idosa e com problemas auditivos, embora também aqui venham alguns jovens e crianças com problemas de pele.

Os caminhos arborizados que conduzem até à zona do Buvete e dos Banhos são uma viagem no tempo, com veredas cuidadas e pontes sobre um riacho anónimo e bucólico. A beber água dos seus copos antigos e abaulados estão Marília e Fernando, este mais preocupado com as notícias de crimes que lê no jornal. "Chegámos a ir para outras termas quando Carvalhelhos mudou de gerência, experimentámos Monfortinho, mas estas são inimitáveis". É só aqui que o marido, chefe de contencioso do Banco Ultramarino reformado, consegue dar vida nova a um fígado com 83 anos, normalmente enjoado. O casal portuense aproveita sempre os três meses em que as termas estão abertas, de Julho a Setembro. Estão a terminar uma temporada de 15 dias, com muitos quilómetros percorridos no circuito do complexo, até à cascata e ao castro romano. Fernando não fez os Banhos este ano, "baixa-lhe muito a tensão e achei prudente evitar", esclarece a mulher, gestora deste e outros assuntos da saúde do casal. Em sete banheiras supervisionadas e cuidadosamente limpas com vapores de 100 graus por Aldina pode optar-se pela simples imersão nas águas minero-medicinais, pela imersão subaquática, hidromassagem, enteroclises (espécie de clister) e irrigação ginecológica. Os compartimentos têm azulejos antigos e muito recato, que ninguém quer mostrar as suas mazelas, sejam elas psoríases, eczemas ou micoses. Há um painel que mostra os balneários ocupados e mais uma sineta que toca quando um utente se sente mal.

"Lavo a cara com Carvalhelhos todo o ano", garante Marília, e é fácil perceber os benefícios da crença nas "águas que curam", indicadas para "doenças da pele e das mucosas, do aparelho digestivo, rins e bexiga", como se lê num cartaz antigo da fábrica, localizada mais acima. Os 81 anos da mulher que assim fala brilham por essa certeza, pela ginástica praticada duas vezes por semana - Fernando prefere o ioga - e pelas viagens que não dispensa com o marido, "vamos sempre até ao Algarve na primeira metade das férias, o resto é para estar aqui". Irene, de serviço ao Buvete enquanto não começam as aulas do curso de Psicologia, escuta-a embevecida quando Marília relata a escapadela até Sanxenxo, no Carnaval que passou. Tem sido sempre assim há 54 anos, só mais quatro do que aqueles que já gastaram a vir aqui e depois de outros dois de namoro por carta, "a dez tostões por dia, um dinheirão".

Das águas santas de Carvalhelhos se diz que foram descobertas em em 1915, por uma pastora que nelas lavou os pés em chaga e ficou curada. Ganharam fama com um fotógrafo do Porto que chegou aqui "como um Lázaro" e documentou a sua própria recuperação. A fábrica de água engarrafada funciona desde 1948 e passou para as mãos da família Lavouras, da região, em 1984. Maria vai guiando os passos através do labirinto de rodas dentadas que extraem a água de dois furos, o mais recente dos quais a 230 metros de profundidade e com capacidade para durar 15 anos. Aqui saem 46 mil garrafas das pequenas por hora, ali 15 mil das grandes. Noutra máquina incorpora-se o Co2 na água para sair gaseificada, mais à frente as essências dão-lhe o sabor de limão que está na moda. Pequenas multidões verdes e brancas percorrem a fábrica num corropio constante, e com sorte serão parte dos 65 ou 70 milhões de unidades vendidas este ano.

No ambiente mais tranquilo do Buvete, nas termas, Marília e Fernando terminam a dose de copos de água da manhã. "A colheita é boa, é deste ano", graceja ele. "A de Chaves é mais quente, dá para depenar um frango", responde-lhe ela. Riem-se e partem enlaçados pelas veredas familiares de Carvalhelhos.

Diário de Notícias
www.dn.pt