REPORTAGEM - Viagem ao desespero americano

<div>Em nenhuma outra terra os efeitos da recessão económica se fizeram sentir como aqui. Há duas décadas, Camden, no estado de New Jersey, era uma cidade industrial, uma das mais produtivas da América. Agora é a mais pobre e a mais violenta de todo o país. Desemprego, gestão política danosa e falta de apoios sociais empurraram a população para o fim da linha. Mergulho no escuro.</div> <div> </div>
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Metade das casas de Chestnut Street estão devolutas. Algumas estão mesmo a cair de podres - e tão inclinadas ao peso do abandono que uns quantos habitantes decidiram colocar vigas encostadas às paredes, para impedir que elas ruíssem para os passeios. A maioria das habitações tem tapumes nas portas e janelas, para impedir o consumo de droga no seu interior. Junto às escolas, sinais apelam aos traficantes para que não vendam crack nas zonas que circundam os recintos, mas a polícia garante que ninguém respeita o pedido. O lixo voa ao sabor do vento que sobe do rio Delaware e atravessa as ruas quadriculadas sem qualquer obstáculo. As lojas estão fechadas, as fábricas abandonadas, as bombas de gasolina há muito que secaram.Com setenta mil habitantes, a cidade de Camden, no estado americano de New Jersey, pagou caro o preço da crise. Era, desde o final da Segunda Guerra Mundial, um dos pólos mais produtivos da Costa Leste americana. As maiores fábricas de têxteis e calçado, os principais estaleiros navais e uma boa parte da indústria alimentar do país localizavam-se aqui. Nessa altura, tinha uma população de 120 mil, lojas em todas as esquinas, bares, teatros, cinemas. «Mas o esbanjamento de dinheiro deu cabo disto. Quando a crise chegou e os bancos fecharam as torneiras, já não havia muito a fazer», diz Joe Paprzycki, escritor nascido na cidade e autor de Last Rites, o principal estudo sobre a decadência económica da região.A história de Camden é, nas suas palavras, uma história de ganância. «Se analisarmos o que aconteceu aqui, vemos que os donos das fábricas privilegiaram sempre o seu conforto pessoal. Nunca modernizaram as empresas e nunca investiram seriamente na qualificação dos empregados», diz agora, na casa onde cresceu com os avós, na zona sul da cidade. «Nos anos de 1990, o governo de New Jersey percebeu que a globalização ia acabar por fechar ou levar daqui para fora a maioria das companhias. E então decidiu investir duzentos milhões de euros em modernização. Mas isso também não resultou.» Segundo o jornal Philadelphia Inquirer, só cinco por cento desses fundos foram aplicados de forma insuspeita. Os últimos três mayors que governaram a cidade estão presos por corrupção, ligações à máfia e tráfico de influências.Em 1992, as autoridades construíram um enorme oceanário, a primeira medida de um plano de reabilitação urbana. Nove anos depois, ergueram um dos maiores estádios de basebol do país nas margens do Delaware. E, em 2004, foi aberta uma linha de comboios rápidos com paragem em Camden. «Tudo medidas para encher o olho e ganhar votos, mas com poucos benefícios reais», defende Paprzycki. «Explique-me lá qual é o ganho em ter um estádio sempre vazio? Uma estação de comboios onde não entra nem sai ninguém? Ou um bando de turistas que chega de autocarro ao parque de estacionamento, vê os peixes, e parte como se estivesse a fugir de alguma coisa?»Hoje, Camden apresenta uma taxa de desemprego que ronda os quarenta por cento e o abandono escolar está próximo de setenta por cento. A população tem o PIB per capita mais baixo do país e, segundo o FBI, o mais elevado índice de criminalidade violenta e homicídios dos Estados Unidos. A venda de droga é um dos poucos negócios que florescem na cidade e é dominada por quatro gangs rivais - Latin Kings, Bloods, Los Nietos e MS-13. A cidade abastece toda a região metropolitana de Filadélfia que, apesar de pertencer a outro estado, fica a escassos dez quilómetros, na outra margem do rio. «Há seguramente mais de cem mercados de droga ao ar livre e continuam a crescer», e John Williamson, presidente do sindicato de polícia local, encolhe os ombros desconsolado. «O problema é que o orçamento de segurança, em vez de reforçado, está a ser cortado. Desde Janeiro o nosso efectivo passou de 373 para 205 agentes. Estamos absolutamente vulneráveis.» Williamson ainda vai ter uma reunião nesse dia com os líderes autárquicos, mas não acredita em milagres. «A preocupação de quem manda é o orçamento, não são as pessoas.»Os despojos do diaChamar à Ferry Avenue um cemitério operário não será propriamente uma injustiça. Quando se percorre a estrada esburacada que um dia acolheu mais de uma centena de empresas tem-se a sensação de caminhar por uma zona de guerra depois de um bombardeamento. Esqueletos de fábricas abandonadas nas duas margens do alcatrão, armazéns de vidros partidos, silos carcomidos pela ferrugem. A única empresa que continua de portas abertas é a R. Fanelle's & Sons, um ferro-velho que se alimenta de todo o desperdício em redor, de todas as vigas retorcidas, de todos os carros que avariaram, de todos os caixilhos de janelas, electrodomésticos estragados, torres de combustão, fornos industriais.O frio aperta, mas Marcelo e Carlos sacodem o Inverno do corpo dançando ao mesmo tempo que trabalham. Vieram da Guatemala para se estabelecer em Camden há uma dezena de anos. Um transporta chapas de ferro, o outro divide-as com um maçarico. Um rádio passa música latina em altos berros e a música ecoa por filas e filas de ferro espalmado, espalhadas ao longo de caminhos de terra batida, que se estendem até perder de vista. «Damos conta de quatrocentas toneladas de metal por dia», há-de confessar mais tarde Brian Rogalski, gerente da empresa. «Damos emprego a vinte pessoas, mas estamos a pensar contratar mais. Enquanto Camden estiver a ser desmantelada, não nos vai faltar trabalho de certeza.»Marcelo e Carlos vivem ali mesmo, nas instalações da Fanelle"s. Acumulam o ofício metalúrgico com a segurança da propriedade. Os restantes trabalhadores têm casa em Camden e, para eles, os guatemaltecos são «uns sortudos», porque não têm de percorrer as ruas da cidade à noite, nem ouvir os tiroteios constantes. Em média, uma pessoa é morta a cada cinco dias nas ruas de Camden. Quase toda a gente anda armada e não faz qualquer questão em escondê-lo. Quando se pára um carro e se pede informações, a primeira reacção de quem é abordado é abrir o casaco e mostrar a coronha de uma pistola. Depois pergunta se queremos crack. É mais fácil obter crack do que direcções para o ferro velho. «Aqui há uns tempos apareceu-nos um tipo com 37 mil dólares [25 mil euros] em fio de cobre. Tinha-o roubado de uma fábrica. Nós não queríamos comprar material ilegal e por isso ele apontou-nos a pistola. Lá combinámos para ele aparecer no dia seguinte e ligámos para a polícia. O tipo foi preso e nós tivemos uma sorte dos diabos», diz Marcelo.Nas zonas mais escondidas da cidade, junto aos ribeiros que circundam o Delaware, existe uma vintena de campos de sem-abrigo, a que os locais apelidam de tent cities. Aqui desaguam os que perderam os empregos e as casas, os que se agarraram ao álcool e às drogas, algumas famílias inteiras, muitos imigrantes ilegais. «Não pode viver aqui quem quer», diz Geano Ortiz, autoproclamado mayor da tent city de Backwoods, onde vivem trinta almas. «Estou aqui há dois anos e meio, por isso sou eu que mando. Se alguém quiser vir morar connosco, tem de me pedir autorização. Então eu reúno todos os que aqui vivem e decidimos em conjunto.»Para chegar a Backwoods é preciso atravessar uma estrada de terra batida, onde os camiões costumam despejar entulho e todo o tipo de ilegalidades. «Até já aconteceu encontrarmos o corpo de uma rapariga», diz o mayor. Há 12 tendas espalhadas por uma centena de metros quadrados. Garrafas vazias, pacotes de bolachas e bidões de água de um lado, roupa e a fogueira - que nunca se apaga - no outro. Alessandro Ruiz vive ali com a mulher Ana, que está grávida de dois meses. Foi despedido da última oficina de carros que havia na cidade, quando esta faliu. Aguentou a casa dois meses, mas acabou despejado. Vieram para ali há três meses. Ele não esconde que tem o vício do álcool, «mas se não fosse isso morria de frio».Os homens e mulheres que vivem em Backwoods obedecem a uma série de normas para assegurar a sobrevivência. Há escalas de serviço para recolher lenha e ir buscar água. As refeições - almoço e jantar - são cozinhadas para todos. «Se alguém falta ao jantar três vezes sem avisar, tem de sair do campo», assegura Geano. Além de que, semanalmente, cada um tem de contribuir com dez dólares para as despesas - enlatados, cerveja e acendalhas. «Não me interessa como cada um ganha o dinheiro. Não digo que não haja raparigas que se prostituam e tipos que andem por aí a roubar. Desde que o dinheiro cá esteja certinho, isso não tem nada que ver comigo.» Geano diz que não rouba, vive de pequenos biscates. «Só não tenho um emprego porque simplesmente não há empregos.»Não é bem assim. Ainda existe, em abono da verdade, uma grande companhia que continua a funcionar em Camden. A Campbell"s, o maior exportador mundial de sopas, cujas latas desenhadas por Andy Warhol ajudaram a lançar as raízes da pop art. O edifício é um complexo luxuoso guardado por vedações altas, câmaras de videovigilância e muitos seguranças. Tem uma cafetaria infinitamente superior ao único restaurante que existe na cidade. Tem um original de Warhol na sala de reuniões. Tem 1200 trabalhadores e nem meia centena vive em Camden.«Nós nascemos aqui e crescemos aqui, mas a cidade chegou a um ponto em que já não podíamos ter cá as fábricas», diz Antonhy Sanzio, o director de comunicação. «Em tempos, todos os campos em redor de Camden estavam cultivados com tomate, que nós comprávamos e transformávamos. Hoje mudámos as fábricas para o Ohio, a Califórnia, o Texas e a Carolina do Norte. A única coisa que continua a funcionar em Camden é a sede, onde estão localizados os serviços administrativos. Isso requer pessoal qualificado, com educação universitária. Não existem licenciados nesta região.»Sanzio não se cansa de repetir que permanecer em Camden foi um acto de coragem. «A globalização exige modernização e, como toda a gente sabe, não foi o que aconteceu aqui.» Mas, na sua visão das coisas, a decadência da cidade tem outro motivo. «As populações com poder de compra começaram a deslocar-se para os subúrbios e, em vez do comércio tradicional ser preservado, foi autorizada a construção de dois grandes centros comerciais, que acabaram com as lojas da cidade. Hoje, mesmo que uma empresa tente prosperar, não vai ter viabilidade, porque os consumidores não estão aqui. Os centros comerciais não são o único motivo para a ruína de Camden, mas são uma parte importante.»Futuro? Qual futuro?Na escola de Santo António de Pádua, 92 por cento das crianças têm ascendência latina. Há aulas do jardim de infância até ao sexto ano e a maior parte das crianças tem um irmão preso, uma história de violência doméstica, um problema de droga ou alcoolismo em casa. «O governo local tem investido no topo, não na base. Há uma pirâmide invertida», diz Ana Murriez, reitora da instituição. «Não há apoio social e isso é um problema grave. Em vez disso, os membros do conselho escolar são pagos acima do que merecem, pelo simples facto de serem eles mesmos a decidir quanto recebem. Eu abdico dos computadores de última geração que recebemos todos os anos se puder usar esse dinheiro para comprar comida. Há miúdos que só fazem as suas refeições aqui.»Ana Muriez desfia dificuldades. Diz que conta com o apoio da Igreja local para arranjar roupas para os seus alunos, mas que o auxílio é parco. «Às vezes é muito dramático. Conseguimos arranjar trinta casacos para distribuir pelas crianças, mas depois percebemos que há cinquernta que vêm todos os dias para a escola mal agasalhadas.» Para reforçar as refeições e permitir às crianças mais carenciadas levarem alguma comida para casa, a professora criou o projecto de uma horta biológica no recreio. «Parte-me o coração pensar que há crianças que não têm nada para jantar. E veja, é por isso que muitos deles abandonam a escola. À primeira oportunidade de ganhar dinheiro - legal ou ilegalmente - fogem. O governo não percebe isto? Que a longo prazo vai gastar menos se apostar na protecção dos mais fracos e deixar-se de grandes obras que só servem para dar nas vistas?»É a mesma conversa dos professores, dos sem-abrigo, dos que ainda resistem em Camden. A América esqueceu-os, mas continuam a lutar, mesmo os que sabem que o combate está perdido. Joe Paprzycki, o escritor que estudou a decadência de Camden, decidiu apostar dinheiro do seu bolso na abertura de um teatro. «Aqui nasceu e foi enterrado Walt Whitman, um dos maiores rostos da cultura americana. Se lhe queremos fazer justiça, temos de lutar para tornar este sítio em tudo menos um deserto de ideias.» Transformou o antigo bar dos avós em sala de teatro, convocou a população a prestar audições e contratou um encenador para dar corpo a uma peça. Com a sua reputação, não lhe foi difícil encher a casa. Aos forasteiros cobrou entrada, aos habitantes de Camden distribuiu bilhetes gratuitamente. «Se tratarmos as pessoas com dignidade, elas agem dignamente. Se as enganarmos constantemente, se as explorarmos até elas não aguentarem mais, então os sítios morrem e as pessoas definham. E, quando isso acontece, é o próprio sentido de humanidade que desaparece.»

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