Renamo elege novo líder em tempos difíceis para a Frelimo - analistas

A Renamo, principal partido da oposição em Moçambique, inicia hoje o processo de eleição de um novo líder, numa altura em que o partido do governo, a Frelimo, no poder há mais de 40 anos, vive "uma situação complicada", consideram analistas ouvidos pela Lusa.
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Luca Bussotti, investigador e diretor académico da Universidade Técnica de Moçambique, salienta que "a RENAMO está em fase de grande crescimento", ao contrário da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) que "está em dificuldades" por não ter uma agenda política e não ter feito, nos últimos anos, uma proposta política original.

"O partido [Frelimo] vive uma situação interna complicada", destacou o investigador, salientando que as últimas eleições evidenciaram isso mesmo.

Enredada nos escândalos de corrupção e dívidas ocultas contraídas pelo Governo, a Frelimo tem assistido também à subida de tom da contestação interna: na sexta-feira, alguns membros do partido, exigiram a dissolução do comité do partido na cidade de Quelimane, a quarta maior do país, por considerarem que não tem condições para continuar em funções devido a sucessivos desaires eleitorais.

Também o ex-presidente Joaquim Chissano, em entrevista à emissora pública Rádio Moçambique, pediu a "purificação das fileiras" do partido. "O partido tem de ser íntegro. Este é um trabalho que precisa de ser persistente e no partido é necessário que trabalhemos neste aspeto com profundidade", frisou o antigo chefe de Estado.

Com eleições gerais marcadas para outubro, o sucessor de Afonso Dhlakama, que faleceu no ano passado, e futuro rival do atual presidente Filipe Nyusi, terá assim um ambiente mais favorável à mudança e a alternância de poder não é impossível, acreditam os especialistas ouvidos pela Lusa.

"Quando um partido deixa de fazer política, pode perder o poder", vaticina Luca Bussotti, considerando que se Samito (Samora Machel Júnior) decidisse avançar com uma candidatura própria iria criar sérias dificuldades à Frelimo "porque seria uma novidade no panorama político que sempre foi bipolarizado, uma variável incontrolável que iria desequilibrar esse cenário"

"A candidatura de Samito Machel às eleições representaria um sério risco para a Frelimo", sustenta Luca Bussoti.

Samora Machel Júnior, filho do primeiro Presidente da República de Moçambique, disse em dezembro estar preparado para assumir a liderança da Frelimo e não excluiu a possibilidade de se candidatar às legislativas ou presidenciais, se o partido o entender.

Para o académico, mais do que um partido político, a Frelimo é atualmente "um conjunto de lobbies e de interesses" muito "fragmentado", que, no entanto, mantém o poder porque "todos têm interesse".

"Nos países africanos, a dificuldade de não abandonar o poder deve-se ao facto de ser através do poder político que se chega ao poder económico. Os homens mais ricos são chefes de estado", disse.

Também o especialista em assuntos africanos, Eric Morier-Genoud, admite que a alternância de poder é uma possibilidade que preocupa a Frelimo e que esta força tentará impedir "por muitos meios" que a Renamo ganhe eleições.

"Houve uma mudança dentro da Frelimo que mudou de presidente, a questão agora é a transição dentro da própria RENAMO. Não sabemos quem vai ser, mas vai ser um passo importante", sublinhou.

Há também que ter em conta as possíveis coligações com outros partidos, nomeadamente o MDM (Movimento Democrático de Moçambique).

"Se recuarmos no tempo em 1999, a Renamo fez uma união eleitoral com os partidos da oposição e esteve muito perto de ganhar o poder", recordou o professor de História Africana da Queen's University de Belfast.

"Penso que estamos numa altura parecida: quem vai chegar ao poder, que estratégias vai adotar, qual vai ser a posição do governo, cada vez mais impopular por causa da crise económica que muita gente associa às dívidas?", interroga-se o investigador, sugerindo que "talvez haja algum cansaço" e desejo de mudança da população.

A Renamo realiza entre hoje e quinta-feira um congresso eletivo para escolher o sucessor de Afonso Dhlakama, que morreu de doença a 03 de maio do ano passado.

O congresso terá a participação de 700 delegados e 300 convidados e vai realizar-se no distrito da Gorongosa, província de Sofala, centro de Moçambique.

Até ao momento, existem três candidatos prováveis: o irmão de Afonso Dhlakama e dirigente da ala militar Elias Dhlakama, o coordenador interino Ossufo Momade e o atual secretário-geral Manuel Bissopo.

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