Relato de um 'herói' espanhol na arena

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As lides que José Manuel Cha-Cha da Câmara realizou na improvisada arena da Praça da Liberdade, ainda fazem as delícias da afición barranquenha. Pepe Câmara, como ficou célebre no meio tauromáquico, toureava nas festas de 1971, ainda na condição de aprendiz, quando foi colhido por um touro.

Transportado de urgência para o Hospital de Beja, viria a ser sujeito a uma intervenção cirúrgica, sendo que todas as despesas foram custeadas pela população de Barrancos, que, quatros anos volvidos, também viria a oferecer o traje de luces que o matador usou no dia da alternativa em Madrid. Dezoito anos depois, Pepe Câmara devolveu o "traje" às gentes de Barrancos, vindo a tornar-se numa presença assídua nas touradas de Agosto, onde, no início de carreira, desafiou a própria lei.

Desde logo, porque cruzou a fronteira a "salto", vindo de Sevilha para bandarilhar. Havia problemas com os seus documentos, o que o obrigou a ficar escondido no campo. Entrou na vila às 08.00, por altura do encerro, com touros em pontas. Colocou-se à frente de um novilho, mas acabou por escorregar e foi colhido. Como estava clandestino não podia recorrer ao sindicato para pagar a despesa no hospital, levando a população a rea- lizar um peditório.

Pepe ficou tão sensibilizado que nunca mais "largou" Barrancos. Em algumas das entrevistas concedidas assegura que quando entrava na praça da vila alentejana tinha uma emoção semelhante à da praça de Madrid. É verdade que nem sempre as coisas corriam pelo melhor, mas o tradicional Manolete/si no sabe tourear/ porque te mete, que a afición costuma cantar às más exibições, nunca foi ouvido por Pepe Câmara. A ele, tudo era perdoado.

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