A pouco mais de um mês do primeiro aniversário da invasão russa da Ucrânia, está aberta a porta ao fornecimento de tanques pesados ocidentais aos ucranianos - algo que era tabu ainda há semanas, por receio de provocar a escalada do conflito do lado de Moscovo. O Reino Unido prometeu ontem entregar os seus Challenger 2 a Kiev, desencadeando a rápida reprovação dos russos e pressionando a Alemanha. Berlim tem recusado fornecer os seus Leopard - só disponibilizou para já os veículos blindados de infantaria Marder - e tem que autorizar que outros países o façam. A Polónia disse estar preparada para enviar aos ucranianos os tanques de fabrico alemão que possui no seu arsenal.."Trazer tanques para a zona de conflito, longe de travar os combates, vai apenas servir para intensificar as operações de combate, gerando mais baixas, incluindo entre a população civil", reagiu a Embaixada da Rússia em Londres ao anúncio de que os britânicos planeiam enviar os Challenger. Em causa estarão uma dezena destes tanques, dois a ser fornecidos de imediato e os restantes mais tarde..O primeiro-ministro britânico, Rishi Sunak, "delineou a ambição do Reino Unido de intensificar o apoio à Ucrânia, incluindo através do fornecimento dos tanques Challenger 2 e sistemas de artilharia adicionais", durante um telefonema com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky. A informação foi avançada por um porta-voz de Downing Street, com Zelensky a agradecer através do Twitter.."O apoio sempre forte do Reino Unido é agora impenetrável e preparado para desafios. Numa conversa com [...] Sunak, agradeci a decisão, que vai não só fortalecer-nos no campo de batalha, mas também enviar o sinal certo a outros parceiros", escreveu o presidente ucraniano, enviando um recado aos alemães, que estão a recusar fornecer os seus Leopard..Na terça-feira, durante uma visita a Kharkiv da chefe da diplomacia alemã, Annalena Baerbock, o seu homólogo ucraniano, Dmytro Kuleba, alegou que quanto mais tempo Berlim esperar para disponibilizar os Leopard "mais pessoas vão morrer". Segundo Kuleba, "quanto mais cedo a decisão for tomada, mais cedo esta guerra vai acabar com a vitória da Ucrânia e não haverá mais guerra na Europa"..Berlim aceitou apenas enviar cerca de 40 veículos de combate de infantaria Marder, à semelhança dos franceses, que prometeram entregar aos ucranianos os seus veículos de combate blindados AMX-10 RC (que têm rodas em vez de esteiras, mas que estão equipados com um canhão muito mais pesado, típico de um tanque). Também os norte-americanos vão fornecer a Kiev os veículos de combate de infantaria Bradley..Os tanques pesados, como os Leopard alemães ou os Challenger britânicos, são mais eficazes, precisos e letais e têm um comportamento melhor fora de estrada. O modelo alemão, em particular, é visto pelos peritos como um dos melhores em todo o mundo, sendo amplamente usado pelos países europeus. Há por isso disponibilidade de peças extra e munições. Os ucranianos terão sempre que aprender a trabalhar com eles, pois estão acostumados aos tanques de fabrico soviético - receberam dos seus parceiros, desde a invasão, mais de 300 deles modernizados..Na quarta-feira, o presidente polaco, Andrzej Duda, mostrou-se disponível para fornecer 14 dos Leopard do arsenal da Polónia, "dentro do quadro de uma coligação internacional". Berlim tem, contudo, que aprovar antes de Varsóvia poder dar esse passo . A próxima reunião do Grupo de Contacto para a Defesa da Ucrânia está marcado para a próxima sexta-feira, na base aérea norte-americana Ramstein, na Alemanha..O porta-voz de Downing Street disse que Sunak e Zelensky concordaram com a "necessidade de aproveitar o momento", depois de as vitórias ucranianas terem "empurrado as tropas russas para trás". Isto numa altura em que ambos os lados lutam pelo controlo de Soledar, na região de Donetsk, no leste. Kiev tem alertado para o facto de Moscovo estar a planear uma nova grande ofensiva para a primavera e o objetivo é estar preparada para defender o território ucraniano..Ontem, o dia foi marcado por novos bombardeamentos russos contra infraestruturas ucranianas, incluindo em cidades como Kiev, Kherson e Lviv, obrigando a cortes de energia forçados em 11 regiões. Em Dnipro, um edifício residencial foi atingido por um míssil, com várias pessoas a ficarem presas nos escombros. Pelo menos cinco pessoas morreram e 39 ficaram feridas, entre elas sete crianças (a mais nova de apenas três anos)..susana.f.salvador@dn.pt