Regresso ao passado com Michael J. Fox

Em estreia na Apple TV+,<em> Still: A História de Michael J. Fox</em> é uma enérgica e comovente revisitação dos momentos-chave de uma vida cortada ao meio, entre o sucesso e a doença. Um documentário, de Davis Guggenheim, que nos permite matar saudades da estrela de <em>Regresso ao Futuro.</em>
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Numa entrevista recente ao programa CBS Sunday Morning, Michael J. Fox, de 61 anos, dizia à jornalista Jane Pauley que "não vai chegar aos 80". Uma triste declaração vinda, com naturalidade, de alguém que se encontra num estado avançado da doença de Parkinson e tende a fazer cálculos realistas. O pessimismo contido na frase não corresponde, porém, ao verdadeiro espírito do ator canadiano: "Reconheço o quão difícil isto é para as pessoas e para mim, mas tenho um determinado conjunto de habilidades que me permite lidar com esta coisa. E apercebo-me, com gratidão, que o otimismo é sustentável. Se formos capazes de encontrar algo pelo qual ser gratos, então teremos aquilo que nos faz olhar e seguir em frente", acrescentou na mesma entrevista televisiva. É este o homem sem autocomiseração que se apresenta também diante da câmara em Still: A História de Michael J. Fox, o documentário agora disponível na Apple TV+, que traça o percurso da estrela de Hollywood dos anos 1980, enquanto nos devolve à sua luminosa presença, com as marcas físicas da atual condição.

O título Still, que neste contexto se traduz por "quieto", sinaliza a grande ironia da vida: mesmo antes de ser diagnosticado com Parkinson, parecia que o corpo de Fox tinha bichos-carpinteiros. Ele era a criança que atravessava o quarteirão sozinha para ir comprar doces com dinheiro falso, o rapaz mais baixo da turma, mas igualmente o mais engraçado e vivaço, e o jovem rebelde que começou por conquistar a televisão com o seu charme cómico, passando depois a maior parte do tempo a correr entre dois sets para responder às solicitações dos produtores que o tornariam um fenómeno juvenil, o favorito das bilheteiras... Mas "still" pode significar também "ainda": apesar do que a doença lhe fez, Michael J. Fox ainda é quem era, ainda usa do sentido de humor para afastar as dores que, silenciosamente, o torturam o tempo todo.

O realizador, Davis Guggenheim (vencedor de um Óscar pelo documentário He Named Me Malala), agarrou-se a essa irrequietude tão visível em Fox para conceber um filme sintonizado com a ideia de rapidez. Não só aquela que diz respeito à sua ascensão em Hollywood, mas também à chegada das más notícias: o ator tinha apenas 29 anos quando recebeu o diagnóstico.

Still começa por aí, reconstituindo o momento em que Fox se deparou com o primeiro sintoma, deitado numa cama de hotel, durante a rodagem de Doutor Sarilhos, e após uma noite de copos com Woody Harrelson: o seu dedo mindinho tremelicante seria um efeito passageiro da ressaca? Era bom que sim. Mas como diz o narrador da sua própria história, aquele "tremor era uma mensagem do futuro". E, tal e qual uma viagem no tempo, daqui segue-se em direção ao passado, até à casa de partida da infância, para percorrer uma narrativa (baseada em memórias escritas) que mistura imagens de arquivo, cenas do jovem ator em séries ou filmes, e cenas dramatizadas para recriação biográfica - como se fosse um filme realizado por Michael J. Fox. Íntimo e tocante, mas ligado à corrente elétrica da fama e à essência de uma figura que marcou toda uma geração.

Sem recorrer a legendas para identificar os filmes dentro da montagem dinâmica, Guggenheim convida o espectador a mergulhar nas referências que tem: há excertos de O Segredo do Meu Sucesso (1987), com linhas de diálogo usadas para refletir os esforços do início da carreira de Fox, quando este tentava provar o seu valor na indústria americana; há episódios de Quem Sai aos Seus (1982-1989) que mostram a sua personagem exausta com um novo emprego, sendo essa a época em que andava esbaforido a correr entre os estúdios da série e o set de Regresso ao Futuro (1985) - espelhando-se também nesse filme icónico a sua expressão de quem não sabe o que lhe está a acontecer (leia-se: sucesso astronómico) -; e ainda num ou noutro fragmento de Por Amor ou Por Dinheiro (1993) se descodificam gestos explícitos de um ator que estava a encobrir os sintomas de Parkinson incorporando-os engenhosamente nas personagens.

Ver aqui a vida a atravessar os filmes é arrepiante. Mas o coração deste documentário está nos interregnos informais com o velho Michael J. Fox em frente à câmara, frágil mas bem-parecido, igual a si próprio, a conversar com o realizador, acrescentando à história pessoal breves comentários mais ou menos espirituosos, sobretudo referentes ao dia-a-dia. Por vezes vemo-lo com o fisioterapeuta ou com a terapeuta da fala, noutras ocasiões acedemos ao calor emocional da sua família, mas no reverso destas imagens do "futuro" estão sempre as imagens do passado, quando Fox era um autêntico fenómeno, aparecendo em todas as capas de revista, talk shows e passadeiras vermelhas, pondo as raparigas a suspirar, enquanto o amor se revelava através de uma certa sitcom... Foi no set de Quem Sai aos Seus que conheceu Tracy Pollan. E o amor ainda dura.

Outro aspeto importante do lado de cá do futuro é a dedicação do ator à sua causa óbvia, tendo criado em 2000 uma fundação para financiar a pesquisa em torno da doença de Parkinson. De resto, documentários como este podem ser muito inspiradores: cada vislumbre da sua luta diária corresponde a um espírito jovem que se recusa a deixar de ser Michael J. Fox, embora o sucesso dos eighties lhe pareça menos real do que aquilo que está a viver agora. Como se interrogava o excêntrico cientista de Back to the Future, "porque é que as coisas são tão pesadas no futuro? Há algum problema com a força gravitacional da Terra?". Talvez a resposta seja apenas que a vida é madrasta.

dnot@dn.pt

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