Regresso à lareira

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Neste regresso às lareiras do nosso passado vamos relendo nacos de história, recordando "estórias" que nos contaram e desabafos sentidos que a memória não apaga. Nunca esqueço que uma minha querida e saudosa Avó me contava, naqueles momentos de carinho e proximidade que nunca esqueço, que "os ingleses quiseram controlar as nossas receitas" e o "nosso ouro". Toma cuidado com eles dizia-me com a voz serena e a arguta inteligência que todos lhe reconheciam. Era uma verdadeira "matriarca"! Ela que nascera em 1905 e acompanhara os dramas das duas grandes guerras e as crises bancárias e financeiras do Estado português. E que era acionista do Banco Agrícola e Industrial Visiense, nacionalizado após o 25 de Abril. Não podemos ignorar, como nos ensinam Leonor Freire Costa, Pedro Lains e Susana Miranda, numa interessante "História Económica e Social de Portugal", que Portugal em razão de um empréstimo solicitado em 1927, foi sujeito a "controlo do exterior", algo a que nunca tinha sido sujeito. "Ao contrário, a Grécia tinha já conhecido esse regime em finais do século XIX ", voltou a conhecê-lo em 1924 e 1927 e com "imposições relativas ao funcionamento do sistema bancário, do sistema tributário e à estabilização do dracma". A cada momento desta crise que abala a Europa não esqueço as recordações da lareira e fui reler Sólon um dos denominados "sete sábios" da Grécia antiga e que viveu entre 638 e 558 antes de Cristo. Uma das medidas que o imortalizou foi a abolição da escravidão por dívidas. E o que ele concebeu? Falsificou a moeda. É que "se o povo confiava nas moedas cunhadas elas não precisavam de ser totalmente puras. O que o Estado dissesse que era dinheiro seria aceite como tal"! Daí que " uma moeda de prata só tinha 73% do minério. O resto era cobre. A quantidade de prata que havia mesmo lá dentro não seria tão importante". É claro que se "a população não engolisse o plano económico de Sólon seria o fim da moeda. E provavelmente de Atenas." Assim Sólon passou a usar "dracmas com cobre no meio das compras do Governo injetando dinheiro na economia". E "com mais dinheiro na praça mais gente podia comprar coisas, incluindo trigo". E assim "quem estava sem nada saia da lama. E finalmente podia pagar as suas dívidas." E, assim, Sólon acalmou os ânimos não se ignorando " que os agricultores pobres queriam o perdão total da dívidas e uma reforma agrária"! Como a história nos ensina que há momentos que importa conhecer. Esta história pode ser desenvolvida num interessante livro de Alexandre Versignassi com o sugestivo título "Crash". E nele temos uma breve, e simples, história da economia que nos traz da Grécia antiga ao século XXI. Que interessante leitura de Verão. Com um regresso às lareiras do nosso passado!

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