A Grécia esteve ontem debaixo de pressões fortíssimas, na reunião dos ministros europeus da Justiça e da Administração Interna da UE, em Amesterdão. Os governantes discutiram mecanismos para a UE lidar com os fluxos migratórios, com críticas dirigidas a Atenas. O governo grego é acusado de não ter capacidade para lidar com a entrada diária de migrantes e refugiados e há quem defenda que o país deve estar fora de Schengen.."Se o governo de Atenas não fizer mais para proteger as fronteiras externas [da UE], deve discutir-se abertamente a exclusão temporária da Grécia do espaço Schengen", afirmou a ministra do Interior austríaca, Johanna Mikl-Leitner, fazendo lembrar declarações passadas do ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, quando o problema de Atenas era a discussão do resgate financeiro grego..Na reunião de ontem, os governantes pediram que seja dada a hipótese de prorrogar durante os próximos dois anos os controlos internos que foram reintroduzidos em países do espaço Schengen, quer por causa da crise dos refugiados e migrantes quer por causa de atentados terroristas como os de 13 de novembro em Paris. Segundo o ministro do Interior da Holanda, país na presidência rotativa da UE, os ministros dos 28 Estados membros "convidaram a Comissão Europeia a preparar bases legais e práticas para continuar com o controlo temporário de fronteiras". A ativação do Artigo 26.º do Código de Controlo de Fronteiras Schengen, esclareceu Klaas Dijkhoff, não se destina a "excluir um país" do acordo de livre circulação..Tal artigo refere que os países podem reinstaurar controlos fronteiriços no espaço Schengen durante um período de seis meses, renovável por três vezes - o que daria até maio de 2018. Entre os países que reintroduziram temporariamente esses controlos estão a França, a Alemanha, a Dinamarca, a Suécia e a Áustria..O prolongamento das medidas, alegadamente temporárias, poderia deixar de fora do espaço Schengen a Grécia, país onde só este ano já chegaram 40 mil pessoas. Responsáveis gregos dizem que cortar a ligação por estrada, além de ser fisicamente impossível, não resolverá o problema. Mas países como a Alemanha sentem a pressão do eleitorado descontente com a chegada de refugiados e migrantes em massa ao seu território..Uma das vozes mais críticas da atuação do governo grego, a ministra austríaca Johanna Mikl-Leitner acrescentou que "quando um dos signatários de Schengen não cumpre as suas obrigações de forma permanente e hesita em aceitar ajuda, não devemos por de lado a possibilidade [de expulsão]"..A medida não é descartada, até pelo comissário para as Migrações, Assuntos Internos e Cidadania. Dimitris Avramopoulos, ele próprio de nacionalidade grega, considera que "o que há a fazer é gerir melhor as nossas fronteiras externas", alertando para a responsabilidade que os "países da linha da frente", como é o caso da Grécia, "fazerem melhor o seu trabalho. Pois, só assim, é possível manter e garantir a livre circulação no espaço Schengen"..Se tudo falhar, a ministra do Interior da Áustria pensa que a fronteira externa da UE terá de mudar. "É óbvio que se não conseguirmos reparar a fronteira externa da UE, especialmente a grega, a fronteira de Schengen vai mudar-se para a Europa central", defendeu, exigindo a Atenas que "faça tudo o que puder para reforçar meios e aceitar ajuda rápida a este nível". A ministra considerou "necessário a instalação de um guarda de fronteira marítima comum" na Grécia..A ameaça é apoiada pela República Checa e pela Alemanha, que elevam o coro de pressões para que a Grécia "faça o trabalho de casa", defendendo até que o país tenha uma "saída de curto prazo" do espaço Schengen. Considerando uma caricatura a proposta de uma força de 1500 guardas fronteiriços, o presidente checo, Milos Zeman, foi mais longe e sugeriu uma força da NATO para proteger as fronteiras externas da UE, em entrevista ao site Parlamentní listy..Mas esta ideia de suspender os gregos não é apoiada por todos. O ministro do Interior de Itália, Angelino Alfano, por exemplo, garantiu que o seu país não é favorável a uma reconfiguração do mapa do espaço Schengen, considerando que é a estabilidade de toda a UE que estaria posta em causa e sob a ameaça de dissolução. "Temos a ideia de que a Europa tem de continuar a ser uma estrutura estável, que não pode haver pedaços de Europa dentro e pedaços de Europa fora. Isso seria o início da dissolução" da UE..Numa reação à pressão a que está a ser submetido o seu país, o ministro da Imigração grego, Ioannis Mouzalas, criticou ontem em conferência de imprensa os planos dos seus parceiros para fechar fronteiras, numa tentativa de impedir a passagem dos refugiados que chegam a território grego. "Não temos capacidade para acolher todos os refugiados na Grécia. Somos um pequeno país de nove milhões [de habitantes], é difícil receber três milhões de refugiados", sublinhou o governante..Mas se os políticos gregos são criticados pelos seus pares, os habitantes da Grécia são enaltecidos. Segundo noticiou o jornal britânico The Guardian no domingo, um grupo de académicos de destacadas universidades mundiais, entre elas Oxford, Princeton e Harvard, prepara a candidatura a Prémio Nobel da Paz dos habitantes das ilhas gregas pelo auxílio que têm prestado aos refugiados. A iniciativa tem como base uma petição online que foi lançada pela organização Avaaz.org. 900 mil dos 1,5 milhões de refugiados e migrantes chegados à UE em 2015, cerca de 900 mil entraram via Grécia. Segundo aquele diário, o ministro grego Ioannis Mouzalas apoia a iniciativa dos académicos..Com Patrícia Viegas