Talvez não possamos deixar de inscrever, entre os motivos da nova orientação, sobretudo entre os não ditos, o facto de a ausência não ter por então mostrado qualquer risco para a França, coberta pelo dispositivo em que todos os outros participavam; mas um cómodo isolamento difícil de enfrentar quando todas as estruturas e conceitos entraram em revisão, a começar pela debilidade que atingiu o unilateralismo dos EUA. .Este regresso é uma notícia favorável para o processo de articulação da segurança europeia com a segurança atlântica, que parece viabilizado pela evidente alteração de perspectiva pela nova Administração democrática em relação ao desastrado paradigma da Administração republicana. No perfil da política global americana que se vai desenvolvendo, tem relevância destacada a acção assumida pela secretária de Estado Hilary Clinton, em relação à China, poder emergente, e por Obama em relação a Cuba, o poder dos sem-poder. De facto, é a equação do poder global que está em redefinição, com a ilusão do fim da história remetido para o arquivo. Nesta temática, que vai continuar a crescer de complexidade e talvez de improvisações, a redefinição de relacionamento com a China destaca-se em urgência e importância, com a evidente dificuldade de todo o processo exigir, como ponto de apoio até agora instável, uma percepção fiável e recíproca dos pressupostos de cada um dos interlocutores, tendo de reconhecer-se que a densidade desse saber é frágil. .Uma das variáveis que vão crescendo de presença pode parecer assumir uma versão asiática do fim da história, um erro que animou o neoconservadorismo republicano. Tem recebido destaque, que aponta para uma comparação com Fukuyama, um livro de Kishore Mahbubani, The New Asian Hemisphere: The irrescitible Shift of Global Power to East (2008), que enuncia duas conclusões estruturais. A primeira diz que "o crescimento do Ocidente transformou o mundo. O crescimento da Ásia trará uma semelhante e igualmente significativa mudança"; acrescenta que "hoje, os 5,6 biliões de pessoas que vivem fora do universo ocidental não continuam a aceitar decisões feitas sem a sua representação pelas capitais do Ocidente". .Um dos temas a exigir mais atenção é o que, exposto em dois capítulos, se traduz na afirmada perda de credibilidade dos ocidentais, considerados os filósofos sobre a distância entre os princípios que proclamam e os interesses materiais que privilegiam. Uma leitura prudente admitirá que o manifesto não é claramente no sentido de substituir o fim da história pelo confronto de civilizações, como aconteceu nos EUA, é antes uma chamada à racionalização do encontro dos interesses e dos conceitos estratégicos, em busca de uma "ordem justa e segura". A tentação de responder à afirmada perda de credibilidade dos ocidentais com a leitura de que a proposta asiática é alternativa, apenas ajudaria a obscurecer a evidência de que é da reformulação da equação do poder mundial que se espera, e as dificuldades do tema aconselham a simplificar o processo com o adiamento, mas não com o esquecimento, de alguns pontos relacionados com as diferentes escalas de valores e práticas. .Na enumeração exemplificativa do autor, inspirada pela urgência de refazer uma ordem global, o princípio orientador parece ser que os ocidentais partilhem alguns dos instrumentos da governança mundial com "os grandes poderes da Ásia". A reforma do Conselho de Segurança é lembrada e considerada crítica, mas o FMI e o Banco Mundial figuram na exigência. .Não é tarefa fácil, nem sequer apelando para a "coragem e cortesia" dos ocidentais, mas a resposta positiva é exigida pelos factos, com os quais não se discute.