Uma mulher a levantar dinheiro, nervosa, com marcas de agressão no rosto, não pode ser bom sinal. A sorte dela (salvo seja) é que Jack Reacher está na retaguarda, à espera de usar o multibanco, e tem o punho treinado para resolver situações de emergência. Como se prevê, não demora muito até que o justiceiro perceba o que se passa no entorno e se dirija a quem de direito para lhe dar um enxerto de porrada mortífero em plena luz do dia, antes de abandonar a cena do crime e poder finalmente levantar o seu dinheiro descansado. Moral da história: quem tem um Jack Reacher por perto tem tudo. Ou: que melhor maneira de começar a segunda temporada de Reacher senão relembrando o seu código de conduta e uso prático do corpanzil?.Quando surgiram no ano passado os oito episódios iniciais desta adaptação dos livros de Lee Child, a primeira reação dos fãs foi de alívio. Depois dos dois filmes protagonizados por Tom Cruise, baixinho e ágil, tinha-se enfim descoberto a pólvora: um ator, Alan Ritchson, cuja estatura e massa muscular correspondiam em tudo à personagem do sucesso literário, um ex-polícia militar conhecido por uma bagagem física que lhe permitia poupar nas palavras. Bastava aparecer..E assim foi. Ritchson apareceu e conquistou um papel que lhe assenta como uma luva, trazendo à paisagem das séries um estilo de ação que não acompanha propriamente as modas (sobretudo porque não tenta empolar a sua proposta). Ao manter a surpresa de qualidade que revelou a primeira temporada, este segundo tomo em estreia na Prime Video, com o mesmo número de episódios, também não perde força. Pelo contrário, vigor é mesmo o que define o regresso de Reacher, com um esquema enrobustecido por novas personagens que criam um bloco humano mais enérgico, enquanto se aumentam os níveis de diversão..Se Nick Santora, o showrunner, tinha começado a série exatamente pelo primeiro livro da saga de Child, Killing Floor, em que Jack Reacher desmonta uma conspiração numa pequena cidade do estado da Georgia, agora a história prossegue, dois anos mais tarde, com os eventos do décimo primeiro romance, Bad Luck and Trouble, que vai encontrar o protagonista numa condição mais delicada: o homicídio que espoleta a ação é de um dos membros da sua antiga unidade militar. Desta feita o caso é pessoal e envolve outros três colegas (incluindo a amigalhaça Frances Neagley, já presente na primeira temporada), que vão trabalhar em conjunto para descobrir quem está por trás dessa e de outras mortes que parecem indiciar serem eles as próximas vítimas..Sem complicações ou gorduras narrativas, e com um ritmo impecável, os episódios vão mostrando que a lógica do cowboy solitário - a personagem de Reacher define-se como um nómada dentro do mapa americano, que viaja só com uma escova de dentes na mão... - é perfeitamente compatível com um contexto de camaradagem. E por isso esta será a temporada da investigação em equipa, bem alternada com as memórias da fase militar, que servem de esclarecimento do perfil de cada um dos elementos do quarteto..Por falar em perfil, nas notas de produção de Reacher, a que o DN teve acesso, Alan Ritchson admite que retomou a série ainda à procura dos contornos do seu herói: "Havia muito receio sobre como tornar interessante no ecrã uma personagem tão estoica, que vive dentro da sua própria cabeça, e que é um pouco estranha e engraçada, sem tentar sê-lo. Está tudo no fio da navalha. E se se ultrapassar um bocadinho, de repente essa personagem pode tornar-se demasiado magnânima, gregária ou insolente. Especialmente na primeira temporada, havia uma tensão palpável no set para encontrar o tom certo.".Sem dúvida que o que faz de Jack Reacher um tipo agradável para se passar 40 minutos de cada vez é a combinação certa de caparro (promessa de luta) e um humor de detetive que garante o tempero sherlockiano da empreitada. Isto sem esquecer a atitude nas cenas de ação (Ritchson chama-lhe "ninja MacGyver"), com sentido de choque de massa corporal. E daí, será que o ator também faz gala de ser o seu próprio duplo? "Faço as acrobacias que são legalmente permitidas. Adoraria fazer todas, mas acho que há uma regra no set: não tenho licença para morrer." Por outras palavras: "A minha filosofia é que quero dar ao público o valor do seu dinheiro, quero superar as suas expectativas. E o público é experiente o suficiente para saber quando se corta para um duplo. Por isso, sujeito-me a levar uma tareia ou duas sempre que possível." Sensatez no lugar do show off..Quanto ao conceito de justiça musculada, essa fantasia evocativa do cinema de ação dos anos 1980 e 1990, Ritchson não tem medo de afirmar o escapismo da série: "Toda a gente quer estar do lado da lei que persegue os bandidos furtando-se às regras e fazendo justiça com as próprias mãos. Isso está no zeitgeist há muitos anos, mas este é um novo formato e é divertido interpretá-lo - é divertido imaginar estar nestes casos, desvendar estes mistérios na vida real e não ter de esperar permissão para ser juiz, júri e carrasco.".Aliás, já estava tudo no conceito do escritor Lee Child: "Ele [Jack Reacher] é, num certo sentido, o herói antigo, o nobre solitário, o estranho misterioso, o cavaleiro andante, que chega à cidade sem ontem nem amanhã - só está ali hoje. Resolve o problema e segue em frente. Cavalga em direção ao pôr do sol daquela forma antiga e lendária." Porque, "quem quer que sejamos, todos temos alguma espécie de problema. Pode ser muito sério ou trivial, mas todos temos um problema, algo em mente. E não seria ótimo se um tipo grande e durão batesse à nossa porta, resolvesse esse problema sem dizer nada e fosse embora de novo?" Que o diga a mulher a levantar dinheiro sob ameaça em plena luz do dia - que sorte Jack Reacher ter precisado de usar o multibanco àquela hora da tarde..dnot@dn.pt