Ratos 'filósofos' também sabem que nada sabem

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Será que um ratinho consegue perceber se sabe o suficiente para participar, ou não, num teste em que, perdendo, não recebe qualquer recompensa? Por incrível que pareça, um grupo de investigadores norte- -americanos conseguiu demonstrar que a resposta é sim. Os ratinhos sabem avaliar os seus próprios conhecimentos, ou seja, dispõem de uma coisa chamada metacognição. E se falassem, poderiam talvez dizer, como Sócrates, "só sei que nada sei"...

O estudo, publicado hoje na revista Current Biology, foi realizado por Allison Foote e Jonathan Crystal, investigadores do departamento de Psicologia da Universidade da Georgia, nos Estados Unidos, e o seu grande "furo" é que pela primeira vez conseguem demonstrar que a capacidade de metacognição existe também em animais não-primatas. No caso vertente, em ratos, que conseguiram perceber quando não sabiam o suficiente para arriscar participar num determinado teste a que podiam sujeitar-se, ou não, consoante a sua própria escolha.

A experiência decorreu da seguinte maneira: os ratinhos eram ensinados a distinguir sons curtos de sons longos, e a seguir eram sujeitos à audição de sons de diferentes durações e tinham que escolher (carregando num determinado mecanismo) o que correspondesse à duração certa, curta ou longa. Se acertassem, recebiam uma recompensa em comida, se errassem não recebiam nada. No entanto, se decidissem não fazer o teste, recebiam uma pequena recompensa.

Este modelo de experiência já tinha sido utilizado para testar este tipo de questão em primatas não humanos, com resultados positivos - foi assim que se percebeu que os outros primatas (os não humanos) também são, afinal, "socráticos".

Mas, adaptado aos ratos, o teste teve resultados surpreendentes. Quando os sons eram obviamente curtos ou longos, os ratos não hesitavam: escolhiam os botões correctos e recebiam a respectiva e generosa (em quantidade) recompensa. Mas tudo mudava quando a duração do som não era óbvia. Aí os ratinhos não aceitavam o teste, preferindo receber a pequena recompensa a que tinham direito. Numa experiência de controlo, em que eram mesmo obrigados a fazer o teste nesta última situação de indefinição da duração dos sons, os ratinhos erravam mais vezes, o que, segundo os autores, confirma de outra maneira "as dúvidas" dos animais. A partir daqui, dizem os autores, "abre-se um campo de estudos cognitivos novo", com a vantagem de agora se dispor de um modelo de trabalho para não primatas.

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