Há nela um magnetismo que tem de ser boa parte do seu segredo. Bastaram três ou quatro trocas de e-mails e Filipa Elvas já parecia uma amiga de longa data. Mais: quando por fim nos encontrámos, no dia e hora marcados, demos um daqueles abraços espontâneos que, por vezes, tardam a acontecer com alguns amigos. Repito: nunca nos tínhamos visto. .Filipa trata as pessoas pelo nome. Ao longo da conversa, insiste em repeti-lo, por várias vezes, envolvendo-nos numa familiaridade cúmplice. É mestra na arte de sedução. Sabe cativar. Para dar um exemplo prático: quando chegou o momento de ser fotografada, elogiou por diversas vezes as ideias do fotógrafo para a fotografia. A motivação - sabe-o de cor - é mais de meio caminho andado. E está-lhe no sangue fazê-lo, não é algo pensado, maquinado, racional. Fá-lo consigo própria, durante os treinos e as corridas, mas também o faz com os outros. Como um mantra que se tivesse acostumado a repisar..Filipa Elvas tem 37 anos e foi a única mulher a completar a edição deste ano da Maratona da Grande Muralha da China, uma das cinco maratonas mais duras do planeta. Fez 45 quilómetros em sete horas e cinquenta minutos. Da prova fizeram parte 20 564 degraus. Pormenor importante: a vencedora não é atleta profissional e só começou a correr de forma mais consistente a partir de 2011. Há dois anos, portanto. É obra..Façamos então uma panorâmica geral sobre a sua vida, para compreender de onde lhe vem esta vontade indómita. .Filipa Elvas nasceu a 26 de abril de 1976, em Lisboa, logo seguida da irmã gémea Vera (pelos vistos, começou cedo a querer chegar em primeiro). Filha de pai engenheiro civil e mãe agente de viagens, Filipa foi uma aluna razoável. Estudou no Colégio de São José, primeiro, no Liceu de Oeiras, a seguir. Chumbou no sétimo ano mas, a partir do oito encarrilou. Tornou-se esforçada, como que a provar a si e aos outros que era capaz. .Por volta dos 16 anos, quando o aspeto físico ganha importância, mais importância até do que o resto, Filipa pediu aos pais uma bicicleta estática. E não foi um daqueles caprichos de uma semana. Ganhou-lhe gosto. Ainda hoje, quando se fala nesses tempos, vislumbra o alpendre da casa dos pais, uma chávena de chá verde, o rádio ligado, e ela a pedalar sessenta minutos, nunca menos..Quando chegou a altura de escolher o curso superior, decidiu-se por Direito e nem sabe muito bem explicar porquê. Entrou na Clássica, continuou durante quatro anos a levantar-se às cinco e meia da manhã para pedalar, detestou o curso e, no quarto ano, depois de ter chumbado numa oral de Direito Administrativo, chegou a casa e declarou um «desisto do curso» que chocou a família. Mas estava decidido. Depois disso, estudou afincadamente e sem dizer nada a ninguém (um hábito que havia de permanecer, como se verá mais adiante) para uma prova de Filosofia, essencial para a sua candidatura a outra licenciatura. E, assim, Filipa Elvas acabaria, cinco anos mais tarde, o curso de Sociologia do Trabalho, variante de Recursos Humanos/ Recrutamento e Seleção. Como já era o segundo curso, não quis sobrecarregar a família e foi trabalhar para um centro de cópias, onde esteve, cinco dias por semana, durante cinco anos..Um dia - tinha entregue a tese havia pouco mais de uma semana (teve 16 valores) - chegaram ao centro de cópias três clientes com um pedido impossível. Era um maço de folhas que mais parecia a lista telefónica. O colega, assoberbado, disse que não era possível, ela teve pena de ver escapar um trabalho tão bom. Comprometeu-se a fazer as cópias, nem que tivesse de passar a noite ali. E assim foi. Passou a noite em claro e, no dia seguinte, ao entregar o trabalho aos agradecidos clientes, recebeu em troca o pedido do seu currículo. Dias depois, estava num táxi a caminho da entrevista para assistente de bordo da extinta Luzair. Ficou. Dois anos depois, foi a uma entrevista na TAP e mudou-se. Até hoje. Já lá vão sete anos..Foi já na TAP que um colega a convidou para ingressar no clube de triatlo da empresa. Ela, que não gostava de nadar, nunca foi genial. Até que, um dia, decidiu inscrever-se numa corrida, a Marginal à Noite, em junho de 2011. Foi sozinha, com uma banana na mão e uma nota de cinco euros enfiada na meia. Ao perceber que não havia táxis, teve de correr bastante para chegar à partida. Julgou que perdesse a corrida. Mas não. Partiu a tempo, fez os oito quilómetros da prova e cortou a meta em oitavo lugar. Estava plantada a semente. Vinte dias depois, fez os 15 quilómetros da Corrida das Fogueiras, em Peniche, e voltou a ficar em oitavo. Em julho, já completamente apanhada pela corrida, atirou-se à Meia-Maratona do Rio de Janeiro. Conquistou um honroso trigésimo lugar..Mal aterrou em Lisboa, contactou o amigo Manuel Machado e pediu-lhe que a preparasse para a sua primeira maratona, a Maratona de Helsínquia, daí a 23 dias. E, assim, a 19 de agosto de 2011, fez o voo para Helsínquia, como assistente de bordo, a servir cafés e laranjadas, aterrou, deitou-se cedo enquanto os colegas da TAP foram jantar fora, acordou e foi, sozinha, para a partida. Fez os 42 quilómetros sem a montanha-russa de emoções que quase todos os estreantes nas maratonas descrevem. Não encontrou o tão temido «muro», por volta dos trinta quilómetros, que impede muitos de continuar. «Estava desejosa de encontrar o muro, para o deitar abaixo! Não o encontrei, até hoje.» Simplesmente, correu. Sem sequer sentir muito esforço. Correu, apreciou a paisagem, sentiu aquela felicidade plena que só sente quando corre. Chegou em 25.º lugar, no escalão das mulheres. .Na meta, não havia ninguém para a ver, ninguém com quem partilhar o feito. Só ela. De resto, é quase sempre assim. Se fosse um filme de ação, a protagonista diria qualquer coisa como «I work alone» [trabalho sozinha]. E mesmo quando vai com amigos que também correm, despede-se sempre na partida. «Encontramo-nos na meta.» Correr acompanhada está fora de questão. Mesmo nos treinos. É sozinha (e sem música) que se concentra. .A partir daí, começou a somar maratonas. Duas por ano, não mais: Varsóvia (15.º lugar), Miami (31.º), Chicago (fez 3h23, ficou em 412.º lugar, entre 43 mil atletas, 15 069 dos quais eram mulheres). Veste a mesma camisola e os mesmos calções (e continuará a vestir até ficarem tão velhos e coçados que já não seja possível). Leva sempre uma Nossa Senhora consigo, com quem conversa antes, durante e depois das provas. E cedo percebeu que é duas Filipas durante uma prova. A primeira Filipa é mais lenta, com uma passada mais calma. A segunda Filipa já leva os motores ligados. «Sou melhor na segunda metade.» E nunca quer conhecer previamente o percurso. Se o fizer parece que perde a piada. A surpresa do caminho também é parte do seu entusiasmo para o conhecer. Ah, sim, e tem sempre a fúria de chegar ao final. Desistir não faz parte do seu dicionário. Pelo menos não desde aquele chumbo na oral de Direito Administrativo..Quando terminou a Maratona de Chicago, em outubro de 2012, deu-lhe para chorar, coisa que nunca lhe tinha acontecido. Foi a primeira vez que explodiu de emoção: «Todo o meu corpo chorava. Vieram ter comigo alguns atletas, para saber se eu estava bem, e eu só balbuciava "I"m too happy" [estou demasiado feliz]. É uma das cinco grandes maratonas do mundo [Nova Iorque, Chicago, Berlim, Boston e Londres], lindíssima, cheia de gente nas ruas a aplaudir.».Depois de Chicago, o amigo Álvaro Leite, também tripulante da TAP, perguntou-lhe: «E se fôssemos à maratona da Muralha da China?» Ela nem hesitou. «'Bora!» Filipa Elvas treinou intensamente, como de costume, mas às corridas juntou uma escadaria, no Jamor, que subiu e desceu incontáveis vezes, em séries de dez..No dia da prova, como de costume, despediu-se de Álvaro na partida. Durante os primeiros 55 minutos, focou-se na atleta 32 e foi sempre a uns oito metros de distância dela. Depois, ultrapassou-a. A outra acabou por desistir. Aos 21 quilómetros, caiu-lhe uma lágrima de felicidade. Já não havia nenhuma mulher à sua frente. Abriu os braços, com a bandeira de Portugal nas costas, a esvoaçar, sentiu o silêncio, pensou em Nossa Senhora de Fátima, e sorriu, convicta. .Durante os 45 quilómetros e 20 564 degraus, bebeu 15 garrafas de meio litro de água, mais as três que apanhou do chão, já abertas. As temperaturas chegaram aos trinta graus, e ela levou sete duríssimas horas e cinquenta intensos minutos a chegar ao fim. Duas horas depois, já numa camioneta a caminho do hotel, chorou durante duas horas. Era a catarse de um esforço sobre-humano..Filipa Elvas, 37 anos, quer continuar a correr até que Deus lhe dê saúde e enquanto sinta este prazer imenso em cortar metas que, para muitos, parecem impossíveis. De resto, tem a certeza de que muitas pessoas seriam capazes de muito mais nas suas vidas se dissessem menos a palavra «impossível». Porque «o cérebro é o músculo mais poderoso». O dela, como vimos, é. Sem sombra de dúvida.