Os Dias da Poesia poderiam ser uma oportunidade para nos perguntarmos quem lê poesia nos dias de hoje. O "leitor médio consumidor de cultura", aquele ou aquela que compra livros, vai a concertos, frequenta os teatros, esse ser tão conceptual como o Homo economicus perde ainda algum do seu tempo a ler os poetas?.A julgarmos pelos espaços nas livrarias, pelas estratégias dos editores e pelas tiragens dos livros, parece que o nosso consumidor cultural prefere ler romances ou ensaios a dedicar-se a estas produções dos parentes pobres das letras que são os poetas. E, contudo, não falta poesia no espaço público! Há festivais de poesia, recitais de poesia, interações da poesia com a música popular (do fado ao rap), trabalhos conjuntos da poesia com a dança e as artes plásticas. Há prémios de poesia, muitos, a poesia tem os seus espaços de qualidade na rádio, na televisão, e finalmente as redes tornaram-se um lugar propício para este modo elíptico de discurso..A poesia entre nós tem um estatuto ambíguo: se nos consumos culturais padronizados ela é francamente desvalorizada, encontra não obstante outro fôlego nas redes informais que hoje constituem um espaço público alternativo, mais jovem, frequentemente longe dos critérios de gosto mais académicos, mas inegavelmente vivo..As novas gerações de poetas demarcam-se de um tipo de hierarquização do poder poético que foi codificado entre nós a partir dos anos 1970 por Joaquim Manuel Magalhães: cada poeta mais forte procurava ser o papa da poesia e nomeava o colégio dos cardeais e o inferno dos heréticos. O mundo da poesia hoje tornou-se mais pluralista e abdicou de papas e de antipapas..Também vemos menos presente nas novas gerações a posição surrealista-abjecionista que serviu a muitos descontentes com a sua própria receção para acusarem um establishment imaginado das incompreensões que sofriam ou julgavam sofrer. O surrealismo em Portugal foi grande com António Maria Lisboa, primeiro Mário Cesariny e depois António José Forte: se Alexandre O'Neill soube sair desse grupo e criar a grande poesia que lhe devemos, se Herberto Helder deve muito ao surrealismo, mas não é já um surrealista, a verdade é que o surrealismo posterior (Cesariny tardio, Luiz Pacheco) se limitou a uma verve jocosa que organizava o seu próprio sistema a partir de uma posição "clownesca" de fabricação de um antissistema irreverente. A irreverência é desejável, mas por si só, infelizmente, não cria grande poesia. Mas essa atitude criou escola..A questão que nos devia preocupar, para além dos nossos conflitos de oficiais do mesmo ofício, é porém mais simples: quem nos lê? Que nos leiamos uns aos outros já não é mau. Mas fora do nosso espaço e de um espaço académico, que hoje parece mais preocupado em estabelecer novos cânones e valorizar autores marginalizados do que num pouco de amor pelo que se escreve, quem se dá ao trabalho de pegar num livro de poesia, quem encontra ali resposta para as suas questões, espaço para repensar as suas experiências, lugar onde ressoam as suas inquietações?.Reagindo ao estruturalismo que dominava a crítica literária nos anos 1970, Roland Barthes escreveu em 1973 O Prazer do Texto, em que reivindicava a experiência e o gozo da leitura como um momento prévio a qualquer teorização. Hoje a leitura crítica é apressada: ou apenas serve para assinalar livros, como nas recensões dos jornais, ou é mero ponto de partida para elaborar construções teóricas em que a grelha conceptual prevalece sobre a atenção ao texto estudado. A recente e empolada polémica em torno do "racismo de Os Maias", de Eça de Queirós, é apenas uma consequência desta situação dos estudos literários: primeiro aplicar a grelha teórica, e só depois ler. Ou nem ler....Restam-nos os leitores. Éluard dizia que "o poeta é o que inspira, mais do que aquele que é inspirado".Cada leitor que sente que a sua experiência do mundo se alarga num verso que lê e em quem a respiração do poeta se converte de repente na sua própria respiração está a recriar o poema e a justificar por si só a existência do poeta..Diplomata e escritor