A direita do Brasil tem alguns ódios de estimação, como Lula da Silva, o político de centro-esquerda cuja popularidade parece ser eleitoralmente imbatível, ou Alexandre de Moraes, o juiz do Supremo Tribunal Federal (STF) que enfrentou os devaneios antidemocráticos dos extremistas nos últimos anos. No entanto, ninguém como Walter Delgatti Neto, um hacker ávido de fama chamado na infância de "Vermelho", mas apenas por ser ruivo, a puniu tanto.."O senhor é um criminoso", disse-lhe, na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPI) sobre os atos antidemocráticos na sede dos Três Poderes de 8 de janeiro, o senador Sergio Moro, cuja atuação como juiz foi desmoralizada por Delgatti em 2019. "Ele é um mentiroso contumaz", afirmou, no dia seguinte, Jair Bolsonaro sobre o mesmo hacker a quem, em 2022, solicitou os serviços para, supostamente, cometer fraude na última eleição presidencial..Nem Moro, nem Bolsonaro, no entanto, estão errados: Delgatti, 33 anos, já foi investigado por burlar mulheres, homens, advogados, empresários, bancos e centros comerciais, num total de 20 crimes. .Numa operação de busca ao seu apartamento, a propósito do furto de um cartão de crédito que causou prejuízos a um cliente e a uma instituição financeira, a polícia encontrou ainda 247 comprimidos de psicotrópicos e um cartão falso de estudante de medicina, que lhe valeram uma pena de prisão de dois anos em regime semiaberto (tinha de dormir na cadeia) por tráfico de drogas e falsificação de documentos. Ao ser preso, Delgatti disse que, além de médico, era investidor e tinha contas na Suíça - três informações falsas..Segundo o relatório da polícia, o hacker revelou atitude desafiadora, declarando já ter conhecimento do mandado de prisão, por ter invadido o computador do procurador da República, e ser "uma pessoa influente" com "amigos no tribunal e na polícia" da cidade onde sempre morou, Araraquara, 190 mil habitantes, 273 km a norte de São Paulo, conhecida por ser palco de uma palestra, em 1960, do filósofo Jean-Paul Sartre..O hacker mais famoso do Brasil foi ainda alvo da polícia, em 2015: a namorada do irmão acusou-o de tê-la dopado e violado, depoimento que depois retirou..Walter Delgatti Neto, cujo nome foi herdado do falecido avô paterno, Valter Delgatti, mora desde 2013 com aquele irmão, Wisllen Francisco. Desde que a mãe se separou do pai, entretanto também falecido, os dois foram criados pela avó Ofélia..Delgatti apresenta-se até hoje na rede social LinkedIn como ex-aluno de três faculdades de direito, embora amigos araraquarenses que conversaram reservadamente com os jornais Folha de S. Paulo e O Estado de Minas afirmem que ele jamais frequentou o ensino superior ou teve um emprego formal..Depois daquelas atribulações com a justiça, o "hacker de Araraquara" ganharia os holofotes do país, como tanto ansiou, em 2019. Em junho desse ano entregou a Glenn Greenwald, jornalista vencedor do prémio Pulitzer pelas reportagens em parceria com o analista de sistemas Edward Snowden, mensagens comprometedoras trocadas pelo juiz Sergio Moro com os procuradores da Operação Lava Jato..DestaquedestaqueO hacker mais famoso do Brasil também foi alvo da polícia, em 2015: a namorada do irmão acusou-o de tê-la dopado e violado, depoimento que depois retirou..Greenwald, diretor, à época, do site The Intercept Brasil, compilou as informações numa série de reportagens conhecida como "Vaza Jato", onde ficou exposta a parcialidade de Moro, que cedeu informação privilegiada ao Ministério Público, prestou auxílio na condução da operação e sugeriu audição de testemunhas. Lula, condenado à prisão por Moro no ano anterior quando liderava as sondagens para as eleições de 2018, foi um dos alvos desse conluio..Em 2021, o STF deixou claro que se decidiu pela liberdade do político do PT, que viria a ganhar as presidenciais do ano passado, sem se ater ao conteúdo da "Vaza Jato" mas, na opinião pública, Delgatti ficou conhecido como "o homem que sepultou a Lava Jato" e "o hacker que desmascarou Moro"..Mais mediático ainda do que a "Vaza Jato" foi o depoimento de Delgatti, no último dia 17 de agosto, na CPI que apura as responsabilidades pelos atos antidemocráticos de 8 de janeiro..Antes das eleições de outubro, Carla Zambelli, deputada bolsonarista, contratou-o para invadir computadores do citado Alexandre de Moraes e encontrar algo que incriminasse o juiz do STF e então presidente do Tribunal Eleitoral. Pediu-lhe também para adulterar uma urna eletrónica e mostrar vulnerabilidades do sistema de votação brasileiro, de forma a permitir a Bolsonaro contestar as eleições em caso de derrota para Lula. A trama, porém, teve efeito boomerang..Depois de ambos, Zambelli e Delgatti, terem sido apanhados e detidos, o hacker não só denunciou a deputada como ainda incriminou Bolsonaro naquela CPI transmitida em direto nas televisões. Lá, contou que o então presidente lhe garantiu, numa reunião às escondidas no Palácio da Alvorada, que Moraes já estava sob escuta realizada por agentes estrangeiros. E que precisava que ele assumisse a responsabilidade por essa escuta mas que não se preocupasse porque depois o então presidente beneficiá-lo-ia com um indulto..Delgatti incluiu ainda na trama Waldemar Costa Neto, presidente do partido de Bolsonaro, Duda Lima, o publicitário da campanha, e o ministério da Defesa. Segundo o depoente, Bolsonaro, Neto e Lima pediram-lhe para colocar um código malicioso numa urna eletrónica para levar a população a duvidar do sistema e envolver na trama os técnicos daquele ministério..O hacker, porém, afirmou não ter conseguido invadir a urna "pois o código-fonte fica num computador offline, não sendo possível acesso externo"..Quatro dias depois do depoimento, um juiz de Brasília condenou Delgatti a 20 anos de prisão por ter invadido "o dispositivo informático sem autorização" de Sergio Moro há quatro anos. Mas, conta quem o visitou na prisão, o hacker está mais feliz do que nunca por ter ganho a exposição mediática que sempre perseguiu..Num desses momentos de mediatismo, uma jovem com quem Delgatti se relacionou reconheceu-o na comunicação social, entrou com um pedido de exame de DNA e comprovou que ele é o pai da sua filha, de quatro anos..dnot@dn.pt