Quando escreve para adolescentes vê-os a viver numa «bolha de deslumbramento» perante as novas tecnologias? Abriu concorrência às redes sociais?Vejo especialmente que os adolescentes querem ser adultos antes do tempo. Os meus livros surgiram para evitar que percebam tarde de mais que ser criança é muito melhor do que ser adulto. Eu descobri isso tarde. A mensagem que quero passar é: «Não queiram abreviar essa fase cheia de descobertas!». Mesmo quando essas descobertas são as borbulhas na cara, um corpo desengonçado, uma voz esquisita que alterna entre os graves e os agudos. Porque é uma fase única em emoções. E na era das novas tecnologias, das redes sociais, dos videojogos e de toda esta concorrência muito mais imediata que um livro, surpreendentemente a minha mensagem chegou a números que nunca imaginei..Foi essa descoberta tardia a causa de permanecer uma adolescente aos 34 anos?Contribuiu. Mas permaneço uma adolescente porque encaro a vida com um optimismo que muita gente da minha idade não tem. Maturidade não é sinónimo de esquecer a alegria no passado. Eu sou uma «moleca». Gosto de fazer as pessoas rirem e da leveza da adolescência. A minha alma não envelhece. Preocupa-me quando vejo jovens de 15 anos muito mais velhos do que eu. E o fantástico desta forma de estar na vida é que a alegria não impede pensamentos mais sérios ou menos inconsequentes.. As novas tecnologias promoveram o seu sucesso?Com certeza. O que amo neste público é o facto de ser tão conectado na internet. Pude assim abreviar a distância que existe entre escritor e leitor. Foi muito importante na divulgação do meu trabalho. Na internet posso mostrar quem sou eu, responder a perguntas, falar em tempo real. Se por um lado o mundo virtual pode levar a um isolamento, por outro os adolescentes criam na internet uma família alargada, um grupo de amigos no qual já podem incluir o escritor do livro que estão a ler na escola. Têm uma pluralidade que não tinham. Além disso, o meu site é um local de recolha das sugestões que me chegam via mail. O carinho que recebo é um grande impulsionador da vontade. A internet desmistificou a figura do autor. .Por isso pensou nos adolescentes enquanto público-alvo? Foi o «carinho» que determinou a escolha? Necessita da retribuição de afectos?Não nego que o retorno dos meus leitores é muito gratificante. São mais expressivos, menos contidos, mais emocionais que os adultos. Há meninas que dizem dormir abraçadas aos meus livros. Não é a minha pessoa quem lhes faz companhia mas é o meu texto e isso não tem preço. Gosto desse carinho, quem não gosta? Mas não foi uma escolha pela busca de afectos. Aproveitando que esse público, além de ser carente, implica com os livros. Se gostar do que escrevo e ainda mostrar afectividade, é juntar o útil ao agradável..Enquanto escritora, o hábito de leitura é a sua grande busca?Sim. É justamente nessa idade que as pessoas abandonam os livros e depois é mais difícil recuperar esse leitor quando adulto. Quero mostrar-lhes que ler é giro, com um texto acessível, coloquial e com problemáticas com as quais se identifiquem..O livro que veio agora lançar a Portugal (Que Cena, Mãe! que no Brasil se intitula Fala Sério, Mãe!) são pequenas crónicas com dois narradores, primeiro a mãe e depois a filha. Porquê este tipo de estrutura?As crónicas contam a relação de uma mãe com a sua primogénita desde a gravidez até aos 21 anos. A história começa a ser narrada pela mãe até a filha fazer 12 anos. Com o primeiro beijo da filha, a mãe passa-lhe a narrativa. Tem por isso os dois pontos de vista. O livro termina com o momento mais difícil para uma mãe: a quebra do vínculo de dependência. Optei por histórias curtas pensando exactamente na pouca paciência dos adolescentes. No meu caso «reapaixonei-me» pela leitura com Fernando Sabino – escritor de O Menino no Espelho – que escreve crónicas maravilhosamente. Seduzida, segui esse caminho. .Este é o seu primeiro livro?No Brasil, não. Foi o segundo e transformou-se em best-seller.Fala Sério, Mãe! esteve na lista dos mais vendidos e eu caí nas graças das mães. Além de ficarem felizes porque os filhos estavam a ler, também ficaram felizes por se reverem nos livros..As suas personagens são ficcionais. Quem são elas?São Malu, a protagonista; Ângela Cristina, mãe dela: Armando, o pai; e o irmão, Mário Márcio. Nos outros livros, ao todo, criei umas vinte personagens..As mães identificam-se com Ângela Cristina?A maioria, muito. E curiosamente, outras não se identificam nada. Para elas é uma mãe maluca que envergonha a filha. Num dos episódios a mãe leva Malu, com nove anos, a uma festa, e lá decide dançar com a filha ao estilo de John Travolta em Febre de Sábado à Noite. Mas na verdade a mãe deste livro é igual a todas as mães no sentido de só querer o bem da filha. Ao dar amor, às vezes, exagera nas demonstrações, mas todas as mães fazem isso, ou então são os olhos dos filhos que sempre vêem exagero nessas manifestações quando estão entre os amigos. .Não houve aqui uma inversão de papéis?Normalmente as mães são mais ponderadas e as adolescentes mais inconsequentes, mas eu quis criar uma relação um bocado ao contrário: uma mãe algo louca e uma filha mais sensata. A ideia foi espicaçar os conflitos nessa relação. A mãe é uma caricatura. É exagerada para poder fazer o contraste com a filha, que é a típica adolescente: a dona da verdade e que enfrenta a mãe..Quis aumentar o conflito. Não acha que a relação entre mães e filhas já é suficientemente conflituosa na adolescência?Sim, é conflituosa. A ideia não foi gerar perguntas, tanto que me surpreendi quando soube que o livro ajudava ao diálogo familiar. Simplesmente quis mostrar às adolescentes que não estão sozinhas nessa zona de conflito, toda a gente sofre do mesmo. Não é só a mãe delas que não as deixa ir a uma festa ou que implica com o namorado, isso acontece em todas as casas. Por isso descrevo o quotidiano entre mãe e filha com humor. O riso faz parte da minha estratégia de conquistar o público jovem..Inspirou-se na sua mãe para escrever Que Cena, Mãe!?Não. Inspirei-me nas muitas mães que observo e nas minhas amigas que já são mães. Este livro nasceu de uma conversa com uma menina de nove anos cuja mãe fez de facto a cena da dança. Esta personagem é a reunião de várias mães. Claro que tem coisas da minha mãe... na verdade, da minha avó..A sua avó é a sua figura materna?Sim. Os meus pais separaram-se e como discutiam muito o meu pediatra sugeriu que ficasse com a minha avó. Gostei da ideia porque na prática já era isso que acontecia. Como os meus pais trabalhavam era com os meus avós que passava grande parte do tempo. Acabei por ficar a morar com eles, mas tenho uma óptima relação quer com a minha mãe quer com o meu pai. Por isso esta mãe tem muito de avó. Uma mãe chantagista, tal como a minha avó, que diz: «Só me vais dar valor quando eu morrer.».Sente liberdade total quando escreve?Total. É terapêutico, uma análise. Sinto-me feliz a escrever. É o meu maior prazer. Claro que muitas vezes pondero aquilo que escrevo porque apesar de escrever para meninas com mais de 12 anos tenho leitoras de oito e nove. Há assuntos em que não posso «carregar na tinta» para não chocar as crianças mais novas. Como, por exemplo, a questão sexual – no Brasil ainda é tabu conversar sobre sexo dentro de casa –, que abordo de uma forma subtil. Muitas mães agradecem-me por ter conseguido gerar diálogo entre elas. Nunca pensei que o meu livro fosse ajudar no relacionamento entre mãe e filha porque eu escrevo para fazer rir e não para ser assunto ao jantar..Sendo apenas histórias de ficção, porque acha que isso aconteceu?Porque as questões que o livro aborda são as questões de todas as mães e de todas as filhas. São os argumentos que muitas vezes as meninas precisam para ganhar coragem e fazer nascer o diálogo com a mãe sobre assuntos constrangedores. As minhas leitoras identificam-se tanto com as situações descritas nas crónicas que me questionam se não terei andado a espreitar nos buracos das fechaduras das casas delas [risos]..Para construir as suas histórias considera o passado e o presente indissociáveis?Não. Só que a história ganha com isso. Os meus outros livros não acompanham a personagem principal desde a infância até à idade adulta e mesmo assim consigo contar uma história. Mas acompanhar a vida de uma personagem é como «tomar» um romance em pílulas. No fim o leitor considera-se íntimo das personagens.... e faz exigências para continuar a acompanhar as suas vidas. Jurei que não escreveria o Fala Sério, Pai! e estou neste momento na fase final do livro. Este tipo de histórias continuadas obriga a uma coerência com o passado que suspende um pouco a imaginação, porque os leitores conhecem a história melhor do que eu..Como se apercebe disso?Pelo feedback. Este livro foi convertido em peça de teatro no Rio de Janeiro, e foi muito engraçado porque cada dia que ia assistir à peça a adolescente sentada à minha frente sabia os diálogos de cor. Acompanhava as actrizes nas falas. E quando leio nos meus eventos vejo que os leitores decoraram o livro..A fama não a assusta?Assusta muito. Antigamente tinha três pessoas nos meus eventos, agora tenho três horas de fila com pessoas que perdem aquele tempo das suas vidas para terem o meu beijo e o meu autógrafo. Acho isso espantoso. E quanto mais longe do Rio estou, mais impressionada fico, porque a histeria é muito maior, como se eu fosse uma estrela pop..Mas os livros [nove neste momento] são todos complementares uns dos outros, ou não?Nesta série do Que Cena, sim. Mas os outros são independentes. Tenho mais uma colecção e outros dois que são histórias autónomas..A sua relação com as personagens, ao contar as suas histórias quotidianas, acontece como se fossem as suas amigas secretas vivendo aquilo que a Thalita vive?Todas as personagens têm um pouco de mim mas também são muito fantasiadas. E o que me seduz na literatura de ficção é isso: poder misturar situações da minha vida com a minha capacidade de inventar..E como surge a inspiração para inventar?Chega facilmente. Talvez por já ter sido jornalista e estar habituada a ter tempos para escrever. Claro que num livro que não é de crónica tenho de pensar no princípio, meio e fim da história, mas prefiro colocar as personagens a falar sozinhas. Quando as personagens já estão vivas dentro de mim, interferindo no meu texto. Sinto-o como um momento mágico..Assina uma crónica na revista Atrevida vestindo a pele de Malu.Sim. Porque a Malu fez tanto sucesso nos livros que a revista me convidou para fazer histórias mensais da personagem. É uma forma de os leitores acompanharem a vida dela através da revista. Não abordo temas políticos, nem internacionais, nem sociais. São histórias do quotidiano. Não quero abordar temas pesados. Às vezes perguntam-me se não vou escrever sobre drogas ou sobre gravidez na adolescência. Não, não vou. Já existem pessoas que escrevem muitíssimo bem sobre esses assuntos. Receio que um tema mais pesado possa afastar o adolescente da leitura..E essa leveza não será demasiado fútil? Não lhe parece importante incutir alguns valores nos jovens através da escrita?Valores sim, sem levantar nenhuma bandeira. Uma das minhas personagens engravidou mas o assunto foi abordado de forma leve. Quero levá-los a pensar e não dar conselhos. E acho que esse é o segredo do meu sucesso. Não dou o peixe, dou a cana para eles pescarem. Cada um tira as suas próprias conclusões. Por exemplo, no livro Que Cena, Amor! – que também vai ser publicado em Portugal – uma das crónicas foca o desemprego. O pai do namorado da Malu fica desempregado e resolve lutar por um salário vendendo empadas. Para isso tem um carro na forma de uma empada gigante. Certo dia vai buscá-los a uma festa no tal carro. Ela sente-se envergonhada mas mais tarde, ao perceber o orgulho que o namorado tem do pai, envergonha-se de ter tido vergonha..Então não são livros com dicas ou conselhos?Não. Não dou dicas. A televisão passa a vida a pedir-me isso. Mas eu não quero, não sou especialista em adolescência. .O que faz quando vai a programas televisivos para adolescentes?Brinco. Quando uma menina me pergunta o que faz com o cabelo dela digo a verdade: «Sei lá!». Procuro, através do riso, fazer que entendam que não sou a pessoa mais indicada para dar conselhos. Sou alguém que escreve ficção e, por um motivo que ainda não consegui desvendar, agradei aos adolescentes, mas isso não me faz uma especialista em vários assuntos, desde unhas a comportamento. Tenho medo de dar opiniões, é uma grande responsabilidade..E como aconteceu esse olharem para si como a «guru» da adolescência?Por se reverem completamente nas minhas personagens, as pessoas acham que eu as entendo na perfeição. Vêem-se retratadas nos meus livros e por isso acham que sei tudo.Mas nessa ficção há verdade e o leitor percebe isso. Por exemplo, nas siglas que eles utilizam na sua linguagem tribal...Sim, existe. Apesar de não me preocupar muito com a gíria que usam ou qual é a palavra na moda, percebi que os miúdos gostam de ter dialecto próprio, que só eles entendam, uma espécie de idioma de um mundo à parte, então decidi levá-lo para os meus livros. Por exemplo: BV – boca virgem, pessoa que nunca beijou; BVL – boca virgem de língua. Acabei por inventar algumas siglas como BVBL – boca virgem de beijo longo [risos]..Mas o seu grupo de fãs reúne miúdos de todas as tribos urbanas, desde os «betinhos» aos góticos...Sim. Não consigo explicar isso..Já ganhou algum prémio com os seus livros?Não. O meu prémio são as filas quilométricas que os miúdos fazem para terem o meu autógrafo. Não há melhor prémio do que vender dez livros por hora..O que sente quando acaba um livro?Sinto que cumpri uma missão e ao mesmo tempo um vazio imenso. Fico aérea durante uns três dias. Esquisita, triste, porque naquele fim percebo que o livro vai deixar de ser só meu. É uma sensação incoerente: quero que seja lido pelo mundo mas amo aquela fase em que o livro é um refúgio privado. É quase um filho de quem cuido durante muito tempo. Quando termino normalmente choro muito. Fico de luto. .BIThalita Rebouças nasceu no Rio de Janeiro em 1974. Foi resgatada para a leitura, na pós-adolescência, por escritores como Fernando Sabino, João Ubaldo Ribeiro, Jorge Amado ou Luís Fernando Veríssimo. Estudou Direito, foi jornalista, hoje é uma escritora que escreve para meninas, embora o presidente do seu fã clube seja um rapaz. O seu primeiro livro – Um Caso de Cativeiro – foi publicado em 1999. Em poucos anos transformou-se num dos maiores fenómenos da literatura juvenil no Brasil, contando já com diversos best-sellers no currículo e mais de trezentos mil exemplares vendidos. Que Cena, Mãe! chegou às listas dos mais vendidos da revista Época e do jornal O Globo, figurando ao lado de títulos como Harry Potter ou O Principezinho. As aventuras de Maria de Lurdes (Malu) conquistaram os adolescentes brasileiros. Mãe e filha partilham com os leitores o dia-a-dia e os seus desafios: o desafio de crescer e o desafio de ser mãe. Até Malu chegar aos 12 anos é Ângela Cristina (a mãe) quem narra as alegrias e preocupações de ser mãe. A partir daí, a filha agarra as rédeas do texto para relatar as peripécias da adolescência – e os dramas da sua mãe – até sair de casa. Namorados, notas, festas, viagens com os amigos e outros ingredientes que transformam as experiências de mãe e filha num cocktail de emoções explosivo e bem humorado.