Penda"s Fen - (Alan Clarke, 1974).A programação da BBC na década de 70 foi talvez o ponto alto do planeamento central aplicado à produção artística. Dez anos de burocratas e funcionários públicos a distribuírem baldes de dinheiro público por dramaturgos avariados dos cornos para que estes ocupassem os horários nobres com as as suas alucinações. O típico programa de TV para adolescentes entre 1990 e 2010 era algo como Riscos ou Morangos com Açúcar - séries em que jovens se debatiam com os "problemas" do álcool, da droga e do sexo. O típico programa de TV para adolescentes na BBC dos anos 70 era algo como Children of the Stones, em que jovens se debatiam com os problemas de cultos megalíticos liderados por druidas satânicos que usavam magia negra para abrir fendas no tecido espácio-temporal..Penda"s Fen foi transmitida numa quinta-feira, às nove da noite, em Março de 1974, parte de uma rubrica chamada "Play for Today". A história acompanha o filho adoptado de um padre anglicano, que começa o filme a ter sonhos homoeróticos com colegas de escola e o acaba a ter encontros visionários com anjos, demónios, o fantasma de Edward Elgar, e o último rei pagão dos anglo-saxónicos. Em espírito e execução, é uma resposta ao descontentamento abstracto com a modernidade que torna um tipo específico de personalidade vulnerável às seduções da "tradição" e da falsa nostalgia..O realizador foi Alan Clarke, até então especialista em dramas neo-realistas, e o seu estilo quase documental acaba por tornar as cenas mais alucinatórias de Penda"s Fen extremamente naturalistas. Numa delas, o jovem protagonista acorda de mais um sonho erótico sentindo uma presença no escuro. Ao abrir os olhos, encontra uma criatura grotesca sentada no seu peito. Num filme de terror tradicional, o jovem trataria de acender a luz, a criatura deixava de estar lá, e reapareceria subitamente 5 segundos depois, noutra posição, para proporcionar o clássico "jump scare". Em Penda"s Fen, o que acontece é que o jovem acende a luz, e nada muda: a criatura continua sentada em cima do seu peito, imóvel, um pouco menos surreal, um pouco mais densa, um pouco mais inesperada..Kairo - (Kiyoshi Kurosawa, 2001).Um resíduo saudosista de pelo menos dois fenómenos da viragem do século: a vaga de apetite ocidental por terror asiático iniciada pelo sucesso de Ring; e um catálogo de memórias físicas e emocionais associadas aos primórdios da internet - o chilrear dos modems, por exemplo; e a sensação trepidante de hesitar perante um link suspeito, ou de arrependimento instantâneo ao visitar um site desconhecido pela primeira vez..Visto hoje, Kairo (ou Pulse, como foi traduzido para inglês) reforça a ideia de que a internet já adquiriu o seu passado gótico e assombrado: o breve e remoto período online que precedeu até a transição da internet 2002-2007 - em que toda a gente era um colunista a dar a sua opinião sobre políticos, artistas e celebridades - e a internet posterior a 2008 - em que toda a gente se tornou ao mesmo tempo político, artista e celebridade, no centro ambulante de uma história sujeita às mesmas leis da entropia..Este é, ainda assim, um efeito acidental. O que Kairo faz deliberadamente é tratar a internet como uma casa assombrada, em que toda a gente faz um esforço sobre-humano para tentar comunicar algo importantíssimo (a sua opinião!) apenas para ver esse esforço reduzido a cinzas tantas vezes que o resultado final é uma espécie de apocalipse. O filme não tem um orgulho tão grande que se dê ao luxo de descartar as especialidades mais familiares do horror japonês: também há aqui figuras pálidas desgrenhadas a avançar lentamente na direcção da câmara. Mas Kurosawa filma fantasmas sem agenda nem caderno de encargos - espectros que parecem tão perdidos como os protagonistas. E nenhum outro realizador contemporâneo tem mais talento para filmar pessoas em espaços que parecem em simultâneo muito mais vazios do que são, muito maiores do que precisam de ser, e sufocantemente claustrofóbicos..The Boxer"s Omen - (Kuey Chi-Hung, 1983).The Boxer"s Omen (o título original é Mó, que significa "Magia", com toda a justiça) é um dos objectos mais escabrosos a sair da linha de montagem dos irmãos Shaw, a histórica produtora de Hong-Kong que foi durante décadas a maior fornecedora global de filmes de artes marciais. O começo acena uma premissa familiar: um pugilista fica em estado grave após um combate com um adversário pouco escrupuloso, e o seu irmão, também pugilista, jura vingá-lo dentro do ringue. É o que acontece a partir daqui que torna Boxer"s Omen o Citizen Kane dos filmes sobre pugilistas que juram vingar os seus irmãos pugilistas..Feito no auge dos efeitos especiais práticos pré-CGI, antes de a viscosidade ser eliminada dos ecrãs, o filme é um repositório de imagens repugnantes. A dada altura, um espírito maligno é ressuscitado através do método de regurgitar cascas de bananas e vísceras de galinha na boca de uma múmia e depois agrafá-la ao interior da barriga de um crocodilo e aplicar-lhe choques eléctricos até o seu casulo derreter e a múmia dar à luz três homens embrulhados em celofane que se esventram a si próprios para que do sangue derramado se formem pequenos dinossauros bebés assassinos que disparam raios laser pelos olhos. Tudo isto é uma única sequência, não demora mais de 5 minutos, e há dúzias de cenas semelhantes. The Boxer"s Omen é o tipo de piada que só consegue ser feita por pessoas que não estão a brincar..Messiah of Evil - (Gloria Katz e Willard Huyck, 1973).Um dos melhores e mais esquisitos exemplos de como o desconhecimento (ou desinteresse) pelas normas e tradições de um género cinematográfico específico pode ajudar a fazer um objecto único. Gloria Katz e Willard Huyck, admiradores de Antonioni, acabadinhos de sair da escola de cinema, e de escrever um guião para George Lucas (American Graffiti) foram abordados por um consórcio de magnatas texanos com uma proposta irrecusável: têm aqui três milhões de dólares para fazerem um filme, mas tem de ser um filme de terror, que parece que é isso que a malta jovem gosta. O casal, que nunca tinha visto um filme de terror na vida, aceitou. Um segundo golpe de sorte foi a acumulação fortuita de uma equipa talentosa, incluindo um então jovem director de arte chamado Jack Fisk, no início de uma carreira que o viu tornar-se colaborador habitual de Malick, Lynch e Paul Thomas Anderson..Messiah of Evil é a história de uma mulher que regressa a uma cidade costeira na Califórnia para investigar o desaparecimento súbito do pai. Lá conhece um playboy misterioso chamado Thom (que explica ser filho de "uma aristocrata portuguesa") e um grupo de nativos anestesiados que gostam de se reunir na praia a olhar para o céu..O filme é, mais ou menos, uma história de mortos-vivos, mas, na sua desorganização, acaba por funcionar como uma metáfora para "mudança" mais plausível do que os filmes muito superiores que exploram os mesmos temas (como A Noite dos Mortos Vivos ou as três versões de Invasion of the Body Snatchers): o que acontece é gradual, e a deterioração da anterior normalidade é tão lenta que as vítimas nunca chegam a perceber a diferença entre as duas condições..Muito do que é bom no filme parece ocupar o território indefinido entre intenção e acidente. O efeito de desorientação vem da precariedade geral do projecto: o de estarmos perante algo que opera de acordo com regras, mas regras que só parecem óbvias a quem está lá dentro, e que podem parecer absurdas quando vistas do exterior. É uma sensação que nunca se tem com o produto de uma linha de produção profissional, mas que também não existe com aqueles filmes "de culto", famosos por serem amadores, e quase totalmente ineptos. Messiah of Evil foi feito por pessoas que sabem o que é um filme - o que deve ser e o que pode ser; pessoas insuficientemente geniais para que todos os seus instintos sejam correctos, mas suficientemente brilhantes para que até as suas incompetências sejam interessantes.. Escreve de acordo com a antiga ortografia