Passaram dois anos desde que correu mundo a fotografia - e a história - de Aylan, a criança curda de 3 anos que não sobreviveu à travessia e se tornou um símbolo do horror dos migrantes que todos os dias arriscavam a vida para fugir à morte certa. Não era a primeira nem a mais dramática, mas foi aquela imagem que fez a Europa corar. Nos meses seguintes organizaram-se campanhas de apoio, levantaram-se vozes em indignação, centenas de voluntários deixaram as suas casas para poderem ajudar quem mais precisava - com comida, com agasalhos, também com boleias para o outro lado da fronteira. Passaram dois anos. Falou-se em muros para travar o fluxo de pessoas em fuga descontrolada e debateu-se o drama à exaustão. Houve acolhimento e houve ofertas de dinheiro para convencer os ilegais a sair - a França oferecia 2500 euros por cabeça, a quem escolhesse partir, lembram-se? Montaram-se e desmantelaram-se campos de refugiados com parcas condições. Nada realmente aconteceu. Passaram dois anos e não há menos barcos a atravessar o Mediterrâneo. Nem as condições em que aqui chegam os migrantes melhoraram. Vêm 60 numa casca de noz que nem dez devia trazer dentro, contam os 20 portugueses que continuam a vê-los chegar todos os dias e que nos últimos seis meses salvaram 1500 vidas. A única diferença é que eles já não são visíveis. Muitos continuam a morrer, sem que a Europa tenha encontrado nas suas discussões uma solução que fosse. O tema que agora nos preocupa e que ocupa todas as conversas oficiais é o horror dos ataques vindos de dentro - esses, sim, ferem-nos. Os migrantes continuam a vir, os que conseguem chegar continuam a precisar de ajuda, deviam ser conhecidos, orientados, ter quem se ocupasse deles. Mas muitos dos que antes se indignavam, organizavam marchas e vigílias e exigiam ação esqueceram-se deles. Ainda chegam às centenas, mas a Europa não sabe quem são, de onde vieram, quantos são, como vivem, se trabalham, se estão minimamente integrados em comunidades. Passaram dois anos. Já quase ninguém se lembra de Aylan.