Nesta quarta-feira, Tunísia, Argélia e Marrocos marcaram a surpresa da semana, muito para além do Mediterrâneo..Na Tunísia, o presidente (PR) Kaïs Saïed, cada vez mais a seguir os passos do ex-PR Ben Ali, confirmado pelo Decreto Presidencial n.º 2021-117 de 22 de Setembro, o qual estabelece os seus novos poderes excepcionais, face às criticas internas e externas, lá tirou uma "coelha da cartola" chamada Najla Bouden Romdhane, nomeando-a a primeira primeira-ministra (PM) da história da Tunísia e do Magrebe. Não se espera muito desta tecnocrata de 63 anos, fiel do PR e cuja experiência política se resume a ter sido ministra do Ensino Superior e Pesquisa Científica, logo após a revolução em 2011. No actual quadro de crise e com um "PR eucalipto", que secou toda a iniciativa não presidencial através do referido decreto, não terá grande iniciativa própria e o foco terá de ficar obrigatoriamente centrado em evitar a bancarrota. Por outro lado, será um bom decoy que afastará do PR o fogo cuspido pelos islamistas do Ennahdha, os mais prejudicados pela tomada de posição de Saïed há já quase três meses, quando demitiu o PM Hichem Mechichi e suspendeu o parlamento de maioria islamista. Partidos representados e deputados eleitos viram a confirmação da sua actual inutilidade e irrelevância através do decreto de 22 de Setembro, mas os islamistas irão sempre insistir que esta nomeação foi confirmada pelo parlamento, apesar de suspenso. Para a história fica a nomeação da primeira mulher enquanto PM da Tunísia e do Magrebe (não digo do mundo árabe, porque o Magrebe não é árabe!)..O crescente ambiente de guerra fria entre Marrocos e Argélia viu também na quarta-feira passada um final de Verão mais feliz para argelinos e sarauís. Porquê? Porque o Tribunal de Justiça Europeu anulou dois acordos comerciais entre Marrocos e a União Europeia (UE), mais especificamente nas áreas da agricultura e pescas. Ou seja, os produtos agrícolas e o peixe que tiverem origem no território em disputa entre marroquinos e sarauís, vulgo Sara Ocidental, não beneficiará da aplicação de taxas aduaneiras preferenciais, como tinha ficado definido num Acordo de Associação assinado em 1996 e em vigor desde maio de 2000..Para Portugal, o que mais interessa neste pacote são as pescas, cujo protocolo foi renovado em 2019, permitindo a 128 navios europeus acederem por quatro anos a esta costa atlântica marroquino-sarauí. Para já e durante os próximos dois meses seguir-se-á um período de novas negociações entre Bruxelas e Rabat, durante o qual também haverá espaço à interposição de recursos por parte dos lesados. Neste âmbito, Portugal, Espanha e Marrocos poderão agir enquanto frente conjunta para as pescas e Espanha e Marrocos para a agricultura..A Argélia, apoiante das ambições independentistas dos sarauís, actualmente com relações diplomáticas suspensas com o seu vizinho, tem subido o tom da divergência no que pode e foi também numa quarta-feira de setembro, dia 22, que decidiu fechar o seu espaço a aéreo à aviação civil e militar marroquina. E, enquanto assim for, tudo continuará dentro da lei das soberanias, na lógica desta guerra fria magrebina!.Politólogo/arabista. www.maghreb-machrek.pt.Escreve de acordo com a antiga ortografia