Dos filmes de Eisenstein em plena Revolução de Outubro ao sul-coreano Parasitas (2019), passando pelo neorealismo italiano ou a obra do inglês Ken Loach, eis uma pergunta que vai pontuando toda a história do cinema: como representar a classe operária?.As respostas estão longe de se esgotar nos seus possíveis enunciados políticos, até porque, escusado será sublinhá-lo, devem ter em conta a especificidade de cada um dos contextos que suscita a pergunta. Não poucas vezes, quando atrofiadas pelas matrizes ideológicas de alguns aparelhos partidários, tais respostas tendem a desembocar na formatação propagandística das linguagens, reprimindo os seus próprios criadores "oficiais" - lembremos os sofrimentos a que o comunismo soviético sujeitou o próprio Eisenstein ou, no domínio da música, Shostakovich..Vale a pena seguir uma alternativa de pensamento que Jean-Luc Godard propôs nos tempos agitados, hiper-criativos e contraditórios do ano de 1968, em especial depois das convulsões francesas do mês de maio. Sempre desalinhado face a qualquer dogma partidário, Godard dizia que não se tratava tanto de fazer "filmes políticos" como de "fazer cinema politicamente". Mais tarde, reavaliando essa tão peculiar conjuntura histórica, lembraria, por exemplo, a importância de "ir à província para fazer algo diferente das histórias parisienses"..Este é um pensamento cuja energia resiste aos lugares-comuns de tudo o que se seguiu, além do mais lembrando-nos que fazer algo de político em cinema não é o mesmo que escolher algumas imagens tipicamente televisivas dos "heróis" da história, reduzindo-os à sedução pueril de uma coleção de cromos. Meio século depois, essa energia continua a mobilizar-nos. Porquê? Acontece que foi há 50 anos que ocorreu o lançamento de Tudo Vai Bem (a 28 de abril de 1972), filme central na obra de Godard, símbolo terminal da sua fase "militante", vivida no interior do chamado Grupo Dziga Vertov, isto é, em trabalho conjunto com Jean-Pierre Gorin (entre nós, Tudo Vai Bem está disponível na plataforma Filmin)..Tudo Vai Bem é um filme sobre a dificuldade visceral de ser político. Entenda-se: de pensar e filmar sem ceder às convenções que, esquematizando até à caricatura a dimensão coletiva da política, acabam por definir cada indivíduo como um mero colecionador de palavras ou frases "panfletárias". Para Godard, essa dificuldade provinha do dramatismo com que foi vivido o pós-maio 68, realizando uma série de filmes sobre temas políticos cujos produtores (diversos canais televisivos europeus) bloquearam, na altura, a respetiva difusão..Que acontece em Tudo Vai Bem? Um regresso à grande indústria, com chancela Gaumont, retratando um par através da aposta em duas estrelas do momento: o francês Yves Montand e a americana Jane Fonda. Ele interpreta um amargo realizador de cinema que teve de fazer publicidade para sobreviver; ela é uma jornalista americana a trabalhar em França, enfrentando sérios conflitos com os seus editores - tudo acontece numa fábrica que ambos visitam, sendo "apanhados" por uma greve em que ficam reféns, juntamente com o patrão, interpretado por Vittorio Caprioli..CitaçãocitacaoComo pensar a nossa identidade política? Eis uma pergunta que o cinema de Jean-Luc Godard não cessa de repetir e transfigurar.esquerda.O que é admirável - e, no limite, anti-militante - é o facto de a minuciosa encenação dos operários surgir como um eco das suas reivindicações, sem que isso os transforme em marionetas ideológicas de quem quer que seja. Até porque todos os conflitos encenados acabam por ecoar de modo muito particular na vida do par central, levando-os a repensar os parâmetros do seu trabalho e, por fim, a sua relação privada..Numa cena emblemática, Jane Fonda devolve a Yves Montand o seu próprio desencanto. Sim, é verdade que, como ele diz, o seu dia a dia parece reduzir-se a uma rotina: ir ao cinema, ter refeições em conjunto e fazer sexo (ou não). Utilizando as mãos para figurar a sua contabilidade existencial, ela responde-lhe que as suas três "coisas" são escassas para dar conta do que estão a viver, seja no plano íntimo, seja nas relações com os outros. Tudo Vai Bem é, assim, um filme sobre um momento em que tudo vai mal. Ou seja: sobre a necessidade de pensar para lá dos clichés aprendidos. Não haverá outra maneira de viver politicamente.. Jornalista