Quem tem menos de 50 anos dificilmente se lembrará de um governo que tenha durado menos de três meses. A experiência mais recente foi o executivo chefiado por Nobre da Costa, em 1978. Sem apoio parlamentar, o primeiro-ministro independente foi derrubado logo na votação do programa governamental, mantendo-se em funções durante 85 dias. No entanto, tanto este como o I governo provisório a seguir ao 25 de Abril de 1974, chefiado por Adelino da Palma Carlos, que durou 63 dias, estão na cauda do top 20 dos governos mais curtos do regime republicano..À cabeça, destacados, aparecem os executivos da I República. Em menos de 16 anos sucederam-se 42 governos. Só de janeiro de 1920 a janeiro de 1922 houve 15 executivos, duas vezes e meia mais do que os governos provisórios que vigoraram entre abril de 1974 e abril de 1976. Mas nenhum conseguiu bater o recorde do meteórico ministério presidido por Fernandes Costa: nomeado a 15 de agosto de 1920, demitiu-se nesse mesmo dia, ficando conhecido como "o governo dos cinco minutos"..Crise da I República. A I República ficou na História de Portugal como o regime em que a instabilidade política foi levada ao extremo. Em menos de 16 anos, entre 5 de outubro de 1910 e 28 de maio de 1926, sucederam-se oito chefes de Estado e 42 governos. De todos, o mais efémero foi o de Francisco José Fernandes Costa. O presidente do ministério (como então se chamava ao primeiro-ministro) demitiu-se no mesmo dia em que foi nomeado, depois de, juntamente com os seus ministros, ter sofrido ameaças e enxovalhos às mãos de uma turba atiçada por dois agitadores ligados à Formiga Branca, o braço armado do Partido Democrático, conhecidos pelos coloridos nomes de guerra de "Ó Ai Ó Linda" e "o Pintor"..O executivo de Fernandes Costa - que, tal como o seu sucessor, Sá Cardoso (número 2 no ranking, com um governo que durou seis dias), pertencia ao recém-formado Partido Liberal - foi mais uma tentativa malsucedida de governar a República à direita..Depois do assassínio de Sidónio Pais ter posto fim à experiência presidencialista da República Nova (1918) e na ressaca da Monarquia do Norte, apoiada pela insurreição monárquica de Monsanto, em Lisboa (1919), os herdeiros de Afonso Costa lançaram-se à reconquista do poder. José Relvas, um histórico do regime - foi um dos que proclamaram a República, na varanda da Câmara de Lisboa, a 5 de outubro de 1910 - que se tinha retirado da política voltou ao ativo em janeiro 1919, para chefiar um governo de coligação que durou 63 dias..Tanto o almirante Canto e Castro (um presidente da República que todos sabiam ser monárquico) como o seu sucessor António José de Almeida procuraram quebrar a hegemonia radical do Partido Democrático chamando para o governo setores republicanos mais moderados. Mas a experiência falhou e voltaram os golpes, revoltas e revoluções que reconduziram os radicais ao poder até ao golpe de 28 de maio de 1926..Os governos republicanos nunca tinham primado pela longevidade mas, ainda assim, nos primeiros anos era normal manterem-se em funções durante alguns meses. Em 1911, os 70 dias do primeiro executivo chefiado pelo jornalista João Chagas eram ainda uma exceção. Já os 35 dias em que Chagas, formalmente, presidiu ao seu segundo governo, em 1915, passou-os na verdade entre a vida e a morte, na sequência do atentado em que fora atingido por tiros na cabeça, tendo perdido um olho..A partir de 1920, a I República entrou em decadência acelerada. A duração dos governos passou a contar-se por semanas ou dias. Álvaro de Castro esteve em funções dez dias, Ramos Preto, 20. António Granjo governou durante 49 dias - até ser barbaramente assassinado pelo bando da Camioneta Fantasma durante o massacre da Noite Sangrenta, que se seguiu ao golpe de Estado de 19 de outubro de 1921. O seu sucessor, Manuel Maria Coelho, presidiu ao ministério durante 17 dias..Os primeiros tempos da ditadura militar instaurada a 28 de maio de 1926 foram confusos e os governos a que deram origem não aqueceram o lugar. O comandante Mendes Cabeçadas mandou durante 18 dias até ser afastado pelo "rosto" da Revolução Nacional, o general Gomes da Costa, por sua vez obrigado a ceder o lugar ao general Carmona ao fim de apenas 22 dias..Passados 48 anos, os militares voltaram a sair à rua para mudar o regime. Cooptado para presidente da República, o general Spínola confiou a formação do I governo provisório ao advogado e professor catedrático Adelino da Palma Carlos. O primeiro-ministro acabou envolvido na tentativa de antecipar a eleição presidencial e adiar a formação da Assembleia Constituinte - e bateu com a porta 63 dias após ter sido empossado..O regime atual tem como lei fundamental a Constituição de 1976. Mas uma das revisões constitucionais introduziu uma alteração significativa. Hoje em dia, para "chumbar" um novo executivo, a oposição precisa de fazer votar uma moção de rejeição do programa governamental. Em 1978 não era assim: o governo tinha de submeter o seu programa à aprovação do Parlamento. Falhada a experiência de governo PS-CDS, o presidente Ramalho Eanes demitiu Mário Soares e encarregou Alfredo Nobre da Costa de formar o III governo constitucional - o primeiro de "iniciativa presidencial", uma originalidade do então jovem sistema político semipresidencialista, inspirado nas teorias do politólogo francês Maurice Duverger. Engenheiro mecânico com experiência em gestão de empresas, Nobre da Costa era independente do ponto de vista partidário. A maioria dos deputados votou contra o seu programa. E o primeiro-ministro demissionário teve de ficar 85 dias à frente de um governo de gestão, até à posse do sucessor, Mota Pinto..Depois disso, Portugal não voltou a ter um governo que durasse menos de três meses. Até ver.