Em 1985, perante 250 mil pessoas, Freddie Mercury parou de cantar. Conquistado, o público do primeiro Rock in Rio sabia a letra de Love of My Life e o vocalista só teve de o conduzir. Dez dias depois, pela segunda vez nessa edição, os Queen voltariam ao palco para nova enchente e novo espetáculo de Mercury. Passados 30 anos, a banda regressa ao Brasil, mas desta vez com Adam Lambert ao microfone. O mesmo que subirá ao palco no próximo Rock in Rio em Lisboa..Brian May nunca escondeu que foi pela televisão que descobriu Lambert. Em 2009, no primeiro casting lançou-se a Bohemian Rhapsody e entrou no programa; na final cantou We Are the Champions e, mesmo tendo sido derrotado, a versão chegou aos ouvidos do guitarrista. "Toda a gente mandou mensagens a dizer que tínhamos de o ouvir. Quando o vimos, percebemos que ele de facto conseguia cantar isto", contou May à Globo..Mesmo que Lambert tenha vindo a confirmar o que prometeu no Ídolos - as vendas a solo chegam aos 2,5 milhões de discos -, substituir um vocalista não é tarefa fácil e no caso de Mercury é virtualmente impossível. No último concerto no Rio de Janeiro, os Queen voltaram a tocar para uma multidão, mas não faltaram gravações de Mercury. Há vida para uma banda depois da despedida do vocalista?.Os Iron Maiden conseguiram.A 18 de janeiro de 1985 a maioria dos 250 mil espectadores do Rock in Rio estaria para ver os Queen, mas imediatamente antes da subida a palco de Mercury e companhia tocaram os Iron Maiden. Esses, então a maior banda de rock pesado do mundo, tinham à frente Bruce Dickinson, não o vocalista original, mas o senhor da voz que os tinha elevado a fenómeno mundial. Anos depois, em 1999, Dickinson haveria de os deixar. Blaze Bayley seria o substituto e ainda gravaria dois discos - The X Factor e Virtual XI - mas... perderia o lugar assim que Dickinson deu sinal de querer regressar. Desde então, os Maiden fizeram mais cinco discos e ainda neste ano, com The Book of Souls, voltaram ao topo das tabelas..Genesis também, mas só uma vez.Em 1967, Peter Gabriel esteve nos fundadores dos Genesis, banda à qual três anos depois se juntou, à bateria, Phil Collins. A história revelaria que o reforço seria bem mais importante do que parecia - em 1975, Gabriel abandonava a banda e Collins assumia o microfone. Os fãs choraram e a imprensa acusou-os de se terem vendido ao rock mainstream, mas a verdade é que o fracasso comercial demoraria dez anos a chegar - depois de Collins se despedir. Nessa altura, os restantes membros ainda chamaram um vocalista (Ray Wilson), mas o último disco gravado, Calling all Stations, foi um tal fracasso que até a consequente digressão seria cancelada por falta de público..Os Doors nem deviam ter tentado.Mas se Iron Maiden e Genesis conseguiram manter-se à tona mesmo com uma troca de vocalista, há quem tenha insistido muito para lá do razoável. Os Doors, que em 1971, ao fim de apenas seis anos como banda, perderam Jim Morrison, não souberam parar. Logo após a morte do vocalista lançaram dois discos que já poucos ouviram - Other Voices e Full Circle - e em 1978 aproveitaram gravações de Morrison a declamar poesia para editar An American Prayer. O pior estava para vir: em 2002, Ray Manzarek e Robby Krieger convocaram Ian Astbury, ex-vocalista dos Cult, para voltar à estrada com o velho reportório..[citacao:Iron Maiden e Genesis conseguiram, mas há quem tenha insistido muito além do razoável].Os problemas legais - o baterista John Densmore não só ficou de fora como moveu um processo contra a utilização do nome - nem foram tão graves como a indiferença com que foram recebidos nos concertos que chegaram a fazer..Mais vale mudar de nome?.Morrison tinha demasiado carisma para ser substituído? Estava Astbury condenado ao fracasso? Talvez. Mas houve quem nem tivesse tentado. Entre 1991 e 2000, os Rage Against the Machine colecionaram sucessos. Com uma original mistura entre rock pesado e rap, dos três discos de originais dois entraram na lista dos melhores de sempre para a Rolling Stone, deixaram Killing in the Name of como um dos refrãos mais facilmente identificáveis e fecharam em 2000 - após Renegades, um disco de covers - com a saída do vocalista, Zack de la Rocha. Mas Tom Morello, Tim Commerford e Brad Wilk não pararam. Em 2001 juntaram-se a Chris Cornell, ex-vocalista dos Soundgarden, e fundaram os Audioslave. É verdade que o trio não deixa de soar a Rage Against the Machine e que a voz de Cornell nunca será separada da banda em que cantou Black Hole Sun, mas juntos chegaram aos Grammys e até se tornaram a primeira banda de rock americana a tocar em Cuba..Os Madredeus estão a tentar.Lançado no final do mês passado, Capricho Sentimental marca uma nova fase na vida dos Madredeus. Pela primeira vez, desde a estreia em 1986, os temas de Carlos Maria Trindade e Pedro Ayres Magalhães não foram compostos a pensar na voz de Teresa Salgueiro. Depois da estreia em Essência, que revisita clássicos do grupo, agora é a voz de Beatriz Nunes que inspira. À TSF, Maria Trindade reconheceu que em Essência Beatriz cantou com "a sombra da Teresa" por perto, mas que aí ganhou o direito aos seus originais. Houve quem conseguisse, quem falhasse e quem se arrependesse ao fim de alguns discos. Há vida depois da saída do vocalista? Sim. Pode é ser muito diferente da original.