QUANDO O JORNALISMO SE CRUZA COM OS AFECTOS

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Fernanda Câncio pertence aos quadros redactoriais do DN e é, além disso, titular de uma coluna semanal de opinião nas páginas do jornal e de outra na Notícias Magazine, a revista que acompanha as edições de domingo do DN e do JN.

Num dos seus recentes artigos, publicados às sextas-feiras, a jornalista criticava, com a contundência e desassombro que fazem parte da sua "imagem de marca", uma intervenção pública de Pedro Santana Lopes. O texto suscitou um número razoável de protestos de leitores, dirigidos ao provedor, defendendo que Fernanda Câncio, por motivos relacionados com a sua "vida pessoal", se deveria abster de criticar um dirigente da oposição.

O provedor pouco dirá sobre a "questão concreta". Primeiro, porque, de acordo com o estatuto das suas competências, não lhe cabe pronunciar-se sobre o conteúdo de artigos de opinião, a não ser em casos absolutamente excepcionais; depois, porque nada sabe - nem está interessado, nem lhe cabe saber... - sobre a vida pessoal da jornalista, salvo duas ou três pseudo-reportagens especulativas que não são bons exemplos de jornalismo credível. A verdade é que a jornalista sempre resguardou a sua vida pessoal com um cuidado assinalável, merecendo, pois, que essa reserva seja respeitada. E, portanto, daqui deriva que não faz qualquer sentido pretender que Fernanda Câncio se abstenha de opinar sobre o que quer que seja: fá-lo há muito tempo, num registo muitas vezes polémico e há que reconhecer que sempre evidenciou independência de espírito. O provedor conhece a personalidade e o currículo da jornalista o suficiente para afirmar que é um completo absurdo pensar que Fernanda Câncio se resignasse a ser porta-voz de ideias que não sejam as suas.

A "questão concreta" remete, mesmo assim, para uma temática que, essa sim, merece reflexão no âmbito da análise do discurso dos media e que, por sinal, alimentou já animadas controvérsias noutros países: as relações familiares ou pessoais de um jornalistas devem, em alguma medida, condicionar o seu comportamento profissional?

Foram solicitados comentários - publicados na íntegra noutro local desta página - a Fernanda Câncio, a Ricardo Costa, jornalista/comentador político da SIC e irmão do actual presidente da Câmara de Lisboa, e a Judite de Sousa, actual directora adjunta e entrevistadora de primeiro plano da RTP, casada com o presidente da Câmara de Sintra e figura destacada do PSD, Fernando Seara.

Excertos dos três depoimentos resumem, com rigor, o pensamento do provedor nesta matéria: estamos perante situações que podem, em algumas circunstâncias, causar embaraços profissionais, mas não faz sentido criar regras para além das que já regem o exercício da profissão - para além, obviamente, do bom senso recomendável numa área em que as questões de forma, nos tempos que correm, fragilizam muitas vezes a substância. De resto, será o trabalho quotidiano do jornalista que, em última análise, funcionará como instrumento de aferição da sua credibilidade.

Um derradeiro comentário, de interesse predominantemente académico, sobre a convicção de Fernanda Câncio de que um artigo de opinião "não é jornalismo". A sua argumentação assenta, aliás, neste pressuposto - bem como o arremedo de ironia final. Ora, não é possível definir o "acto jornalístico" com os padrões de rigor científico que caracterizam outras profissões, mas o jornalismo existe tanto no exercício noticioso, mais ou menos enquadrado, como no artigo de opinião. Por sinal, boa - e notável - parte da sua história, nos séculos XVIII e XIX, aconteceu no exercício da opinião.

Em patamares diferentes, todos os géneros jornalísticos, em retórica diferenciadas, traduzem uma ambição de intervenção no espaço público, sendo óbvio que a opinião publicada - independentemente de ser ou não subscrita por jornalistas - carrega uma responsabilidade acrescida ao seu autor. A quem estiver interessado em aprofundar o tema, aconselha-se a leitura de O QuartoEquívoco, de Mário Mesquita, ou ainda um excelente ensaio do prof. Hermenegildo Ferreira Borges (disponível na rede), intitulado "Espaço Público e 'Retórica do Jornalismo'." PS - Nas próximas duas semanas, o provedor estará em gozo de "merecido repouso". A coluna regressa no dia 5 de Abril. Boa Páscoa.

MAS QUAL É MESMO A QUESTÃO?

Fernanda Câncio

Jornalista

Não estou certa de entender a relevância da questão a que o provedor me pede para responder - "Será que as relações pessoais dos jornalistas interferem na sua vida profissional?", mas lá que é interessante é. Devo porém exprimir a minha estranheza por ser colocada, neste caso, a propósito de um artigo de opinião.

De facto, o artigo de opinião, apesar de ser um género jornalístico, não é jornalismo. É, por definição, a expressão da posição pessoal de quem o assina, pelo que suscitar, a propósito de um artigo de opinião, a questão sobre a interferência da esfera pessoal do autor naquilo que escreve é no mínimo bizarro. Colocada desta forma, aliás, esta questão só poderá ser assim interpretada: a pessoa x, por ser relacionada/aparentada com a pessoa ou pessoas tais, não pode exprimir a sua opinião. Teríamos pois uma espécie de índex dos cidadãos impedidos de escrever opinião, índex esse que, naturalmente, deveria evoluir à medida que as relações se fizessem e desfizessem. Note-se que este impedimento não existe para filiados em partidos políticos, membros de governos, directores de empresas. Seria só para quem, não sendo nenhuma dessas coisas, tem com essas pessoas "uma relação pessoal". Não esquecendo o facto de o índex só valer para as relações conhecidas - a não ser que a ideia fosse a de obrigar todos os opinadores a entregar uma certidão de todas as suas relações pessoais, que seria aditada a cada novo relacionamento/ruptura e fiscalizada por um órgão criado para o efeito.

Passando deste cenário absurdo para a essência da pergunta - a da forma como a actividade jornalística pode ser afectada pelas relações pessoais --, parece-me evidente que a generalidade do que disse sobre os opinadores se aplica aos jornalistas. A gestão da vida pessoal do jornalistas versus a sua vida profissional só pode depender do bom senso do jornalista e da sua consciência profissional. Não há nem pode haver regras para esta matéria, e por motivos óbvios: primeiro, a vida pessoal do jornalista só a ele diz respeito. Depois, uma relação pessoal, entendida como uma relação de parentesco, amizade ou amor, não é evidentemente uma relação de dependência hierárquica e/ou económica. Qualquer inferência nesse sentido é, mais que disparatada, insultuosa.

O que está em causa na avaliação deontológica/ética da actividade jornalística só pode ser a correcção do trabalho produzido e da postura do jornalista ao produzi-lo. Não há impedimentos apriorísticos a não ser os ditados pelo código deontológico, pelo estatuto do jornalista, pela consciência profissional do próprio e pelas regras do órgão de comunicação social para o qual trabalha. Tanto assim é que um jornalista pode entrevistar o pai e essa entrevista ganhar um prémio de jornalismo - já aconteceu. Não posso, pois, senão terminar como comecei: desculpe, mas qual é mesmo a questão?

UMA CERTA 'RESERVA'

Judite de Sousa

Jornalista

A questão não é fácil porque coloca a questão do trabalho e dos afectos. Eu, pessoalmente, acredito que um ou uma jornalista podem e devem realizar o seu trabalho conforme os princípios e os valores éticos e deontológicos da profissão independentemente daquilo que se passa ao nível das suas vidas pessoais. No entanto, a forma como a opinião pública pode olhar para essas situações, entendendo que o ou a jornalista serão menos isentos pelo facto de poder estar em causa uma pessoa que lhes é muito próxima, coloca a questão de uma certa " reserva ". Assim, julgo que o mais prudente é manter uma separação, tanto mais se se tratar do jornalismo político. Na prática, isto pode significar a não intervenção em debates políticos ou em entrevistas por parte de jornalistas que em outras circunstâncias poderiam intervir profissionalmente nesses espaços.

DESVANTAGENS ÓBVIAS

Ricardo Costa

Jornalista

Falo em causa própria e com própria experiência. Quando comecei no jornalismo, em 1989, na Política do Expresso, já o meu irmão António era da direcção do PS. Ao longo dos anos isso foi uma coisa que nos acompanhou aos dois. Provocou mais embaraços pessoais do que qualquer outra coisa. Vantagens: nenhuma. Desvantagens: algumas, todas óbvias. A qualidade e a independência do trabalho é que têm que valer por si. É apenas a isso que ligo.

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