Em todas as guerras, para além das balas e dos mísseis, existe uma outra forma de violência especialmente dirigida às meninas e às mulheres - a violência sexual. E a invasão da Ucrânia não é exceção..As situações de violação em cenário de guerra têm vindo a ser relatadas por parte de algumas crianças, jovens e mulheres, ainda que com alguma reserva, sendo certo que a vergonha e a culpa são fortes inibidores de um processo de revelação. E em algumas destas situações, a violência sexual culmina numa gravidez..Como se reage a uma gravidez que é fruto de uma violação? Como se encaram estes bebés? O que sentem estas mães?.Se, de uma forma geral, a gravidez e o nascimento de um bebé são (e ainda bem) eventos positivos e geradores de uma enorme felicidade, o mesmo não podemos dizer quando resultam de uma situação abusiva ou violenta. Nestas situações, a raiva, a tristeza e o nojo são emoções muito usuais, frequentemente aliadas a uma forte ambivalência - deseja-se e não se deseja este bebé, sente-se alegria e repulsa, carinho e revolta..CitaçãocitacaoÀ medida que a gravidez avança e a barriga cresce, a violência sexual vai sendo reexperienciada. Falamos de memórias perturbadoras recorrentes, involuntárias e intrusivas do evento traumático que surgem, muitas vezes, a par de reações dissociativas.esquerda.E à medida que a gravidez avança e a barriga cresce, a violência sexual vai sendo reexperienciada. Falamos de memórias perturbadoras recorrentes, involuntárias e intrusivas do evento traumático que surgem, muitas vezes, a par de reações dissociativas (por exemplo, flashbacks) - é como se a menina/mulher revivesse, vezes sem conta, a situação traumática vivida. Recordam-se os gestos, ouvem-se as palavras e os sons, sentem-se os toques, surgem os cheiros e os sabores. Os órgãos dos sentidos são ativados e é como se o evento estivesse a acontecer novamente, aqui e agora. Muitas destas vítimas preenchem mesmo critérios de Perturbação Pós-Stress Traumático que potencia, naturalmente, as dificuldades de ajustamento, aumentando a probabilidade de estigmatização, marginalização ou mesmo exclusão..Neste contexto, muitas mães decidem interromper voluntariamente a gravidez ou entregar o bebé com vista a uma futura adoção, decisão que deve ser respeitada e devidamente enquadrada na situação que vivenciaram..As crianças ou mulheres vítimas de violência sexual devem ainda ser auxiliadas do ponto de vista terapêutico, ajudando-as a estabilizar os sinais e sintomas e a processar e integrar o trauma, aumentando a sensação de segurança..Porque se as balas e os mísseis são imensamente letais e perturbadores, a violação da intimidade não o é menos, deixando, não raras vezes, sequelas que tendem a perdurar no tempo.. Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal