"Qualquer entidade portuguesa que trabalhe com a China deve entrar com os olhos bem abertos"

Emily S. Weinstein é investigadora do Centro de Segurança e Tecnologia Emergente de Georgetown, especializada na concorrência tecnológica EUA-China. Esteve em Portugal para duas conferências e revela que a sua "maior preocupação em relação a Portugal" é o potencial interesse estratégico da China no lítio português. "Não dizemos que tudo na China é mau, mas que algumas coisas têm mais riscos que outras", adverte.
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Um estudo do Australian Strategic Policy Institute, financiado pelo Departamento de Estado dos EUA divulgado há poucos dias, concluiu que a China está à frente das potências ocidentais na investigação tecnológica, liderando em 37 dos 44 áreas avaliadas. O que isto nos diz sobre a "guerra" tecnológica entre os EUA e a China?

O que este relatório nos diz é que a China está a liderar em termos de publicações sobre as suas investigações nestas 37 categorias. A metodologia deste estudo é baseada em publicações de grande impacto produzidas na China e as publicações de investigação são apenas uma das medidas para avaliar a capacidade de inovação de um país.

Não são a única. Mesmo se a China estiver a publicar um maior número de pesquisas que esteja a fazer - a mais importante de que falam é tecnologia de defesa espacial - isso não se traduz exatamente a capacidade de inovação.

Podem publicar o que quiserem, por exemplo, sobre mísseis hipersónicos, mas isso não quer dizer que tenham a capacidade de os construir.

Por exemplo, diz que a China está a liderar nas publicações sobre os hipersónicos, mas todo o trabalho que está a ser desenvolvido no ocidente, particularmente nos EUA, é classificado.

CitaçãocitacaoO que isto nos mostra é que a China está noutro patamar, pode fazer a sua própria investigação científica, melhorar a sua autossuficiência em matéria de tecnologia. Temos de estar alerta, por isso.

A investigação desenvolvida não é publicada para qualquer um ler. É um pouco como comparar laranjas e maçãs

O que é de assinalar é que isto deve servir como uma chamada e atenção sobre a China estar realmente empenhada em aumentar a sua capacidade em muitas destas áreas tecnológicas.

Há uns 10 anos não se pensava que a China pudesse inovar, não faziam mais que imitações e cópias da tecnologia do resto do mundo.

O que isto nos mostra é que a China está noutro patamar, pode fazer a sua própria investigação científica, melhorar a sua autossuficiência em matéria de tecnologia. Temos de estar alerta, por isso.

Falando de sinal de alerta, quais são as principais preocupações neste momento?

Estou preocupada com questões da tecnologia emergente, como a inteligência artificial (IA) e a computação quântica. O relatório que referiu diz que nesses aspetos os EUA ainda estão a liderar e isso é bom, mas devemos ficar atentos, porque a China vai querer ultrapassar os EUA e outros países ocidentais.

É algo com que nos devemos preocupar. As empresas norte-americanas não devem ficar descansadas só porque estão a liderar agora, pois isso é uma oportunidade para países como a China as ultrapassarem. Temos de continuar em frente e não ficar confortáveis.

Quando acha que vamos ficar desconfortáveis?

Acho que já estamos em alguns casos. Os semicondutores são um exemplo perfeito onde começámos a ficar desconfortáveis.

Vimos a China a instalar-se, a começar a controlar partes específicas da cadeia de abastecimento, como foram os painéis solares, e agora dominam. Não há forma de a derrubar, não há alternativa às companhias chinesas.

Que leitura fez da situação dos balões de vigilância que sobrevoavam os EUA? Qual era, afinal, o seu equipamento?

O governo dos EUA confirmou que o balão era de facto um balão de vigilância e não um balão meteorológico/metrológico, como o governo chinês afirmou.

Não me surpreendeu que a China estivesse a utilizar este tipo de tecnologia para vigiar os Estados Unidos. Os balões são mais baratos de construir, operar e manter do que os satélites, e também podem pairar a altitudes mais baixas, enquanto que os satélites estão constantemente a rodar à volta da Terra; como tal, o balão pode monitorizar um local durante períodos de tempo mais longos do que um satélite poderia.

CitaçãocitacaoO timing da descoberta do balão - poucas horas antes de o Secretário de Estado Antony Blinken dever viajar para a China - foi uma infelicidade. No entanto, penso que o timing não foi intencional; penso que se resume, provavelmente, a uma falha de comunicação com a burocracia do governo chinês.

No entanto, o timing da descoberta do balão - poucas horas antes de o Secretário de Estado Antony Blinken dever viajar para a China - foi uma infelicidade. No entanto, penso que o timing não foi intencional; penso que se resume, provavelmente, a uma falha de comunicação com a burocracia do governo chinês.

Que impacto teve na política dos EUA em relação à China? O Departamento do Comércio anunciou uma nova ronda de sanções na sexta-feira, visando seis empresas aeroespaciais chinesas que se diz estarem a apoiar o programa de balões. Acha que é uma boa ideia?

Penso que foi uma boa ideia para o Departamento de Comércio prosseguir novos controlos de exportação sobre as empresas chinesas que se verificou estarem envolvidas no programa de balões. As empresas americanas não deveriam exportar informação ou tecnologia para empresas chinesas que estão diretamente envolvidas na construção de sistemas para vigiar os Estados Unidos.

Qual é a dimensão do avanço tecnológico chinês e como é que ele afeta o Ocidente?

A China fez progressos incríveis no desenvolvimento da sua capacidade tecnológica ao longo das últimas duas décadas. Por exemplo, nas publicações de investigação científica, as entidades chinesas têm vindo a melhorar, tanto em termos de quantidade como de qualidade das publicações. O artigo que referiu no início da nossa conversa dá informações sobre essa tendência.

A China está de facto a alcançar países tecnologicamente mais avançados em todo o mundo, mas ainda não nos alcançaram. Um relatório de um antigo colega meu do Centro de Segurança e Tecnologia Emergente de Georgetown analisa este assunto no contexto da investigação da Inteligência Artificial.

Isto significa que nós, nos Estados Unidos, Europa, e outras nações tecno-democráticas não podemos ficar complacentes - já não nos podemos sentar e sentir confortáveis sobre a liderança que tínhamos anteriormente.

CitaçãocitacaoPrecisamos de assegurar que estamos a pressionar as nossas empresas e instituições de investigação a inovar na vanguarda, por exemplo, injetando mais dinheiro e recursos na investigação e desenvolvimento em campos tecnológicos chave.

Precisamos de assegurar que estamos a pressionar as nossas empresas e instituições de investigação a inovar na vanguarda, por exemplo, injetando mais dinheiro e recursos na investigação e desenvolvimento em campos tecnológicos chave.

Apesar de todos os alertas, muitas pessoas no ocidente continuam a preferir equipamentos chineses, como os telemóveis, ou redes sociais como o TikTok. Qual a sua explicação?

Duas coisas. Uma, é que as empresas chinesa, sendo ou não estatais, têm subsídios governamentais e praticam comportamentos anti concorrenciais. Claro que para um governo, por exemplo aqui em Lisboa, que tenha uma oferta chinesa muito mais barata que outra ocidental, não tem como justificar aos contribuintes optar pela mais cara.

CitaçãocitacaoNo que diz respeito à tecnologia, a China desenvolveu uma grande capacidade de criar uma espécie de consórcios de companhias para criar o que chamamos de "loja tem tudo", em que conseguem instalar tudo o que é preciso num só equipamento.

No que diz respeito à tecnologia, a China desenvolveu uma grande capacidade de criar uma espécie de consórcios de companhias para criar o que chamamos de "loja tem tudo", em que conseguem instalar tudo o que é preciso num só equipamento. Para as "cidades inteligentes" isto é muito útil.

A China fornece todo o equipamento, software, manutenção, de uma só vez. Ninguém no mundo consegue fazer isso. Se num concurso aparecer uma companhia chinesa que tem tudo o que se precisa e do outro lado estiverem várias empresas, cada uma com a sua especialidade, não é difícil saber para onde tende a escolha.

Mas porque não pode o ocidente, particularmente os EUA, competir com isso?

Acho que podemos. Mas ainda não se pensou bem nisso.

Quais são as fraquezas da estratégia chinesa?

Diria que a forma orgânica como constroem a sua capacidade tecnológica. Criam a sua capacidade para 10 anos e depois apercebem-se que faltou alguma coisa, género um software super avançado crucial, mas que não se aperceberam 10 anos antes que ia fazer falta.

Um colega meu fez um estudo sobre aquilo que é a perceção da China sobre as suas fraquezas e algumas das coisas de que falam são tecnologias mais avançadas, mas também de coisas como turbinas a gás, que não são, de todo, tecnologia avançada. Praticamente já foram esquecidas.

CitaçãocitacaoMas a China tem noção das suas fraquezas e ter essa noção sobre si próprio acaba por ser uma força. Nos EUA, muitas vezes, só reconhecemos as fraquezas quando é tarde de mais.

Mas a China tem noção das suas fraquezas e ter essa noção sobre si próprio acaba por ser uma força. Nos EUA, muitas vezes, só reconhecemos as fraquezas quando é tarde de mais. Com a pandemia apercebemo-nos do quanto estávamos tão dependentes da China. E a China sabia bem que dominava.

Durante várias décadas, muitas empresas americanas deslocaram a produção para países como a China e a Índia. Agora os EUA estão a tentar recuar e tornar-se auto-suficientes. Será isso sequer possível?

Não creio que a administração esteja necessariamente a tentar ser totalmente auto-suficiente. Sei que há esforços para trazer a produção de certas tecnologias chave (como os semicondutores) de volta aos Estados Unidos, mas penso que o governo dos EUA também está interessado em revalorizar as cadeias de fornecimento críticas noutros países amigos.

CitaçãocitacaoO governo dos EUA também está interessado em revalorizar as cadeias de fornecimento críticas noutros países amigos. Nesse sentido, fazer as coisas em conjunto com aliados que pensam da mesma maneira pode tornar as coisas mais fáceis e potencialmente mais exequíveis.

Nesse sentido, fazer as coisas em conjunto com aliados que pensam da mesma maneira pode tornar as coisas mais fáceis e potencialmente mais exequíveis. No entanto, este processo levará tempo e não acontecerá da noite para o dia.

Acha que a política atual dos EUA face à China é demasiado agressiva? Por exemplo, todo o discurso contra o Tik Tok e os perigos da recolha massiva de dados, não pode ter um efeito oposto e as pessoas ainda usarem mais?

Sobre o Tik Tok as preocupações são em relação à utilização dos dados que a empresa recolhe por parte do governo da China, o que é permitido naquele país. Temos de pressionar o Tik Tok para garantir que não vai fazer isso. Isto porque em relação à privacidade, as nossas preocupações são idênticas em relação ao Facebook, ou ao Twitter e as outras redes sociais.

A maioria dos utilizadores do Tik Tok são adolescentes. Têm preocupações com a utilização dos seus dados e com a sua privacidade?

Não, o que é também interessante de uma perspetiva cultural, pois os EUA são únicos nisso. Na maior parte dos países, na Europa, na Ásia, há um pressuposto de que o governo tem os dados de todos e ninguém se preocupa muito.

CitaçãocitacaoNos EUA, a população está mais preocupada que o governo tenha os seus dados do que o Facebook ou o Tik Tok os tenha.

Mas nos EUA, a população está mais preocupada que o governo tenha os seus dados do que o Facebook ou o Tik Tok os tenha. Talvez as pessoas, em particular os adolescentes utilizadores do Tik Tok, tenham menos preocupações do que a generalidade em relação a empresas terem os seus dados.

Houve alguns incidentes, há alguns anos que fizeram as pessoas acordar. Lembro-me do Facebook e da Cambridge Analytica. Mas a maioria o que não esqueceu foi do escândalo do NSA (National Security Agency) quando souberam que tinha dados de toda a população.

Houve uma reação muito mais forte contra isso do que em relação à Cambridge Analytica. É uma fraqueza dos EUA.

Mas não estão preocupados que a China possa ter os seus dados?

Acho que sim. Mas menos do que eu gostaria que estivessem. E acho que se deve a diferentes motivos. Algumas pessoas pensam "mas o que é que a China vai fazer com os meus dados? Porque é que isso interessa?". Outra preocupação desta utilização dos dados pelo governo chinês tem a ver com as minorias na China, os mais vulneráveis em Xinjiang, por exemplo (minorias muçulmanas).

Neste caso, já ouvi pessoas a dizer "não sou de minorias, nem vulnerável, porque tenho de me preocupar?". Há pessoas que nem têm noção de que a simples identidade que registam fica ligada à China, através de simples autotestes online que fazem para saber dos seus antepassados.

Ninguém nos EUA vai procurar saber mais sobre a empresa que promove isso e descobrir que é chinesa. Por outro lado, muita gente acredita que há uma espécie de filial do Tik Tok nos EUA e que isso lhes garante que os seus dados não são enviados para a empresa-mãe na China.

CitaçãocitacaoO governo dos EUA devia fazer um melhor trabalho de sensibilização e explicar as suas preocupações, porque senão o discurso resulta numa retórica anti-China que pode ser usada como arma pela China,

Há uma grande falta de conhecimento e de compreensão. O governo dos EUA devia fazer um melhor trabalho de sensibilização e explicar as suas preocupações, porque senão o discurso resulta numa retórica anti-China que pode ser usada como arma pela China, que dirá "vejam, os EUA estão a atacar-nos, odeiam-nos". E não se trata disso. Há preocupações legítimas, mas que se estão a diluir no meio de tudo isto.

O governo dos EUA não faz segredo do facto de que quer que os seus aliados mantenham a China afastada dos seus bens estratégicos. Como devem saber em Portugal, a China tem participações importantes em alguns destes bens, porque apoiou o nosso país durante a crise. O que pensa sobre isto?

Penso que a estratégia aqui não é os EUA dizerem que países como Portugal não podem colaborar com a China. O que deve acontecer é que se deve facultar informação às empresas portuguesas, às universidades e a qualquer entidade que trabalhe com a China, para que entrem nestas parcerias com os olhos em abertos.

CitaçãocitacaoDurante algum tempo houve a suposição que qualquer coisa oferecida pela China era uma oportunidade. Mas nunca houve a preocupação de os investidores fazerem as diligências prévias ("due diligence"), para realmente conhecer a empresa chinesa com que iam negociar, que ligações tinha e que ligações tinha ao governo.

Durante algum tempo houve a suposição que qualquer coisa oferecida pela China era uma oportunidade. Mas nunca houve a preocupação de os investidores fazerem as diligências prévias ("due diligence"), para realmente conhecer a empresa chinesa com que iam negociar, que ligações tinha e que ligações tinha ao governo.

Houve muita gente a dizer-me que não falava, nem lia chinês e que por isso não tinha capacidade para fazer estas investigações prévias. O que lhes dizia era que, mesmo não sabendo chinês, há muitos recursos em fontes abertas que ajudam a conhecer melhor a entidade com quem quer trabalhar.

CitaçãocitacaoGostava de ver o governo português, tal como outros na Europa, a disponibilizar à sociedade recursos para que possam ter informação para conhecer plenamente as companhias chineses com quem pretendem trabalhar. Não dizemos que tudo na China é mau, mas que algumas coisas têm mais riscos que outras.

Gostava de ver o governo português, tal como outros na Europa, a disponibilizar à sociedade recursos para que possam ter informação para conhecer plenamente as companhias chineses com quem pretendem trabalhar. Não dizemos que tudo na China é mau, mas que algumas coisas têm mais riscos que outras.

Talvez seja mais arriscado um investimento de uma empresa estatal chinesa, do que uma que não o é. Ou talvez seja mais arriscado com fazer uma parceria com a universidade de Defesa Tecnológica, que pertence às Forças Armadas, do que com a Universidade de Tsinghua (Pequim), que pertence ao ministério da Educação.

Comparando com outros países europeus, Portugal diferencia-se em alguns riscos?

Bem, Portugal tem depósitos de lítio de dimensão considerável, que pode ser usado em baterias de veículos elétricos. É um produto muito estratégico aos olhos da China e pode ser um bem que a China pode querer procurar em Portugal.

Para mim, essa é a maior preocupação em relação a Portugal. O setor dos veículos elétricos está no pensamento do governo dos EUA, relacionado com a nossa lei de redução da inflação.

CitaçãocitacaoPortugal tem depósitos de lítio de dimensão considerável, que pode ser usado em baterias de veículos elétricos. É um produto muito estratégico aos olhos da China e pode ser um bem que a China pode querer procurar aqui. Para mim, essa é a maior preocupação em relação a Portugal.

A União Europeia está uns quantos anos à nossa frente em matéria de energias verdes, por isso quem estiver na indústria das minas de lítio deve pensar em como avançar, talvez falando com o Canadá, ou com a Austrália, ambos países que têm grandes minas de lítio e estarão a enfrentar semelhantes preocupações.

Talvez estes países livres devam falar mais uns com os outros, bem como as suas empresas, sobre os riscos que veem a vir da China e tentem definir uma estratégia comum.

Na maior parte dos casos esses países preferem trabalhar com empresas portuguesas, canadianas ou australianas do que chinesas. É uma questão de usar isso a nosso favor.

Em novembro passado, a empresa chinesa de baterias para automóveis elétricos, China Aviation Lithium Battery Technology (CALB) anunciou que chegou a um acordo com Portugal para a instalação de uma fábrica aqui. E este ano, a Lusorecursos Portugal Lithium, a empresa que pretende explorar a mina de lítio em Montalegre, distrito de Vila Real, confirmou que foi notificada sobre o parecer favorável ao projeto que prevê uma exploração. Ainda ninguém falou sobre os possíveis candidatos ao concurso. Sabe de alguma coisa?

Posso confirmar o acordo da CALB que mencionou a partir de novembro de 2022. Quanto ao caso de Montalegre, não encontrei consigo informação sobre candidatos. Mas sei que o lado chinês está a observar atentamente. Há informação do Ministério dos Recursos Naturais da China, de setembro de 2022, sobre o processo de leilão a dizer que o lado português ainda estava a resolver as coisas.

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