Qual racismo, coitados é dos caixas de óculos

E andamos nisto: o que é realmente o racismo? O mais importante é o estatuto económico ou a cor da pele? A luta contra as discriminações ditas "identitárias" está a enfraquecer a esquerda? E os caixas de óculos, deus? Tudo o que sirva para não fazer o óbvio: ouvir.
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Há muitos anos - 27 -- numa reportagem em Israel, entrevistei o escritor Amos Oz. Foi uma conversa memorável com um homem memorável. Um homem bom, que é um ser muito raro, muito mais raro do que eu pensava à época -- o tempo e o viver não ajudam a ficar com melhor opinião das pessoas.

Dessa conversa retive muitas frases - até porque, claro, as escrevi. Uma delas é sobre saber ouvir - reconhecer a existência e a voz do outro, o sentir do outro. A dor do outro. Disse Oz: é preciso aceitar que o outro é quem diz que é. Mesmo que - e esse era o ponto da frase no contexto da conversa, o do conflito israelo-palestiniano - aquilo que o outro diz que é nos ponha em causa, nos obrigue a reexaminar a nossa ideia de nós e até perder domínio (no caso, materialmente: tratava-se de trocar terra por paz).

Põe-nos em causa como comunidade, como país, dizerem-nos que Portugal é um país racista. É difícil de ouvir. Mas é preciso ouvir. Tentar perceber. Tentar não levar isso como um insulto, não pensar de imediato, como muitos pensam, "mas eu não sou racista" ou "que exagero, há países muito mais racistas"; não é uma questão pessoal, é comunitária, institucional; não é uma questão de concorrência entre países; é uma questão nossa, de Portugal.

Tentar consciencializar o paradoxo de negar o racismo insultando quem o denuncia e ordenando "se não está bem que se mude." Um paradoxo que chega ao ponto de acusar de racismo quem diz que há racismo, numa espécie de aggiornamento, no debate público, do "quem diz é quem é" da escola primária.

Aquilo que nunca sentimos, de que nunca nos apercebemos, em que nunca pensámos, não é necessariamente mentira: pode ser só algo que nos passa ao lado. Algo em que participamos sem nos darmos conta, porque está naturalizado, faz parte do mundo desde que o conhecemos, nos conhecemos, e nunca nos pareceu ter mal porque nunca demos por que existisse: era a chamada ordem natural das coisas. E, sobretudo, não nos tinha - tem - como alvo.

Aceitar que o outro é quem diz que é - a frase do tão sábio Oz - implica aceitar que o outro sente o que diz que sente; implica usar isso a que se dá o nome de empatia.

Claro, responder-me-ão, cada um de nós sente coisas, ora essa, e isso não significa que sejam "a verdade"; inclusive os racistas sentem racismo. Certo. Mas há um motivo, histórico e terrível, para que a nossa Constituição proíba a discriminação em função de determinadas características - cor de pele, religião, sexo, orientação sexual - e não de outras. Não, por exemplo, em função da massa corporal ou de usar ou não óculos (isto para usar exemplos que esta semana li nas redes sociais a propósito das crianças que em Portugal chegam a casa e dizem aos pais que na escola lhes chamaram "pretas"; há mesmo pessoas, e não assim tão poucas, que dizem que a umas chamam pretas e a outras caixas de óculos e que é normal, as crianças sobrevivem, e que é "vitimização" considerar que isso é um problema, as crianças sofrerem por lhes chamarem pretas e os pais sofrerem por saber que chamam pretos aos filhos - ou seja, que não há racismo, só "as crianças a serem crianças").

Se calhar não repararam, mas os gordos e os caixas de óculos não viram as suas terras ocupadas e anexadas, não foram chacinados, escravizados, comprados e vendidos, não foram legalmente definidos como inferiores (como os "indígenas" negros e as mulheres até à segunda metade do século XX português), não foram criminalizados, perseguidos e exterminados (como os judeus e os homossexuais). Há desde sempre gordos e (desde que há óculos) caixas de óculos nas classes dominantes; não se confundem, como os negros na sociedade portuguesa, com a definição de "pobre" e "marginal"; ser gordo e caixa de óculos não prescreve à partida grandes probabilidades de não se sair da cepa torta.

O tão tonto paralelismo que citei tem no entanto uma virtualidade: a de que cada gordo ou caixa de óculos pense como seria se essas suas características, num país maioritariamente de elegantes com visão perfeita, determinassem que lhes dissessem "vai para a tua terra" (uma terra de gordos ou caixa de óculos) sempre que uma conversa azedasse, ou só porque sim; que lhes perguntassem sempre "de onde és?", partindo do princípio de que de cá não podem ser; que ao entrar numa loja fossem seguidos por seguranças e ao tentar arrendar uma casa recusados; que a polícia tivesse o hábito de os parar na rua para lhes pedir a identificação, de os tratar por tu, de os revistar, como se fossem, por definição, suspeitos de algo; que na escola lhes indicassem a via profissionalizante e, olhando para as TV, para o parlamento e para a representação em geral, reparassem que não havia praticamente gente gorda nem caixa de óculos. E que essa condição, essa noção de exclusão se perpetuaria em filhos e netos - caso os gordos e caixa de óculos tivessem sempre filhos gordos e caixa de óculos.

É chato ser gordo, há discriminação contra os gordos. E contra os caixas de óculos também - fui uma, sei-o muito bem. Mas aquilo de que falamos quando falamos de racismo é multiplicar por muitos mil esse desconforto, essa noção de diferença e de desdém. É sentir que não se pertence, e que ninguém quer saber - pelo contrário; que o discurso dominante é de negação, de derrisão, de raiva até, perante qualquer alegação de discriminação.

Se nada disso permite começar a perceber, se nada disso comove - porque é disso que se trata, mover-nos com o outro, para o outro -, caramba. Já não é falta de imaginação, é mesmo maldade. E aos maus, confesso, não tenho nada a dizer. A não ser, talvez, que são uma bosta. De pessoas.

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