O Diário de Notícias foi o único órgão de informação português representado em São Paulo, na 26.ª Conferência da ONO, instituição que agrupa provedores de todo o mundo. A localização no Brasil focalizou algumas intervenções dos conferencistas na contextualização e enquadramento do jornalismo sul-americano. É preciso referir que a maior parte dos membros da organização está sobretudo na Europa e nos EUA, não estando estes familiarizados com essas problemáticas, o que é também o caso de muitos dos nossos leitores. .German Rey, que foi provedor do jornal colombiano El Tiempo, de Bogotá, lembrou a situação de grande desigualdade social deste continente, das maiores do mundo, situação que desafia e interpela os jornalistas. A luta pela sobrevivência deixa pouca escolha às camadas populares, que podem dificilmente deixar de comer para comprar o jornal. Além disso, segundo Rey, o jornalismo que se faz é um jornalismo "valente", algumas vezes com riscos pessoais fortes para os jornalistas que investigam poderes ilegítimos, tráficos de influência e negócios ilícitos. Qual é então o papel dos provedores? Os problemas que se lhes põem são igualmente complicados..German deu detalhes de um desses casos. O provedor colombiano recebeu uma carta assinada por 30 "grandes" criminosos colombianos detidos numa prisão, conhecidos como o cartel. E o que dizia a carta? A carta era um protesto contra uma notícia que descrevia as condições de detenção dos presos como sendo muito benévola. O provedor falou com os jornalistas que visitaram a prisão. Um deles deu o seguinte detalhe relativo à reportagem: "Fui recebido numa cela com champanhefrancês. Mas não era uma única garrafa que estava na cela: havia muitas outras." Algo nunca visto para nenhum dos provedores do Hemisfério Norte! Os problemas retóricos podem dar lugar a outros mais extremos e sensíveis, com implicações no mundo do narcotráfico, da corrupção, da informação militar..Esta intervenção de abertura pintou um quadro muito vivo sobre as condições difíceis do jornalismo sul--americano e da sua problematização pelos provedores..A conferência de encerramento foi feita por Andrés Oppenheimer, jornalista de origem sul-americana, radicado nos EUA e especialista da América Latina. A sua intervenção incidiu sobre a cobertura internacional, que, um pouco por todo o lado, vê o seu peso decrescer. Oppenheimer considerou que esta diminuição quantitativa é negativa. Mas outros factores parecem ter ainda mais influência nesta problematização. A falta de imaginação das agendas, repetitivas nos temas e nos focos de abordagem, estaria a levar os jornais para o cemitério, pois os leitores não gostam de ter mais do mesmo, dia após dia. Apoiado em números recentes que mostram a descida de vendas dos jornais norte-americanos, o especialista considerou que o caminho mais certeiro para travar essa tendência seria o de os jornais criarem a sua própria agenda, destacando assuntos significativos para os cidadãos. O exemplo mais frequente a que recorreu foi o da educação, assunto que interessa a grande parte da população. Andrés Oppenheimer considerou que falar de outros países pode ser um excelente ponto de partida. Um exemplo que utilizou foi o das escolas chinesas que introduziram a aprendizagem do inglês no 3.º ano de escolaridade, enquanto no México este ensino se inicia apenas no 7.º ano de escolaridade. Ora os mexicanos, como os cidadãos de outros países, interessam-se por estas comparações. Quem não perceberá que, num mundo globalizado, os cidadãos chineses estão a adquirir uma forte vantagem competitiva e cultural? O exemplo não daria o mesmo contraste em Portugal, onde a ministra da Educação tomou a iniciativa, neste domínio. Mas também pode ser interessante comparar boas práticas. .Incumbe aos jornais um esforço de imaginação na ciência, na tecnologia, na educação, na demografia, para criar agendas mais significativas para os cidadãos, mais do que cumprir repetitivamente a agenda tradicional dos conflitos internacionais. Outros mundos, lá fora, deveriam ser comparados com o país de origem. Ficou no ar uma necessidade de inovação e questionamento permanentes para que os jornais possam ocupar um lugar mais central na vida das pessoas.