"Quando entras numa sala de aula, não deves ser capaz de identificar a religião de um aluno ao olhar para ele", disse o ministro da Educação francês, Gabriel Attal, justificando a decisão de proibir nas escolas o uso da abaya (veste larga normalmente usada pelas mulheres muçulmanas que cobre todo o corpo, à exceção da cabeça, das mãos e dos pés) e do qamis (traje longo usado pelos homens). A Direita aplaudiu. Mas a Esquerda está dividida, com a França Insubmissa a contestar e o Partido Socialista a ser mais favorável ao abrigo do princípio da laicidade - apesar de criticar o Governo por ser esta a prioridade no regresso às aulas..Os eleitos d"Os Republicanos congratularam-se com a decisão, dizendo que há muito tempo que defendiam a proibição do uso da abaya nas escolas e assinalando o facto de o ministro da Educação concordar com eles. Attal é, aos 34 anos, o mais jovem a assumir esta pasta, tendo sido nomeado há pouco mais de um mês. O seu antecessor, Pap Ndiaye, tinha deixado a decisão ao critério dos diretores das escolas, permitindo diferentes leituras da lei de 2004 que proíbe o uso de símbolos religiosos nos estabelecimentos de ensino..Na Extrema-Direita, a decisão é vista com satisfação, mas um deputado da Reunião Nacional (ex-Frente Nacional), Grégoire de Fournas, alegou no Twitter (rebatizado X) que "sem travar a imigração é como esvaziar o mar com uma colher pequena". A porta-voz do partido de Marine Le Pen, Laure Lavalette, criticou a inação do ex-ministro em relação ao tema, lamentando o "tempo perdido" e dizendo que "ainda há muito a fazer"..Twittertwitter1695892028553371841.À Esquerda, o líder da França Insubmissa, Jean-Luc Mélenchon, reagiu também nas redes sociais: "Tristeza por ver o regresso às aulas politicamente polarizado por uma nova guerra religiosa absurda e inteiramente artificial sobre o vestido de uma mulher. Quando haverá paz civil e um verdadeiro secularismo que una em vez de exasperar?" Uma das deputadas do seu grupo, Clémentine Autan, foi mais radical, falando de uma "polícia do vestuário" e considerando "inconstitucional" o anúncio de Attal, por ser "contrário aos princípios fundadores do laicismo" e "sintomático da rejeição obsessiva aos muçulmanos"..Twittertwitter1696093283724763482.Os socialistas franceses mostram-se contudo mais favoráveis à decisão do Governo. O deputado Jérôme Guedj lembrou no Twitter que a "bússola é a proibição dos símbolos ostensivos na escola" e que se a abaya ou o qamis são usados dessa forma, então é preciso proibi-los, como estabelece a lei de 2004. Defendeu ainda que é preciso que haja uma "doutrina clara" e alegou que em causa não está uma "polícia do vestuário", mas uma "polícia do proselitismo" nas escolas. Já a porta-voz socialista, Fatiha Keloua Hachi, recorreu à ironia na mesma rede social. "É verdade que esta é A prioridade deste regresso às aulas: não faltam professores, acompanhantes de alunos com deficiência, médicos escolares, as salas de aulas não estão superlotadas, a diversidade social é uma realidade em todo o lado...", escreveu..Twittertwitter1695876113208164696.A lei de 15 de maio de 2004, que está atualmente em vigor em França, proíbe nas escolas públicas o uso de símbolos que manifestam ostensivamente a pertença a uma religião. Três dias depois, uma circular especificava que "são proibidos os sinais e trajes cujo uso conduz ao reconhecimento imediato da filiação religiosa, como o véu islâmico, seja qual for o nome que lhe seja dado, o quipá [usado pelos judeus] ou uma cruz [cristã] de tamanho manifestamente excessivo"..Em relação às abayas, foi publicada uma outra circular, em novembro do ano passado, dizendo que também deve ser proibida se for usada "de uma forma que manifeste visivelmente uma filiação religiosa". O Conselho Francês para o Culto Muçulmano indicou, num parecer em junho, que a abaya "não é um símbolo religioso muçulmano". Mas continuavam as dúvidas, ainda para mais porque a circular deixava na prática a decisão nas mãos dos diretores das escolas, o que não agradava a todos, pois havia quem defendesse que não deviam ser eles a assumir esse peso. Attal vem clarificar agora a situação, antes do início do novo ano letivo. O anúncio foi feito no domingo à noite, na TF1, antes de uma conferência de imprensa com as novidades do regresso às aulas..O ministro reiterou esta segunda-feira aos jornalistas que as abayas "não têm lugar nas escolas", considerando que os estabelecimentos de ensino estão a ser "testados". Attal lembrou ainda que "nos últimos meses, as violações das regras seculares aumentaram significativamente, particularmente no que diz respeito ao uso de roupas religiosas tal como as abayas e os qamis que apareceram, e ficaram, em alguns estabelecimentos de ensino"..Segundo os dados a que a AFP teve acesso, os ataques à laicidade aumentaram desde que, em 2020, o professor Samuel Paty foi assassinado à porta de uma escola após ter mostrado os cartoons do profeta Maomé na sala de aula. O aumento foi de 120% entre o ano escolar de 2021/2022 e 2022/2023. O uso de símbolos religiosos, que representam a maioria dos casos, aumentou mais de 150% ao longo do último ano escolar..susana.f.salvador@dn.pt