Jogar ou não jogar futebol profissional acima dos 2500 metros de altitude. Esta é a polémica que divide o organismo que gere o futebol a nível mundial (FIFA) e os países andinos - Colômbia, Bolívia, Equador e Peru. Estas selecções realizam normalmente os desafios de apuramento para os mundiais ou para a Taça dos Libertadores da América em estádios como o La Paz a 3600 metros (Bolívia), Bogotá a 2640 metros (Colômbia), Quioto a 2850 metros (Equador) e Cuzco a 3400 metros (Peru) e contestam a decisão da FIFA em proibir desafios a estas altitudes..A federação internacional argumenta com razões médicas que demostram que jogos praticados em zonas altas colocam em risco a saúde dos atletas. Posição que futebolistas, treinadores e dirigentes dos países andinos contestam - argumentando que o diagnóstico médico é insuficiente e "pouco sólido"- considerando a decisão injusta e que coloca em causa a sua tradição e a geografia. .O jogo em altitude exige dias de adaptação, caso contrário, asseguram os especialistas, os atletas que praticam exercícios físicos intensos, podem sofrer fadiga excessiva, náuseas, tonturas, enjoos, problemas respiratórios e até colocar em perigo a própria vida. .O vice-presidente do clube brasileiro Flamengo, citado pela imprensa, afirma que a decisão da FIFA "é uma vitória para os seres humanos". Kléber Leite recordou as dificuldades que a equipa teve ao enfrentar o Real Potosí, na Bolívia (4070 metros) na última edição da Taça dos Libertadores. "Houve jogadores que ao intervalo pediram oxigénio", disse. .Pelé também defende a FIFA, sublinhando que "o Brasil sempre foi prejudicado por jogar em alta altitude". Também o seleccionador da Venezuela, Richard Páez, aplaude a medida e afirma que a altitude "era quase um doping para os que jogavam em casa". .Em desacordo com estas declarações está o internacional boliviano, Juan Manuel Peña, do Villarreal (Espanha), que garante que a altitude não afecta a saúde. "Nós andinos jogamos desde sempre em altitude e, até hoje, nunca houve nenhum caso de morte. Ao contrário existem desportistas que morreram devido ao calor e à humidade e aí não se proíbem os jogos disputados a 40 graus", disse ao jogador ao ABC. .Evo Morales, presidente da Colômbia, diz que "talvez o problema seja só uma vertigem de que sofrem as equipas brasileiras". Coincidência ou não, a verdade é que a Bolívia conquistou num passado recente vitórias históricas frente ao Brasil e à Argentina e o Equador está invicto em casa há quase seis anos. .Na Colômbia, o presidente da Federação local destacou que quando o país se candidatou à organização do Mundial de 2014 ninguém disse nada sobre a altitude dos [seus] estádios". Luis Bedoya é o porta-voz dos países descontentes com a FIFA..O interessante desta polémica, a segunda em dez anos, é que o próprio presidente da FIFA, Joseph Blatter, em Fevereiro de 2000, defendeu o direito de a Bolívia jogar na altitude. Afirmou ele: "Eu nasci nas montanhas. O meu povo na Suíça está diante das montanhas mais altas da Europa. Por isso não tenho medo da altura". Esta frase está escrita numa placa colocada em frente ao Estádio Hernando Siles em La Paz..A 15 de Junho a Confederação Sul-Americana reúne-se e a polémica será o centro do debate.- R.S.