Naquele dia a formatura no Comando Geral da GNR, no Largo do Carmo, Lisboa, teve mais espectadores do que o habitual. Era a primeira vez que uma mulher assumia funções de oficial e integrava a formatura. O momento teve direito a panfleto interno para conhecimento de todos os militares. Foi há 14 anos, mas para Carla Tomé, 37, parece que foi ontem. "Quando se gosta do que se faz, o tempo passa mais rápido", revela..Carla era ainda uma adolescente numa escola de Portalegre quando se entusiasmou pela "tropa". No dia em que um amigo de família lhe falou na abertura de vagas para mulheres na Academia Militar, não hesitou..Foi ter com o professor de Educação Física, que lhe traçou um plano infalível para passar nos testes físicos. E entrou no 10.º curso. O primeiro ano ensinou-lhe que teria de dedicar-se ainda mais para conseguir transitar. "Foi o período de adaptação, longe de casa e em regime de internato", lembra. Nos anos seguintes brilhou e optou pela única vaga entretanto aberta pela GNR - que pela primeira vez permitia o acesso por mulheres. .O curso daquele ano reunia ainda futuros candidatos à Marinha e à Força Aérea. "O ambiente era muito bom, mas é engraçado porque cada força tinha um perfil diferente", lembra. "Uns só pensavam em navios, outros em aviões e outros em terra, todos confinados ao mesmo espaço", refere. .Foi durante a estada na academia que conheceu o actual marido, agora colocado no Instituto Geográfico do Exército, e com quem teve duas filhas de 8 e 10 anos. "A mais velha diz que não quer ser polícia porque tem de se estudar muito. Mas quer voar.".É o que vê a mãe fazer. No concurso de promoção a major, Carla passou dias e noites a estudar. "Sinto que temos uma dupla obrigação. A de desempenhar bem o nosso trabalho e a de mostrar que as mulheres também são capazes", refere. Horas à volta dos livros colocaram-na entre os três melhores classificados do curso. Mais uma vez a única mulher..Carla admite ter sido sempre bem recebida na GNR. "Nós mulheres, e também o pessoal mais jovem, somos uma lufada de ar fresco na instituição", diz. A GNR "já não é aquela força fechada e inatingível, agora está próxima do cidadão", refere. .E o papel das mulheres tem sido fundamental para fomentar essa proximidade. Prova disso é o encontro anual de mulheres de várias forças europeias. "Já estive nos encontros que ocorreram em Oslo e em Madrid", recorda. As experiências e formas de estar no seio de cada corporação e de cada país são os temas mais debatidos entre elas..Quando chegou ao Comando Geral da GNR, Carla era a única mulher que vestia farda de oficial. Mas entretanto já vários postos territoriais tinham recebido algumas soldados mulheres. O acesso das mulheres à GNR foi aberto ao mesmo tempo para qualquer posição na hierarquia, mas o curso de oficial prolonga-se por mais tempo..Hoje Carla prepara-se para ser a primeira e, para já, única mulher major na GNR. O processo es- tá todo concluído e dependen- te de questões burocráticas..A ainda capitão foi colocada na secção de Orçamento e depois na Contabilidade mal acabou o curso. Agora chefia as divisões de Gestão Orçamental e Financeira. "Nunca pensei em fazer serviço operacional, porque este trabalho é muito complexo e dá-me imenso prazer", diz, sublinhando o ambiente familiar que se vive nas instalações perto da estação de Santa Apolónia, onde funciona o Comando da Administração dos Recursos Internos (CARI). Além do serviço não operacional, Carla já esteve na Bósnia para celebrar acordos bilaterais e financeiros nos gastos com militares e instalações..Neste momento, Carla Tomé ocupa um cargo por nomeação do comandante-geral. Não sabe se vai manter-se ali depois de promovida. Não se importa. "Gosto do que faço e aconselho as jovens interessadas que arrisquem a concorrer." Foi a mensagem que levou ao Ministério da Administração Interna, a convite, no Dia da Mulher.