Iogurtes, azeitonas, queijo feta, cervejas, vinho e até carne e orégãos. Os géneros alimentícios trouxeram Filippos Gavriilidis a Portugal, o país onde não existia um restaurante grego até ele ter inaugurado o primeiro, em 2008, e mantêm-no aqui. Está preso pelo estômago. Ao restaurante juntou uma empresa que importa iguarias com a etiqueta made in Greece..É nessa caverna do Ali Babá, em Albarraque, arredores de Sintra, que Filippos, nome grego que significa amigo dos cavalos, recebe. "Tenho muito pouco tempo. Entre as 10.00 e as 11.00, não mais", avisa pelo telefone quando combinamos encontro (e será mesmo assim)..Como chegou até Portugal no ano da crise é uma história que começa a ser contada, muitos anos antes, 1979, quando vai para o Brasil. Isto apesar de, no ano anterior, ter estado com um grupo de 35 pessoas em Portugal. Nunca pensou instalar-se aqui. Licenciado em arquitetura numa universidade na Inglaterra, queria muito trabalhar na sua área. Fê-lo. Trabalhou com Oscar Niemeyer e durante esses três anos que viveu do outro lado do Atlântico, até 1981, aprendeu português. Foi quando pensava abrir uma empresa de construção com um sócio que a história deu uma reviravolta e regressou à Europa..Da Alemanha chega-lhe o pedido de um tio para que o fosse ajudar nos seus negócios ligados com a gastronomia. Conta a resposta: "Só se for sócio". O tio aceitou, ele mudou-se, casou-se e teve três filhos, separados entre eles por 18 meses. O mais novo tem agora 24 anos. Mas todos conheceram Portugal antes do pai dar a notícia de que se mudaria para este canto da Europa. "Estive cá em 1995 de férias". Uma semana no Algarve e outra no Estoril. O mesmo Estoril onde, casualidade das casualidades, em 2008, meses antes da crise de eclodir abriu o primeiro restaurante grego, depois de dois ou três anos a estudar para onde se mudaria.."Vendi tudo na Alemanha, procurava outro sítio". Pensou na China, mas não gostou "do clima de negócios". Numa feira de produtos alimentares travou conhecimento com aquele que viria a ser o seu sócio português. Já sabia a língua. "Perguntam-me se sou brasileiro", ri-se. Línguas, fala muitas: grego e alemão, português e inglês, italiano e espanhol..Os filhos mais velhos trabalham e estudam na Alemanha, o mais novo tem um restaurante (grego, que mais?) na Costa de Caparica, o Pita.gr enquanto o pai, depois de fechar o armazém vai até à Madragoa cuidar do seu outro negócio. Escolheu um dos mais típicos bairros lisboetas ("a maioria da clientela já era de Lisboa") para trasladar o Ilhas Gregas, o espaço onde se come apenas o que vem do seu país natal. "Entrando no restaurante você está na Grécia", afirma. "Até os orégãos cheiram diferente", dirá, quase no final da conversa..Lança um dado curioso. "Na Alemanha existem 18 mil restaurantes, aqui não havia nenhum". Portanto, quando começou a importar produtos era só mesmo para o seu consumo. Até que outros, as grandes superfícies e lojas gourmet, se interessaram. Até o outro restaurante helénico que entretanto abriu se avia no seu Eurogreece..Garante que a crise só o chamuscou. "Os meus clientes são de classe média/alta, não perderam o hábito de comer bem"..Aos 63 anos e apesar dos quase 40 anos que leva fora do país natal e da sua cidade, Salónica, a segunda maior da Grécia, depois de Atenas, não hesita quando o assunto é a nacionalidade. "Sinto-me grego, sou orgulhoso de ser grego". Os filhos cresceram na Alemanha e vi-os muito entusiasmados com essa cultura, por isso, um dia mandou-os para a Grécia para "aprenderem a ser gregos". É uma expressão que lhe sai quase sem notar. Ele acabou por se juntar à mulher nessa época, mas acabaram sempre por voltar à Alemanha, usufruindo da dupla nacionalidade. "Aprendam a ordem dos alemães, o resto dos gregos", aconselha os filhos, cujo mapa sentimental está ligado a estes país e não tanto a Portugal. Só o mais novo viveu, e estudou, efetivamente, por cá..Filippos regressa amiúde à Grécia. "São férias e trabalho". É crítico do que se passa por lá. Queixa-se das constantes alterações na Educação. "Muda o ministro, troca tudo. Eu me irrito!". E sai-lhe então o sotaque do Brasil..Em plena crise económica e política, o filho mais velho abandonou a Universidade de Salónica, onde estudava, para regressar à Alemanha, onde agora está a terminar um mestrado. "Ele gosta da Grécia mas para trabalhar não dá". Como empresário, espanta-se com as douradas, que são pescadas por lá e chegam mais baratas a Portugal..Há um ano, em plena crise grega, com aberturas consecutivas de noticiário sobre as tensas negociações entre Alex Tsipras e Angela Merkel, era chamado por televisões e rádios para falar sobre o país. "Gregos a falar português havia poucos", ri-se. Volta ao tom crítico: "A taxa de desemprego está nos 26%, 58% entre os jovens". E continua, já no papel de comentador: "Estamos na mão da Alemanha. Varoufakis saiu porque não queria cooperar. Se não perdoarem uma parte da dívida, ela nunca será paga.".Que o tom crítico, porém, não mascare o essencial:"Sou grego, vou ser sempre grego, é o povo mais calmo da Europa". Mas, ao mesmo tempo: "Não penso que sou estrangeiro aqui".