Num calabouço de uma prisão de segurança máxima com apenas duas aberturas mínimas para receber refeições, Fernandinho Beira-Mar, o líder da organização criminosa Comando Vermelho condenado a 320 anos de prisão, só se conseguia comunicar com Cleverson Santos, vizinho de cela, através de uns bilhetes que enrolava em fiapos de lençol. Com um peso na ponta, conseguia fazê-los passar por uma das frestas do cárcere do companheiro durante a madrugada, quando a guarda afrouxava..Recebidas as mensagens, Cleverson aproveitava para as entregar à mulher a cada visita íntima, através dos órgãos genitais dela. Ela levava então o papelinho para uma outra mulher no exterior da penitenciária que digitalizava o conteúdo e o enviava por e-mail aos destinatários finais. Mesmo preso desde 2002, Beira-Mar conseguiu dessa forma continuar a lucrar até maio deste ano, quando o seu método foi descoberto pela polícia, cerca de um milhão de reais [270 mil euros] por mês com a distribuição de gás, instalação de serviços de internet e venda de cigarros, bebidas e máquinas de jogo em favelas do Rio de Janeiro, a 3500 quilómetros da sua cela, em Porto Velho, Rondônia. Além de controlar um esquema de aquisição, processamento e distribuição de drogas, comprar armamento no estrangeiro e gerir onze empresas fictícias para lavar o dinheiro ganho ilegalmente..Condenado a 234 anos, Marcola, homólogo de Beira-Mar no ainda mais poderoso e disseminado PCC, também controlava o tráfico de drogas e armas da sua organização mesmo isolado numa cela da prisão de Presidente Venceslau, em São Paulo, descobriu há dois anos a polícia através da interceção de chamadas telefónicas. Já antes, o criminoso fora responsável pela diminuição do crime na maior cidade brasileira: apesar de as autoridades reclamarem para si esse mérito, foi uma ordem de Marcola no sentido de abrandar na violência, negativa para os negócios do PCC, que reduziu os banhos de sangue..Partiu de Antônio Bonfim, conhecido como Nem, a ordem para iniciar a guerra, ainda sem cessar-fogo declarado, na Rocinha, maior das 1025 favelas do Rio, que mobilizou meia polícia carioca e mil soldados do exército, matou dezenas e manteve refém os 70 mil habitantes de uma comunidade vizinha da elitizada zona sul da cidade nas últimas semanas. Nem, preso desde 2011, reagiu contra a tomada de poder de Rogério 157, um seu ex-guarda-costas, que matou o seu ex-braço-direito Perninha e expulsou da Rocinha a sua mulher, Danúbia Rangel, tratada por todos como a primeira-dama da favela..Num país onde nos telejornais a atualidade política, passada a limpo pela Operação Lava-Jato, se confunde com as páginas policiais, as notícias sobre a guerra na Rocinha só deixaram de dominar as manchetes quando foi divulgada, na semana passada, uma extensa sondagem, do Instituto Datafolha, sobre a emocionante eleição para a presidência da República do Brasil de 2018..E não é que nessa pesquisa, Lula, que até então já dominava todos os cenários de primeira volta mas fraquejava na segunda por causa da elevada taxa de rejeição, agora lidera em toda a linha? O presidente de 2003 a 2010 vence todos os candidatos, de direita, centro e dos extremos, registando apenas um empate técnico na eventualidade - para lá de remota - de Sergio Moro, o juiz que o condenou a nove anos e meio de prisão em primeira instância, concorrer..Noutro ponto da sondagem, no entanto, a maioria dos inquiridos responde que quer Lula preso, ou seja, condenado também em segunda instância, pelos supostos ilícitos que cometeu - e pelo cruzamento de dados há quem o deseje em simultâneo no Palácio do Planalto e no vizinho Complexo Penitenciário da Papuda. Ou seja, por mais esquizofrénico que possa parecer, a pesquisa de opinião da Datafolha indica que parte dos brasileiros quer ser governada por um presidente presidiário, como notou o povo em piadas, memes e afins. No fundo, quer no Brasil o mesmo modelo de governação do Comando Vermelho, do PCC e da Rocinha.