Por ocasião dos 50 anos da morte do maestro brasileiro Heitor Villa--Lobos (1887-1959), intervenções artísticas que celebram a efeméride acontecem até o fim do ano no Brasil. Um dos mais importantes compositores brasileiros, Villa-Lobos desempenhou importante papel na formação da identidade e música brasileiras. Em Paris, onde viveu na década de 20, a Orquestra Nacional da França, a Universidade de Sorbonne e outras entidades organizaram diversos concertos e colóquios em sua homenagem. Em Lisboa foram executados os principais trechos de sua ópera Yerma, baseada na peça do espanhol García Lorca, no Teatro Nacional de São Carlos, no último domingo. A Semana de Arte Moderna de 1922, de São Paulo, da qual Villa-Lobos foi um dos protagonistas, marcou a renovação estética no Brasil, com o movimento artístico do modernismo. Villa-Lobos fez parte da primeira geração do modernismo, ao lado de Mário de Andrade, Tarsila do Amaral e Manuel Bandeira entre outros, que avançaram com o projecto de formação nacional iniciado no romantismo, através das obras de escritores como José de Alencar e Golçalvez Dias. Os modernistas defendiam uma arte livre, genuinamente nacional, e eram contra o academicismo e o formalismo artístico. Desde o início Villa-Lobos admirou a força estética da alma popular brasileira..O ano de 1930 marca o início da 'era Vargas' e o retorno do compositor ao Brasil - até então vivia em Paris, quando cria o primeiro plano de educação musical para as escolas do país. No mesmo ano inicia a composição das nove Bachianas Brasileiras - explicitamente inspiradas em Bach, sua obra mais conhecida. Em 1932 assume a Superintendência de Educação Musical e Artística, momento em que realiza a primeira concentração orfeônica, isto é, a apresentação de um coro infantil com 40 mil vozes, sob a sua batuta. Villa-Lobos acreditava no canto como potencialidade de educação cívica e moral; o compositor e a sua música tornaram-se símbolos do varguismo..O maestro projectou o Brasil internacionalmente e dirigiu as principais orquestras do mundo. Na ideologia de Villa-Lobos, a alma do povo, suas cores e originalidade eram os elementos de auto-afirmação necessários para a criação de uma identidade brasileira, em oposição a tradição colonial da valorização excessiva do que vinha de fora. A marca distintiva em seu legado é o livre trânsito de influências da cultura tradicional e popular sobre o repertório erudito, o que fez de sua obra, local e universal ao mesmo tempo. Foi o único compositor brasileiro que teve sua efígie impressa em notas de dinheiro - 500 cruzados, em 1986. Actualmente seu nome é encontrado em parques, ruas e avenidas, shopping centers e condomínios residenciais, por todo o Brasil. "O compositor genuíno, por mais cosmopolita que seja, é mais do que nada a expressão de um povo, de um ambiente… Sim, sou brasileiro e bem brasileiro", afirmava, na obra Presença de Villa-Lobos.