Precisamos de descer ao inferno antes de sermos livres pensadores

Publicado a
Atualizado a

A partir do momento em que o ingresso é comprado e transposta a entrada principal, há apenas uma coisa a fazer subir. E subir mais um pouco. E andar para a frente, sempre, que a área é vasta e o tempo escasseia quando se pretende conhecer a fundo os cenários que, ao longo do percurso, se sucedem uns aos outros para pôr a descoberto os segredos - muitos segredos, misteriosos, únicos - guardados a sete chaves na Quinta da Regaleira.

"O tempo que o palácio levou a ser construído [só ficaria pronto em 1911, 19 anos depois de o 'Monteiro dos Milhões' ter comprado a propriedade] prova que nada, aqui, é obra do acaso", nota António Silvestre, apontando para o edifício que se eleva no terreno com a graça de quem sabe ter sido, sempre, o manifesto pessoal de um homem que quis fazer dele síntese da memória espiritual da Humanidade.

"Carvalho Monteiro era, antes de mais, um camoniano que reconhecia a influência dos clássicos e a necessidade de descer aos infernos, vibrar com as energias da Terra e crescer com todo este processo para, no fim, encontrar o equilíbrio", resume o guia, explicando o sentido figurado da linguagem "O inferno é o medo que todos temos de quebrar as amarras que nos prendem às ideias inculcadas na infância." A descida e os obstáculos representam a caminhada que fará de nós livres pensadores. A luz "é o encontro connosco", uma vez alcançado o autoconhecimento.

Nada foi, de facto, deixado ao acaso. E é preciso passar pelo Patamar dos Deuses e a loggia, pela Gruta do Labirinto e o lago, pela Fonte dos Ibis, a capela, o próprio palácio, o Terraço das Quimeras, a Fonte da Abundância, a Torre da Regaleira, o Lago da Cascata, as Grutas do Oriente, do Aquário, da Virgem e da Leda, o Poço Imperfeito e o Poço Iniciático, o Portal dos Guardiães e o Terraço dos Mundos Celestes para sentir que em tudo aquilo sobra espaço para as convicções de cada um.

A Regaleira não tem pretensões de ser bíblia arquitectónica, mas toda ela é um livro - escrito na pedra que lhe dá corpo e na natureza em que se inscreve. Uma ponte entre tempos e saberes que nos faz querer percorrer os muitos caminhos da propriedade com a certeza de que, no fim, é de um só caminho que se trata.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt