Selecção. Perante as questões dos jornalistas brasileiros que acompanham Portugal - por Felipão, mas também por Deco e Pepe -, o central do Real Madrid voltou a manifestar a sua "portugalidade" e ignorou a derrota do Brasil com o Paraguai. E os brasileiros, que não têm um central como ele, não gostaram .Central afirma-se português e ponto final .De repente, Al Gore desembarcou na entrevista diária que a selecção portuguesa dá em Neuchatel. Quer dizer, não foi bem o ex-vice-presidente americano, foi uma sua frase antiga: "Ao contrário do que os brasileiros pensam, a Amazónia não é propriedade deles, ela pertence a todos." Também não foi bem essa a frase que foi dita ontem - mas o que está por trás dela caiu com estrondo na entrevista de Pepe. Alguém lhe perguntou o que ele sentia pela derrota do Brasil com o Paraguai. E Pepe disse essencialmente que o facto era-lhe indiferente. Saltaram logo jornalistas brasileiros a cobrar ao central naturalizado português as suas origens: "Pepe, você quando era moleque lá no Brasil sonhava jogar por uma selecção estrangeira...?".São vários os jornalistas brasileiros a cobrir a selecção portuguesa, inicialmente por causa do destino de Scolari, o treinador "Sargentão" que lhes deu a última Copa do Mundo que conquistaram (2002). Mas as óptimas actuações dos dois futebolistas de origem brasileira, Deco e Pepe, têm sido notícia para o Brasil. Deco joga como português há vários anos e nunca escondeu que a sua naturalização se deveu ao atraso de uma convocação pelo Brasil. Já o novato Pepe afirma-se português e ponto final - ontem fez questão de dizer que se naturalizou porque escolheu e não porque Scolari o tenha empurrado para isso..Na hora do perfilar das equipas, Pepe é dos que cantam o Hino com mais garra e o seu golo contra a Turquia foi saudado com o bater do punho no emblema. O brasileiro que se lê nos seus nomes próprios, Kléper Laveran, foram submersos pelos nomes de família, Lima Ferreira - Pepe, nascido em Maceió, é hoje um transmontano ou alentejano dos quatro costados. Emigrado para Madrid, como cabe aos melhores de nós, e feliz pela selecção, como todo o bom emigrante. Esse lado choca o jornalista brasileiro Morais Filho, trabalhando para a TV Bandeirantes: "Me parece que ele tem desdém pelo Brasil...".Na verdade, o que acontece é que o Brasil nunca esqueceu Henry Wickhan, o inglês que em 1876 roubou sementes de seringueira, na Amazónia, e as levou para a Malásia, matando, então, o monopólio brasileiro da produção de borracha. O Brasil não suporta agora que lhe roubem a sua riqueza futebolística. Em 1958, Mazzola foi campeão do Mundo pelo Brasil e depois exportou-se para a selecção italiana (com o nome de José Altafini). Não foi grave, porque Mazzola foi substituído por um tal Pelé. Agora, o Brasil não tem nenhum central como Pepe, daí a irritação.