Portugueses em Roma

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Nos mais inesperados recantos de Roma, encontramos referências a portugueses, não apenas aos milhares de "romeiros" que, ao longo dos séculos, demandaram a capital da civilização, primeiro centro de peregrinação do ocidente, mas falo de quantos aqui viveram e tiveram influência, marcando a vida romana até aos nossos dias. E as expressões "à portuguesa" e "non fare il portoghese", suscitam curiosidade, parecendo pejorativas. Significam, é certo, entrar sem pagar, mas partem de uma realidade histórica positiva, pois têm como base o privilégio dado pelo Papa Leão X, filho de Lourenço de Médicis, na sequência da majestosa e inesquecível Embaixada enviada por D. Manuel I ao Papa.

Em sua lembrança o Centro Nacional de Cultura regressou agora à cidade eterna, ao encontro da nossa história. Foi essa mítica embaixada de há seis séculos composta por mais de cem pessoas, chefiada por Tristão da Cunha, nomeado em 1505 primeiro governador da Índia, sendo acompanhado por Diogo Pacheco e João de Faria e tendo como secretário Garcia de Resende, o célebre poeta organizador do "Cancioneiro Geral". Em 12 de março de 1514, a embaixada desfilou nas ruas de Roma com grande aparato, perante uma multidão entusiasmada e foi recebida pelo Papa no Castelo de Sant"Ângelo a 20 desse mês. Os emissários eram portadores de presentes extraordinários - pedrarias, tecidos, joias, cavalos persas, uma onça de caça, dois leopardos, um jaguar, papagaios e um elefante albino, de nome Hanno, que foi retratado por Rafael Sanzio, e que executou mirabolantes habilidades, ajoelhou três vezes perante o Pontífice e espargiu água sobre os membros da Cúria, para gáudio de todos. O paquiderme tornou-se mascote de Leão X, tendo morrido dois anos depois, com direito a sepultura no Pátio Belvedere do Palácio Apostólico e a um epitáfio escrito pelo próprio pontífice. No ano seguinte, D. Manuel tentou oferecer o rinoceronte, celebrado numa gárgula da Torre de Belém e na gravura de Dürer, recebido do Sultão de Cambaia e oferecido ao rei por Afonso de Albuquerque. Infelizmente, o rinoceronte foi enviado para Roma, mas não chegou vivo, recebendo Leão X o animal empalhado, em fevereiro de 1516. Foi em gratidão de tão sumptuosa homenagem, que o Papa Médicis concedeu aos portugueses o privilégio de poderem entrar em recintos públicos e espetáculos sem pagar, desde que se identificassem. Foram, porém, os abusos de muitos romanos, que falsamente se diziam portugueses, que deram à designação um sentido menos positivo. Mas este é apenas um dos muitos episódios que tornam presentes os portugueses em Roma.

Também D. João V, enviaria uma outra auspiciosa Embaixada, dirigida pelo 3.º Marquês de Fontes, D. Rodrigo Almeida e Meneses, ao Papa Clemente XI (1716), integrando os três coches triunfais, que se encontram no Museu de Lisboa: do Embaixador, dos Oceanos e da Coroação, construídos em Roma. Foi, aliás, na sequência desta Embaixada que Lisboa passou a ter dignidade Patriarcal. E se falamos do período joanino, em que a cooperação artística atingiu um auge, lembramos os exemplos maiores do Cardeal D. Nuno da Cunha e Ataíde e do futuro Bispo do Porto Frei José Maria da Fonseca e Évora. Percorrendo as ruas romanas, mesmo sem falar de Santo António dos Portugueses, deparamo-nos na via del Corso com a memória do célebre Cardeal de Alpedrinha, D. Jorge da Costa, falecido aos 102 anos, servidor de 5 Papas e detentor de 7 títulos cardinalícios. Na via della Ripetta, encontramos alusão a Leonor da Fonseca Pimentel, heroína e mártir da revolução liberal napolitana, na via dei Condotti, ao grande Domingos António de Sequeira, sob os auspícios de D. Alexandre de Sousa e Holstein, e na via Bocca di Leone, ao lugar onde dormiram D. Pedro V e seu irmão D. Luís, quando fizeram o mítico "Grand Tour", que fazia parte da formação completa, dos europeus cultos... São inesgotáveis as referências, mas a elas voltaremos.

Administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

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