Qual é o estado da Saúde dos Portugueses?.Nas últimas décadas assistimos a uma melhoria significativa do estado de saúde da população, principalmente devido à melhoria das melhores condições de vida e ao rápido progresso e inovação na medicina. Temos em Portugal vários indicadores que suportam essa evolução, como a esperança média de vida que, entre 2000 e 2019, registou um aumento superior a cinco anos, ou as taxas de mortalidade infantil e materna, que estão ao nível das melhores do mundo. No entanto, há situações que necessitam de atenção urgente, como: metade dos portugueses com mais de 16 anos afirmou, em 2019, estar de boa saúde, contrastando com os dois terços registados na UE. Também quatro em cada dez portugueses (>16 anos) sofre de, pelo menos, uma doença crónica, com maior prevalência nas pessoas com menor rendimento. Estes são desafios que persistem e representam oportunidades de melhoria..CitaçãocitacaoQuatro em cada 10 portugueses com mais de 16 anos sofre de, pelo menos, uma doença crónica, com maior prevalência nas pessoas com menor rendimento..Quais as preocupações que existem e os alertas que devem ser feitos?.O desequilíbrio etário, com o acelerado envelhecimento da população e a diminuição dos nascimentos, marca fortemente o perfil de saúde e de doença, com estimativas a apontar para um agravamento da situação. Assistimos a um aumento significativo da carga da doença crónica (doenças cardiovasculares, tumores malignos ou diabetes), que acontece em populações cada vez mais jovens..Cerca de um terço de todas as mortes registadas em 2019 podem ser atribuídas a fatores de risco comportamentais, o que realça a importância da alteração de comportamentos prejudiciais à saúde - sedentarismo, alimentação com alto teor calórico, stress quotidiano, consumo de tabaco e álcool - para estilos de vida mais saudáveis. .Também as desigualdades em saúde e as disparidades regionais realçam o peso que a condição socioeconómica tem no estado de saúde. As alterações climáticas, incluindo fenómenos meteorológicos extremos, como ondas de calor, tempestades, cheias, secas, conduzem a graves repercussões na saúde humana e constituem um dos grandes desafios à escala global. Apesar de Portugal ter uma esperança média de vida à nascença das mais elevadas da Europa, é um dos países europeus com menos anos de vida saudáveis. É prioritário alterar esta situação, para que possamos viver mais anos com saúde. No conjunto, são desafios cada vez mais complexos que afetam a sustentabilidade dos sistemas de saúde..A pandemia mudou a saúde dos portugueses?.A pandemia veio intensificar as disparidades sociais e em saúde. Grupos que se encontravam em carência de recursos sociais e económicos, em situações de isolamento ou solidão, ou com vulnerabilidades em saúde, atualmente tendem a apresentar ainda maiores fragilidades sociais e maior risco de doença. Falamos de grupos em situação de pobreza e exclusão social, quer sejam pessoas mais velhas, famílias monoparentais ou migrantes..CitaçãocitacaoCerca de um terço de todas as mortes registadas em 2019 podem ser atribuídas a fatores de risco comportamentais, o que realça a importância da alteração de comportamentos prejudiciais à saúde - sedentarismo, alimentação com alto teor calórico, stress quotidiano, consumo de tabaco e álcool..A pandemia expôs, de forma inequívoca, a urgência de priorizar a saúde mental em todas as vertentes - promoção, prevenção, tratamento e reabilitação - com enfoque no indivíduo, na família e nos diferentes contextos do percurso de vida (escola, trabalho, lazer, ...)..Por outro lado, veio demonstrar, ao mundo a importância de se robustecer a força de trabalho na saúde, mas também a necessidade de sistemas de saúde mais resilientes, com capacidade para responder aos desafios atuais e futuros, como: a recuperação dos impactos negativos da pandemia, a necessidade de desenvolver novos modelos de cuidados centrados nas necessidades das pessoas (com recurso à saúde digital e a uma maior integração de cuidados), a sustentabilidade dos serviços de saúde e, simultaneamente, a preparação para lidar com potenciais emergências em saúde..No global, a pandemia tornou indiscutível que os contextos em que as pessoas vivem, aprendem ou trabalham, influenciam criticamente o seu bem-estar físico, mental e social, e traduzem desigualdades em saúde. Precisamos urgentemente de uma mudança de paradigma, colocando o foco no "ser saudável" e não apenas na doença, no manter as pessoas saudáveis, com qualidade de vida, bem-estar e com recursos que permitam aos indivíduos e comunidades promover a saúde ao longo do seu percurso de vida..Sabemos também que nenhum sistema de saúde poderá ter a seu cargo, de forma isolada, a solução aos atuais desafios em saúde..O que deve ser feito para mudar a situação?.Muito já se sabe sobre os mecanismos que influenciam a saúde, como interagem entre si e o que pode ser feito. A promoção da saúde e a prevenção da doença são hoje dois eixos fundamentais em saúde pública. O grande desafio é: como concretizar estas mudanças de forma a obter ganhos em saúde? .Uma das prioridades terá de ser colocar o foco na intersetorialidade - a saúde em todas as políticas - e reforçar o trabalho conjunto com múltiplos atores, protagonistas e setores (desde o poder local e governamental às entidades públicas e privadas ou à academia e sociedade civil, envolvendo urbanismo, ambiente, educação, social e cultura)..Citaçãocitacaos estudos que a Escola tem desenvolvido mostram-nos que níveis reduzidos de literacia em saúde levam a dificuldades na autogestão da saúde e da situação de doença (e.g. doença crónica) e a um acesso limitado ou desadequado aos serviços de saúde, incluindo uma procura mais frequente das urgências..É hoje muito clara a importância de uma maior integração entre o setor da saúde e o setor social. Já falámos do desafio do impacto dos determinantes sociais (rendimento, condições habitacionais, educação ou suporte social) no estado de saúde e na sobreutilização dos serviços de saúde..A Escola Nacional de Saúde Pública, em conjunto com autarquias e parceiros da saúde, em diversos territórios do país, está a trabalhar na implementação da Prescrição Social, uma iniciativa inovadora de integração de cuidados de saúde e sociais, centrada nos utentes, que dá resposta às necessidades sociais, emocionais e do quotidiano que afetam a saúde e bem-estar das pessoas..É preciso realçar a participação do cidadão como um aspeto crítico. Promover a literacia em saúde e a capacitação dos cidadãos tem que ser uma prioridade. A literacia em saúde é um conceito que tem sido cada vez mais falado, mas é ainda pouco compreendido na sociedade em geral e pouco operacionalizado..Para favorecer uma efetiva participação do cidadão como agente ativo na promoção da saúde, e nas decisões e intervenções que afetam a saúde de todos, é preciso garantir que tem capacidade de encontrar informação fidedigna, de a compreender e de a aplicar. É preciso que perceba que comportamentos adotar ou evitar?A que serviços deve recorrer e como o fazer? Como comunicar com os profissionais de saúde?.Os estudos que a ENSP tem desenvolvido mostram que níveis reduzidos de literacia em saúde levam a dificuldades na autogestão da saúde e da situação de doença (episódios agudos) e a um acesso limitado ou desadequado aos serviços de saúde, incluindo uma procura mais frequente das urgências..Finalmente, é fundamental garantir a resiliência e a sustentabilidade do sistema de saúde português e, em particular, do SNS. Apenas um sistema de saúde forte, resiliente e adequado às necessidades da população poderá, efetivamente, contribuir para uma melhor saúde. Depois de uma pandemia, urge transformar as respostas da saúde e reforçar modelos de cuidados de saúde, adequados aos atuais e aos novos desafios..Citaçãocitacao No global, a pandemia tornou indiscutível que os contextos em que as pessoas vivem, aprendem ou trabalham, influenciam criticamente o seu bem-estar físico, mental e social, e traduzem desigualdades em saúde. Precisamos urgentemente de uma mudança de paradigma, colocando o foco no "ser saudável" e não apenas na doença..Os cuidados chegam a todos os portugueses da mesma forma?.Temos um SNS universal e tendencialmente gratuito, o que deverá garantir o acesso a cuidados de saúde a todos e evitar os efeitos empobrecedores dos problemas de saúde. No entanto, no país existem importantes desigualdades em termos de necessidades de saúde não satisfeitas e de acesso e utilização de cuidados..Por exemplo: Em 2019, Portugal encontrava-se entre os países da OCDE com maiores desigualdades entre os mais pobres e os mais ricos, em termos de proporção das pessoas que não acediam a cuidados de saúde, bem como uma maior proporção de agregados familiares que tinham dificuldade em suportar cuidados de saúde..Por outro lado, apesar de apresentar uma proporção elevada de pessoas que tinham consultado um médico no último ano (acima da média da OCDE), a diferença entre os mais pobres e os mais ricos era superior à média da OCDE..Há também um paradoxo a ultrapassar, pois as intervenções aplicadas acabam muitas vezes por só alcançar quem já está mais próximo dos serviços de saúde, e "deixam para trás" os segmentos da população com mais necessidades em saúde..É preciso respostas de maior proximidade que envolvam a participação ativa de vários intervenientes para que sejam adequadas aos contextos específicos e necessidades reais. A ENSP está a trabalhar neste sentido, em dois projetos reconhecidos pela OMS, no controlo da Diabetes e na utilização dos serviços de saúde por populações migrantes..Citaçãocitacao Portugal encontrava-se entre os países da OCDE com maiores desigualdades entre os mais pobres e os mais ricos, em termos de proporção das pessoas que não acediam a cuidados de saúde. .Que recomendações faz para melhorar a saúde em Portugal?.O caminho passa por uma mudança de paradigma, onde o foco deixa de estar na doença e passa a estar na promoção da saúde e na prevenção da doença, onde literacia em saúde e a capacitação do cidadão assumem um papel central. Um paradigma onde deixamos de ver a saúde por silos, e se promove a integração de cuidados e uma atuação intersetorial, com o cidadão no centro do sistema de saúde..A ENSP-Nova tem no seu ADN promover a saúde pública em Portugal, e nesse sentido estamos comprometidos com o nosso papel ativo na transformação necessária. Há 55 anos que a Escola forma profissionais nas áreas da saúde pública, promoção da saúde, medicina do trabalho e gestão em saúde..Temos a missão de formar profissionais do futuro, altamente diferenciados, que se distinguem pelas competências ao nível da inovação e utilização da tecnologia digital, mas também pelas competências interpessoais (comunicação, trabalho em equipa), de flexibilidade e adaptabilidade necessárias às mudanças nas práticas de cuidados de saúde, e de capacidade de encontrar soluções em contextos complexos e dinâmicos. Estamos também focados em integrar áreas críticas, como a ciência de dados e a inteligência digital..A investigação que fazemos gera evidência científica útil para políticas, estratégias e intervenções que sejam efetivas em ganhos em saúde. Respondemos a desafios concretos da saúde das populações e dos sistemas de saúde, através de soluções inovadoras ao serviço das comunidades..Apostamos também numa área que consideramos prioritária em Portugal, a avaliação da implementação e do impacto das políticas e estratégias de saúde - perceber o que funciona, como funciona, porquê e para quem nos contextos reais, numa lógica de melhoria contínua das respostas de saúde, seja ao nível local, regional ou nacional.."A pandemia trouxe uma mobilização maior da população para causas mais lógicas e justas, do ponto de vista da saúde e do ambiente. A população está mais atenta às questões de proteção com a sua saúde e também mais ativa na mudança de hábitos". Quem o afirma é o presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública (ANMSP), Gustavo Tato Borges, que na véspera do Dia Mundial da Saúde, que se assinala amanhã, dia 7, diz ao DN que, "de uma forma global, a saúde dos portugueses é boa, mas ainda há muita margem de manobra para se intervir, do ponto de vista de comportamentos preventivos e do ponto de vista da resposta em cuidados e de mortes evitáveis"..O médico explica que três anos depois do início da covid-19, uma das situações a que a Saúde Pública está a dar mais resposta envolve doentes psiquiátricos descompensados. "Uma das situações mais preocupantes são os utentes psiquiátricos descompensados, que tiveram durante o tempo de pandemia um acesso mais reduzido aos cuidados e a quem agora temos de responder com mandados de condução para os forçar ir a uma urgência para serem avaliados e, possivelmente, internados", assume, sublinhando: "Estamos a descobrir acumuladores de lixo, de objetos e de animais, o que tem levado a um trabalho muito específico com as câmaras municipais e com os serviços de veterinária"..Outra preocupação está ligada a uma realidade que não é pós-pandémica. "Existe há muito e é muito difícil de atuar. Tem a ver com a sobrelotação em casas de imigrantes ou de pessoas de rendimentos baixos, o que provoca situações de saúde problemáticas". A última grande preocupação referida pelo médico, e sobre a qual diz revelar ausência de educação para uma vida ou atividades saudáveis, tem a ver com "o aumento da frequência de infeções sexualmente transmissíveis. Há um aumento no número de pessoas que apresentam estas situações e a quem é necessário enviar para tratamento. Isto é preocupante porque tem a ver com práticas de educação sexual que estão a falhar". Mas Gustavo Tato Borges não esquece os doentes crónicos que, com a pandemia, foram "menos acompanhados e agora têm diagnósticos tardios"..Como diz, este é o lado negativo da Saúde, mas há um lado positivo. "Há uma vontade maior em fazer uma vida mais ativa e saudável. As pessoas estão mais preocupadas com alguns aspetos, como a Saúde Mental no local de trabalho, com os ambientes salutogénico e com uma alimentação mais saudável"..O presidente ANMSP admite que se nota "uma mudança de comportamentos em relação a algumas situações. Por exemplo, hoje, uma boa parte da população está preocupada em evitar gripes e constipações". De uma forma geral, "há também mais preocupação com questões ambientais que possam prejudicar a Saúde. Há muito mais queixas de lixo acumulado ou de espaços sobrelotados. As pessoas começaram a valorizar e a proteger o espaço habitacional"..Por tudo isto, diz "a sociedade está mais mobilizada". Agora, é preciso dar resposta às necessidades e mais educação em saúde.