Pop Electrónica: Os dez discos fundamentais

Fruto de uma revolução tecnológica que levou os sintetizadores a um espaço de protagonismo em algumas esferas da produção musical na segunda metade de 70, a ideia de uma pop electríonica ganhou forma depois de uma série de operações pioneiras, as mais bem sucedidas registadas e editadas pelos Kraftwerk. Ao apelo do desafio tecnológico juntou-se uma postura de antecipação científica, e na alvorada de 80 a pop torna-se electrónica.
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1978. KRAFTWERK «The Man Machine»
Depois de alguns ensaios em discos anteriores, os Kraftwerk apresentam em The Man Machine o seu primeiro álbum de canções, definindo também aquela que ficaria na história como «a» bíblia de referência da pop electrónica. A arquitectura estrutural dos temas decorre directamente das experiências já reveladas nos dois álbuns anteriores, mas desta feita as palavras e organização interna dos elementos (sugerindo inclusivamente refrões) acaba por definir um magnífico lote de canções. The Model ou The Robots são duas das pérolas de um álbum que fez revolução, marcou o seu tempo e ditou vasta herança.

1981. DEPECHE MODE  «Speak & Spell»
Nascidos em Basildon no final da década de 70, os Depeche Mode são uma das muitas bandas de pop electrónica que florescem com a alvorada de 80. São revelados através da compilação da Some Bizzarre em 1980, mas logo depois seduzem Daniel Miller, o «patrão» da Mute Records, nova editora que neles encontra uma banda na qual deposita grandes esperanças. O sucesso de New Life e Just Can't Get Enough, segundo e terceiro singles, assegura a mediatização do álbum de estreia, no qual Vince Clarke se assume como compositor principal. O músico abandonaria o grupo pouco depois.

1979. GARY NUMAN«The Pleasure Principle»
Depois da estreia nos Tubeway Army, o sucesso bateu, inesperadamente, à porta de Gary Numan com a canção Are Friends Electric?, do álbum Replicas. Meses mais tarde, seguindo a rigor as regras de fé electrónica, o sucessor The Pleasure Principle acabaria por elevar o cantor a um estatuto de estrelato que até então era domínio para «deuses» rock. Considerado como uma das referências do que então se chamou cold wave (pelo carácter glacial dos arranjos e as temáticas nocturnas e cibernéticas), Gary Numan traça aqui raízes de linguagens que hoje conhecem herdeiros em nomes possantes do rock industrial.

1981. YELLO «Solid Pleasure»
Um dos mais curiosos e frequentemente ignorados entre os projectos da geração electro pop de inícios de 80, os suíços Yello são, ainda hoje, um duo constituído por Dieter Meier e Boris Blank.O primeiro é um multimilionário e membro da equipa de golfe helvética; o segundo, um compositor de indubitável visão e acutilante sentido estético. Estreiam-se em disco precisamente com este álbum, que se destaca das demais visões pop electrónicas da época pela forma como concilia diferentes referências musicais, dos ritmos latino-americanos às mais elaboradas teias industriais. Um clássico esquecido.

1980. BUGGLES «The Age Of Plastic»
A canção Video Killed The Radio Star não só serviu, em 1979, de cartão de visita para uma nova ordem nas lógicas da divulgação musical (mais concretamente a entrada em cena da MTV), como deu à electro pop o seu primeiro êxito global. Meses depois do single, o álbum confirmava a visão pop futurista de Trevor Horn, apresentando uma galeria de oito canções formalmente irrepreensíveis. O futuro corre nas entrelinhas de canções que respiram uma atmosfera de antecipação científica. A música robótica dos Kraftwerk ganhava aqui um requinte e uma complexidade que sublinhava a era da complexidade pop de 80.

1981. HEAVEN 17 «Penthouse And Pavement»
Resposta frontal à segunda geração dos Human League, os Heaven 17 surgem quando Ian Craig Marsh e Martin Ware recrutam o velho amigo Glenn Gregory (voz) para formar os Heaven 17, a princípio tidos como uma das faces de acção da British Electric Foundation.Se bem que o sucesso apenas os abrace no segundo álbum, este Penthouse And Pavement assegurou ao trio uma das mais eleboradas e inteligentes estreias da «classe de 81». Uma face assume o ritmo como pulsão dinâmica; a outra investe nos cenários... Em conjunto apresenta-se um registo superior de pop electrónica.

1981. HUMAN LEAGUE «Dare»
Depois da cisão interna em finais de 1980, nascem a British Electric Foundation (da qual emergirão os Heaven 17) e uns novos Human League, com formação alargada, da qual se destaca a presença de duas vozes femininas. Com nova imagem e maior luminosidade na composição, o grupo apresenta Dare como novo manifesto de intenções. Canções como Don't You Want Me ou Oper Your Heart são rapidamente transformadas em hinos da nova geração que neles identifica um sentido de modernidade futurista. O disco é ainda hoje uma referência para novos projectos, tal e qual se verificou este ano, nos domínios do electroclash.

1981. OMD «Architecture & Morality»
O terceiro álbum dos Orchestral Manoevers In The Dark não só representa a obra-prima da sua discografia, como assegurou em 1981 uma visão mais elaborada de uma linguagem que começava a gerar êxitos em série. O duo de Liverpool mostra aqui a sua face mais melancólica, conciliando a experimentação com a arte de talhar canções pop, não evitando em alguns momentos o design de ambientes com algumas intenções épicas. Souvenir ficou registado como um dos mais significativos clássicos do grupo. Mas não podemos esquecer peças como Maid O Orleans ou Joan Of Arc.

1981. SOFT CELL «Non Stop Erotic Cabaret»
Num ponto comum confluiam rotas da cultura underground de finais de 70 e um sentido pop que não escondia os sabores melodistas das grandes canções dos anos 60. Com uma imagem e temáticas que expressavam uma clara oposição ao glam futurista de inícios de 80, os Soft Cell entram em cena como visionários marginais electro pop. O inesperado êxito de Tainted Love transporta-os, prematuramente, para um estatuto de estrelato que acabaria por minar a evolução e vida futura do próprio duo. Este é, contudo, o seu cartão de visita, e uma primeira amostra da versatilidade criativa e performativa de Marc Almond.

1982. YAZOO «Upstairs At Eric's»
Ao sair dos Depeche Mode , Vince Clarke encontrou uma nova voz em Alison Moyet, com quem formou então os Yazoo. O duo viveu vida curta (entre 1982 e 84), mas gerou alguns incontornáveis clássicos da geração electro pop de 80, como o single de estreia Only You (na herança da clássica balada de 60) ou os mais dançáveis Situation (single apenas nos EUA) e Don't Go. Upstairs At Eric's, o primeiro dos dois álbuns dos Yazoo é um objecto estranho, que reúne num mesmo espaço uma série de canções de formas claras, com um conjunto de experiências, que seriam abandonadas no segundo disco.

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