Político alemão sugere testar imigrantes pelo QI

Governo rejeitou e criticou ideia de membro do partido de Angela Merkel
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A ideia morreu à nascença, mas serviu para testar o ambiente político alemão no que diz respeito à questão da imigração. Peter Trapp, porta-voz para a área da política interna da União Democrata-Cristã, CDU, em Berlim, sugeriu que os imigrantes passem a ser escolhidos pela sua inteligência, sendo submetidos a testes de QI. Foi de imediato criticado pela generalidade da classe política do país, desde a coligação conservadora e liberal que está no Governo, até aos sociais-democratas e aos verdes na oposição.

"Temos de determinar critérios verdadeiramente úteis na admissão de imigrantes no país, para além de boa formação profissional e competência. A inteligência deve fazer parte desses critérios e eu sou a favor de testes de inteligência para os imigrantes", declarou em entrevista ao Bild. Membro da divisão berlinense do partido que é liderado pela própria chanceler Angela Merkel, Trapp referiu "que esta questão não deve continuar a ser um tabu".

Aberrante e discriminatória. Assim foi classificada a sua ideia por um porta-voz do Governo. "Não demonstra nenhuma inteligência. Sugerir que os imigrantes são estúpidos é claramente algo que é discriminatório", afirmou ontem Christoph Steegmans, citado pelas agências internacionais. Os Verdes, através de Memet Kilic, porta-voz para a imigração, disseram "que era de esperar uma política migratória mais humanitária por parte de um partido cristão".

Apesar das críticas, Trapp recebeu o apoio de Markus Ferber, que é eurodeputado pela CSU - a congénere bávara da CDU. "O Canadá já faz estes testes e além disso exige aos filhos dos imigrantes um quociente de inteligência mais alto do que aos filhos dos nativos", disse ao mesmo jornal tablóide. O Canadá tem um sistema de pontos para os candidatos a imigrantes que dá preferência às boas competências linguísticas e à vasta formação profissional, mas não há um teste complementar à inteligência dos candidatos, sublinhou a Spiegel online.

Na maior economia da UE há neste momento uma tentativa para equilibrar a balança migratória, entre os alemães altamente qualificados que vão para os países que desenvolvem tecnologia de ponta e os imigrantes pouco qualificados que acorrem ao país, no âmbito do reagrupamento familiar, lembrou ontem o El Mundo online.

As divisões sobre a imigração sempre existiram na Alemanha, desde os tempos em que os chamados trabalhadores convidados vieram ajudar a economia do país nas décadas de 60 e 70. Isso explica porque é que a comunidade turca é a maior do país. Também existem muitos portugueses, 140 mil oficialmente inscritos. "O número total será superior a isso, pois muitos não estão inscritos, outros vêm trabalhar apenas por dois ou três meses", disse ao DN o professor de música Rui Paz, ex- -conselheiro das comunidades portuguesas na Alemanha. "Os portugueses estão dispersos um pouco por todo o país, em cidades como Estugarda, Frankfurt, Osnabruck e Düsseldorf", acrescenta este lisboeta de 61 anos que foi para a Alemanha em 1984.

"Penso que essa ideia tem que ver com imigrantes extracomunitários e não da UE. Os portugueses não seriam afectados", declarou ao DN Mário dos Santos, o director do Portugal Post, jornal da comunidade portuguesa com sede em Dortmund. Natural do Porto, com 57 anos, emigrou há mais de três décadas. "Alemanha é um Estado eminentemente social e quem vem aqui bater à porta recebe sempre ajuda. O problema é que há cada vez menos dinheiro, por causa desta crise", explica, lembrando que a ideia de Trapp deve ter a importância relativa. "Amanhã já ninguém fala disso."

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