Poder local

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Não há outro poder em Portugal mais próximo dos cidadãos do que o local, aliás uma das grandes conquistas do 25 de Abril. É assim também que se explica o facto de a coloração política das câmaras ser diferente das opções habituais para a Assembleia da República. Regra geral, os cidadãos têm demonstrado uma maturidade enorme nas escolhas dos seus representantes locais. O que não impede que, nas duas últimas décadas, se tenham verificado fenómenos de gestão danosa, compadrio e tráfico de influências.

Uma investigação do DN publicada em setembro deste ano revelava que 43% dos crimes de corrupção envolviam as câmaras. Prova de que vários processos chegaram a tribunal e muitos autarcas e funcionários camarários foram julgados ou estão a braços com a justiça, embora neste momento só o ex-presidente da Câmara de Oeiras esteja detido, no caso Isaltino Morais, e por fraude fiscal.

A polémica lei de limitação de mandatos dos autarcas, que restringe a 12 anos o exercício da função, foi uma tentativa de prevenir males maiores após um prolongado exercício do poder autárquico. Ou seja, impedir que por via de uma inevitável teia de relações políticas, sociais e económicas nos municípios os "gestores" da coisa pública acabassem por ceder à tentação de tirar proveito próprio do que só deve ser benefício da comunidade.

A lei ajudará à saudável alternância no poder, mas não é ela que resolve o problema da confiança dos munícipes. Esta batalha só será ganha se a administração local estiver disponível para tornar transparentes todos os seus atos de gestão. Até porque, num contexto de crise, as nossas autarquias têm uma importância cada vez maior na qualidade de vida dos cidadãos em questões tão simples como a manutenção dos espaços públicos ou, nas mais complexas, como a intervenção social junto dos mais carenciados.

Crise na Tailândia

A capital tailandesa tem assistido à maior vaga de protestos dos últimos anos. O alvo da contestação tem sido a primeira-ministra, Yingluck Shinawatra, irmã de uma figura simultaneamente popular e controversa no país, e também ele chefe do Governo entre 2001 e 2006, Thaksin Shinawatra. A oposição pede o fim do "sistema Thaksin", alusão ao poder e influência que este exerce, ainda que hoje esteja exilado e tenha contas a prestar perante a justiça do seu país.

As linhas gerais do conflito ocultam uma questão mais profunda que se relaciona com mudanças sociais. Thaksin representa a afirmação de uma nova elite, que resulta do crescimento económico da década de 70 até aos anos 90, com uma diferente base de apoio, novas preocupações e diferente estratégia política. Em confronto com este grupo está a elite tradicional que assiste à deterioração da sua base de apoio e ao assalto da nova elite aos centros do poder. A crise na Tailândia vai para lá da conjuntura política; espelha o choque entre dois modelos - ainda que o termo aqui seja algo exagerado - de sociedade, em que nem tudo é necessariamente mau numa e bom na outra. Uma crise desta natureza não se resolve com a mera substituição de figuras ou partidos políticos no Governo.

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