Pobre Bolsonaro

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Por ter incluído 40 milhões, antes em situação de pobreza, na sociedade de consumo, por ter permitido a milhões de jovens, antes condenados ao analfabetismo, o acesso a cursos superiores, por ter aberto os aeroportos, antes à disposição apenas de uma elite, a brasileiros que jamais haviam sonhado em andar de avião, Lula da Silva é vistos pelos pobres brasileiros como um pai, um herói, um salvador.

Daí, ser muito difícil, a quem quer que o ouse, desviar votos das camadas mais carentes da população do presidente da República de 2003 a 2010.

Coube, em 2022, a Jair Bolsonaro essa tarefa, a julgar pelas sondagens, inglória.

O atual presidente, entretanto, contesta que só Lula se preocupe com o segmento mais pobre, tendo em conta este pacote de medidas do seu governo: em primeiro lugar, incluiu 500 mil no Auxílio Brasil, o Bolsa Família da Era Lula que o seu governo rebatizou; em segundo, prorrogou o prazo de inscrição nesse e noutros auxílios, o chamado Cadastro Único; em terceiro, ofereceu um vale gás; em quarto, deu um auxílio especial a taxistas e camionistas; em quinto, lançou um plano de refinanciamento de dívidas; em sexto, determinou que bancos públicos emprestassem até a inadimplentes; e, em sétimo, acionou uma linha de crédito pagável no futuro.

Extraordinário, não? Ainda para mais se tivermos em conta que estas sete medidas não foram tomadas ao longo dos primeiros três anos e nove meses de governo e sim anunciadas no intervalo de três semanas entre a primeira volta, dia 2, e a segunda, no próximo dia 30, da corrente eleição presidencial.

Se Bolsonaro sentiu um impulso genuíno de deixar um legado para os quase 100 milhões de brasileiros em situação de insegurança alimentar, ou se, pelo contrário, adotou medidas eleitoreiras para os comprar, é uma conclusão que cabe ao prezado leitor.

Entretanto, alguns dados para o ajudar na tarefa.

Em setembro, ou seja, um mês antes de anunciar, de sorriso no rosto, aquelas medidas, Bolsonaro atacava o rival por ser o preferido dos mais carentes. "O PT é composto de pessoas que vieram dos rincões, dos grotões, daqueles locais onde nada poderia sair dali a não ser esse tipo de gente".

Bolsonaro, entretanto, pode só ter lançado dois projetos de lei em 28 anos como obscuro deputado mas não foi por falta de ideias originais, como "a esterilização dos pobres". "Não podemos mais fazer discursos demagógicos, apenas cobrando recursos e meios do governo para atender a esses miseráveis que proliferam (...) Não adianta nem falar em educação porque a maioria do povo não está preparada para receber educação e não vai se educar. Só o controle da natalidade pode nos salvar do caos", disse em 1992.

Em 2015, gabou-se de ter sido um dos dois deputados a votar contra os direitos laborais das empregadas domésticas e mais recentemente afirmou que pobre não precisa de estudar - "afinal para ter uma carroça a vender cachorro-quente não precisa de estudo".

Em 2011, numa palestra na Universidade Federal Fluminense, afirmava que "o voto do idiota é comprado com Bolsa Família".

E em novembro de 2013, subiu ao púlpito da Câmara dos Deputados para vociferar: "O pobre deste país só tem uma utilidade: votar. Título de eleitor na mão e diploma de burro no bolso".

E aí, chegou a alguma conclusão?

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