De vários lados do mundo, chegam obras inéditas de Joana Vasconcelos ao MAAT, em Lisboa, para a exposição Plug-in, que liga a eletricidade, a arte e a sustentabilidade. A exposição vai estar patente até dia 31 de março de 2024..A artista plástica regressa ao MAAT 22 anos depois. Nessa altura, este mesmo sítio era um armazém, conhecido como a carpintaria, e foi neste local que Joana Vasconcelos apresentou alguma das peças depois de ser reconhecida, em 2001, pelo prémio EDP Novos Artistas. "Sinto-me muito orgulhosa e muito agradecida por ter ganho este prémio", frisou relembrando ontem aquele momento. Agora voltou à sua "casa de partida".."Isto para mim é uma espécie de concretização de um sonho. E poder ver que fez sentido continuar a acreditar nesta estranha forma de vida que é ser artista. Estes anos todos de trabalho em Portugal e no estrangeiro tornam possível estar aqui hoje com esta quantidade de obras", disse Joana Vasconcelos em conversa com o DN..A maioria das peças expostas estão pela primeira vez em Lisboa, tendo viajado por outros países desde Itália a Macau. Todas as obras ligam-se igualmente pelas referências a Portugal, dos tecidos aos bordados..A Árvore da Vida, que esteve exposta na Villa Borghese, em Roma, é uma das peças mais recentes que faz parte a exposição. Foi idealizada e feita durante os tempos da pandemia. Com a equipa em casa, Joana pediu aos artesãos para fazer as folhas para a árvore. Nesse tempo de confinamento foram bordadas à mão 140 mil folhas em canutilho de Viana do Castelo. "Esta peça só foi possível porque estávamos em confinamento. Foi fruto de um tempo anormal", afirma a artista durante a visita de imprensa. Esta obra representa a árvore mitológica em que Dafne, figura da Grécia antiga, se torna quando fugia às investidas amorosas de Apolo. É também no mesmo espaço que Joana Vasconcelos mostra ao público português pela primeira vez os seus desenhos, uma parte mais privada da sua vida artística..No exterior e à beira do rio Tejo, encontram-se duas obras que tiveram expostas no Guggenheim: a I"ll be your Mirror e o Solitário..A peça I"ll be your mirror é uma máscara feita com 255 molduras e 510 espelhos de mão. Esteve em exposição em Serralves, mas é primeira vez que se encontra no exterior e em Lisboa. Esta obra representa identidade e uma retrospetiva de como nos interpretamos. Já as 110 jantes de automóvel e 1450 copos de whisky em cristal fazem o Solitário, um anel de noivado que representa a felicidade ligada ao estereótipos, que no caso feminino representa o casamento..Na sala principal do MAAT encontra-se suspenso a Valkyrie Octopus, vinda de Macau. Inspirada na mitologia nórdica, são seres que sobrevoam os campos de batalha para reviver os guerreiros. Esta foi uma encomenda do hotel e do casino MGM Macau. A peça é feita com diferentes materiais têxteis como diferentes tecidos e croché. Com 15 metros de cumprimento, esta foi a primeira Valkyrie que artista fez.."Começámos a juntar artes e cultura no MGM em 2007. Queríamos trazer mais arte para o nosso espaço. Já tínhamos visto muito sobre a Joana e vimos aquilo que ela fez em Versalhes. Foi quando um amigo em comum nos apresentou e pensámos "isto é perfeito", e convidamos a Joana para vir a Macau. Foi a primeira vez que tivemos uma peça tão grande dentro do hotel", explicou Cristina Kuok, do MGM Macau em conversa com o DN..A outra Valkyrie da Dior que esteve em Paris irá viajar até Macau e ficará exposta no segundo hotel do grupo MGM. "Estas peças são como embaixadores que divulgam Macau como destino de lazer para todos no mundo. Queremos sempre promover a arte. O turismo não é só ir às compras e comer é também arte e cultura", acrescenta. .Cristina Kuok relembra que em 2015 pediu à artista portuguesa para mostrar um pouco de Lisboa na sua peça. "Acho que é muito importante trazer um bocadinho de Lisboa para Macau devido à história entre os dois locais e para mostrar às pessoas essa história", frisou..Para terminar, na última sala estão as três obras que deram o nome à exposição, Plug-in, devido aos carros e eletricidade. Ao entrar na sala, ouve-se a música de Frank Sinatra Strangers in The Night, que dá nome à própria peça: uma cabine rodeada de faróis de carros que piscam. Uma peça que é inspirada na prostituição de Monsanto.."Eu tinha o meu atelier naquela zona e resolvi fazer uma peça para proteger estas mulheres. Foi também com esta peça que entrei na coleção do EDP", contou Joana Vasconcelos..Esta obra está em diálogo com outras duas feitas com carros: Dragrace e War Games..War Games foi construída em 2011 com o primeiro automóvel da artista, um Morris Oxford, oferecido pelo avô. Joana Vasconcelos só o conduziu durante dois anos, mas guardou-o para a criação de uma obra de arte. No interior, o carro encontra-se cheio de brinquedos. Já no exterior estão várias espingardas de plástico e luzes LED vermelhas. Os brinquedos e as espingardas representam as brincadeiras perigosas e violentas das crianças..A obra Dragrace foi construída durante a pandemia. Joana Vasconcelos transformou um Porsche 911 Targa Carrera num Coche. As peças douradas que decoram o automóvel de luxo foram criadas pela Fundação Ricardo Espírito Santo Silva..2023 está a ser um ano glorioso para a artista. Joana Vasconcelos vai ainda mostrar três peças nas galerias Uffizi e no palácio Pitti, em Florença (Itália), de 4 de outubro e até 14 de janeiro de 2024. No dia 18 de outubro, irá inaugurar em Londres a terceira edição da conferência REBOOT, que apoia causas sociais..No início do ano, a artista plástica apresentou a Valkyrie Miss Dior no Jardin des Tuillerie, em abril inaugurou a Árvore da Vida e em junho apresentou o Bolo de Noiva em Waddesdon Manor, no Reino Unido. Em Portugal, será ainda divulgado hoje uma obra da artista encomendada para o novo edifício Infinity, em Sete Rios..mariana.goncalves@dn.pt