Há uma dificuldade concreta. A Administração Central está basicamente bloqueada ao nível da contratação de pessoas, enquanto a Administração Local, bem como as empresas públicas ou os reguladores públicos, não o estão ao mesmo nível. Isso cria, naturalmente, uma desigualdade dificilmente justificável. O melhor, creio, seria criar uma base de recrutamento universal para todos os serviços públicos, e que permitisse efetivamente o recrutamento de novos profissionais, sob pena desta desigualdade continuar a inquinar o desempenho de funções nos serviços e a renovação de quadros..Eduardo Paz Ferreira escrevia, em 2016: "A aproximação dos universos público e privado (...) tratou-se de um movimento compreensível, que visava ultrapassar as dificuldades colocadas pela excessiva rigidez do funcionamento da administração pública e que, nalguns casos, permitiu até lucros para o setor público. As principais dificuldades desse movimento resultam do facto de se ter estendido para além daquilo que seria expectável, pondo em causa os poderes do Estado para servir o bem-estar geral, gerando desvios funcionais no exercício dos poderes do Estado, num quadro de fragilidade e perversão do poder político". No entanto, esta contaminação nunca foi ao ponto, eventualmente mais virtuoso, de provocar alterações significativas na estrutura de emprego público, na sua remuneração e no seu recrutamento..Há seguramente que repensar e reconfigurar a Administração Pública, tornando-a mais atrativa e mais competitiva em termos de mercado de trabalho, e mais eficaz do ponto de vista de serviço devolvido à comunidade. É certo que isto se diz desde há décadas... Mas nada foi implementado como decisivo para se obter outro resultado. Desde logo a coberto de uma autonomia quase total do poder local, que fica bem politicamente, mas que é desastrosa em diversos aspetos, do ponto de vista da gestão pública. Quando um presidente de uma junta de freguesia tem uma autonomia de decisão financeira e de contratação de recursos, no seu pequeno território (e até capacidade financeira muito mais disponível), muito mais ampla do que um serviço da Administração Central do Estado, que tem de gerir serviços a serem prestados em todo o território nacional, que resultados se podem esperar?.Quer-se ou não estabelecer uma lógica de recrutamento objetiva e imparcial, que a todos beneficie e que valorize aqueles que são os melhores candidatos? Mesmo se o trade-off seja claro: a troco de um posto laboral público, na prática quase definitivo, oferece-se um salário inferior ao auferível potencialmente no setor privado, em estruturas fortemente hierarquizadas e por vezes francamente injustas. Mas, quanto ao sentido de serviço público e de colaboração com o Estado e para com a comunidade, quero crer que ainda possa ser atrativo para alguns, que preferem trabalhar para o interesse comum em alternativa a trabalhar para os lucros de um qualquer acionista.. Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa