Acabar uma meia maratona em cinco dias pode não parecer uma meta muito ambiciosa. Mas se estivermos a falar de Claire Lomas, que ficou paraplégica há nove anos, o caso muda de figura. A ex-cavaleira de 36 anos fez os 21 quilómetros graças a um par de pernas biónicas. O fato que usa permitiu-lhe percorrer quase cinco quilómetros por dia..A somar a todo o desafio que a atleta britânica concluiu ontem de manhã, juntou-se o obstáculo dos enjoos matinais causados pela gravidez de 16 semanas. "Tive bastantes enjoos. Não tinha a preparação que queria, mas realmente não podia perder esta oportunidade", contou no final da corrida à BBC. A acompanhá-la na distância entre Newcastle e South Shields esteve sempre o marido Dan e na meta esteve ainda a filha Maisie, de 5 anos..Esta não é a primeira corrida de Claire. Em 2012, fez a maratona de Londres, em 16 dias. Foi aí que aprendeu a movimentar-se com o exoesqueleto da ReWalk. Na altura, brincava que tentava aprender a andar antes da filha..Quatro anos depois os movimentos ainda não são fáceis. "É preciso alguma aprendizagem. Não é apenas trabalho físico, é a concentração com cada passo", explicou. O aparelho "não caminha por mim", acrescentou. "Tenho de usar as partes que não estão paralisadas para fazer o aparelho andar"..Claire Lomas ficou paralisada na sequência de um acidente numa prova de equitação, em 2007. O seu cavalo projetou-a contra uma árvore e Claire acabou com pescoço, costas e costelas partidas, um pulmão perfurado e paralisada do peito para baixo. Agora, a ex-cavaleira dedica-se a angariar fundos para a investigação relacionada com a coluna e os problemas de locomoção. Tem conseguido os seus objetivos usando um dos modelos de exoesqueleto que existem no mercado..50 800 euros para andar.O aparelho que Claire usa custou mais de 50 mil euros - montante que a própria angariou junto da família e amigos - e o último modelo fabricado pela ReWalk (voltar a andar, na tradução livre para português) chegou ao mercado por mais de 68 mil euros. No entanto, este não é o único exoesqueleto à venda. E o mais caro - o Rex, que liberta os utilizadores de usarem muletas ou andarilho - chega aos 134 mil euros..O aparelho de Claire funciona graças a sensores nos pés que detetam quando estes são levantados, correias leves para apoiar as pernas e motores para ajudar a rodar as articulações, sensores nas ancas que detetam movimento e sensores na parte superior do corpo que permitem controlar o movimento. Todo o fato biónico tem uma bateria com 8 horas de duração e os utilizadores usam muletas para manter o equilíbrio..Como fez o percurso da meia maratona, Claire não escondeu os problemas causados pelo calor, pelos desníveis no terreno e os ferimentos que as correias lhe causaram. Estes serão ainda alguns dos contratempos que estes fatos têm de melhorar. Outro será tornar possível o controlo do aparelho apenas com o cérebro..A tentativa de devolver a mobilidade das pernas a quem a perdeu começou a ser estudada na década de 1960, pelo Pentágono. Na última década o desenvolvimento de exoesqueletos passou das pesquisas militares para os laboratórios médicos. Surgiram opções do Japão, EUA, Reino Unido, Nova Zelândia, China ou Rússia. Até o Brasil mostrou o resultado de 30 anos de investigação ao colocar um rapaz paraplégico a dar o pontapé de saída do Mundial, em 2014, graças ao projeto Andar de Novo.