Perdido na tradução

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Se Maria Luís fosse ministra das Finanças, Portugal não sofreria sanções. A frase é parente chegada da outra que ouvimos nesta semana - Portugal vai pedir outro resgate -, dita por Wolfgang Schäuble com o desassombro dos profetas. Políticos a fazer previsões, já se sabe o resultado. Eles são melhores a esconder os próprios falhanços, apontando para os dos outros, do que a olhar para a frente com alguma objetividade. Schäuble quis relativizar os problemas do Deutsche Bank, embora não seja novidade para ninguém que o sistema financeiro alemão tenha sido o cliente favorito dos vendedores de banha da cobra de Wall Street. Ah, como eles se deixaram encantar pelos pacotes de hipotecas subprime que luziam ao longe. A credulidade foi de tal forma grosseira que ainda hoje tentam endireitar-se. Maria Luís sofre de um mal parecido: quer fazer de conta que o lixo tóxico que também ainda vegeta nos bancos portugueses, embora por outros disparates anteriores - créditos sem garantias suficientes, créditos politizados e ruinosos -, não tem nada a ver com os riscos que ameaçam Portugal. É evidente que são as 35 horas de jornada laboral que levarão o país outra vez à bancarrota. Alguém acredita nisto? Não restam dúvidas de que a redução do horário da função pública foi decidida por meros cálculos partidários e que transmitiu o sinal errado no momento errado - mas não é isso que mais escurece o presente do país. A fraqueza dos bancos e das empresas que não pagam os seus empréstimos é o problema-chave que não foi resolvido pelo anterior governo. Foram resolvidos outros, este não foi. Passos Coelho mostrou-se sempre convencido de que este monstro, o monstro privado, se dissolveria sozinho. O fruto podre que nascera no mercado seria resolvido pelo mercado, quase sem intervenção pública e pelo simples passar do tempo. Seria ótimo que assim fosse, os contribuintes agradeceriam o milagre, mas os livros de história económica mostram que quando o buraco atinge proporções épicas, o Estado tem de agir para acelerar o metabolismo capitalista. Foi assim nos Estados Unidos, mas não foi assim por cá. Ou os governos atuam com empenho nesta frente ou então aceitam crescimentos pobres do PIB enquanto esperam pela próxima e inevitável recessão. No dia em que o Banco Central Europeu deixar de imprimir dinheiro grátis, veremos quem consegue andar pelo próprio pé. A questão talvez seja essa: o país tem uma margem apertada de tempo útil para resolver o problema, neste contrarrelógio os partidos têm de encontrar o mínimo denominador comum que os faça avançar com o mínimo de atrito e o máximo de sentido de Estado. O governo, porque governa, tem o dever da iniciativa. Os partidos da oposição, porque se opõem, têm o dever da vigilância. Agora que ainda podemos, deixemos Schäuble a falar sozinho e a desculpar-se com a tradução.

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