Como em tudo na vida, ou se tem sorte ou bons advogados. A francesa Vinci teve os dois, como mostra a notícia do Jornal de Negócios sobre as taxas aeroportuárias: vão subir até 18% em Lisboa no próximo ano. Ou seja, a economia portuguesa está manietada em função do colapso financeiro sofrido com a bancarrota e a consequência é a fatura manter-se por décadas..Tudo começou com o acordo feito pelo Estado com a Vinci, em 2012, onde se entregou o monopólio dos aeroportos da ANA em troca de três mil milhões + uma fórmula automática que calcula anualmente os aumentos. Neste caso, pode chegar a 18% na Portela em 2024. Ora, discutir este contrato com José Luís Arnaut é provavelmente perder tempo, mas alerta-nos para a voracidade com que tantos lobbies nos empurram para custos aeroportuários loucos, com fatura paga pelo Estado, para depois andarmos décadas a queixarmo-nos do preço e da sua irreversibilidade..O impacto destas taxas no custo dos bilhetes é grande. Vejamos: a TAP parece ter mudado nos últimos meses. Tem novos conceitos de oferta digital e preços mais competitivos. Estamos, aliás, num momento em que se esbateu muito a diferença entre as low-cost e as companhias de bandeira. Quando comparados os preços, viajar TAP, Ibéria ou British Airways é por vezes mais barato do que as low-cost do costume. Mas serve isto para dizer que, por exemplo, numa reserva Lisboa-Madrid da TAP, nas tarifas mais baixas e sem extras, é possível viajar por 97,79 euros ida e volta. E a composição de custos é espantosa: o bilhete custa 29 euros. As taxas aeroportuárias em Lisboa ficam por 20 euros + 18 em Madrid (38 euros em conjunto). Mais do que o bilhete. Os restantes 30 euros são a taxa sobre o impacto ambiental do querosene..Repare-se: Barajas é dois euros mais barata que a Portela e a ANA ainda não começou a carregar na conta dos passageiros para amortizar o novo aeroporto de Lisboa. É por isso que faz muita impressão esta loucura alegre de um mega-Alcochete por oito mil milhões (entre aeroporto e infraestruturas). Ainda por cima, as alternativas trazem vantagens: Santarém introduz pela primeira vez concorrência no monopólio da Vinci; Alverca alargaria a dimensão do hub atual. Um ou outro seriam investimento privado - oito vezes menor que Alcochete..Não deixa, aliás, de ser curioso que a Confederação do Turismo de Portugal estivesse em silêncio esta semana. Alguém os ouviu tomar uma posição pública contra os 18% da subida das taxas? Haverá algo que afete mais a sua competitividade a longo prazo?.Entretanto: se houve notícias curiosas, uma delas foi a da viagem do Sporting à Áustria via aeroporto de Beja. É evidente que não se pode comparar um charter esporádico versus rotas diárias para Beja. Mas há uma certeza: Beja pode ser útil. O Alentejo há de ser cada vez mais uma pérola para viver e visitar. Mas construir Alcochete significa inutilizar definitivamente Beja. Uma alternativa a Alcochete, na margem Norte do Tejo, permite alargar opções de acesso aeroportuário a mais população a norte da Portela. E Beja, num mundo de aviões mais pequenos e de menor custo (elétricos ou a hidrogénio), pode ser a chave da competitividade do Alentejo. E já lá está. Zero de custo..Prosseguir Alcochete é dar razão a José Sócrates e à equipa que escolheu em 2008 para o grande elefante branco. Desde o Freeport que estávamos habituados que Alcochete fosse uma palavra mágica para esse lobby de má memória. É então altura de quebrar o pensamento mágico do engenheiro da bancarrota e da sua herança trágica.. Jornalista